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16 de novembro de 2009

João Calvino – Comentário sobre Amós

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Escrito por: João Calvino
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Amós, ao falar de suas palavras aqui, não se jacta da aduzir coisa alguma como proveniente de si próprio, mas se declara apenas como sendo o ministro de Deus, uma vez que logo acrescenta que as recebeu por visão. Deus mesmo levantou os Profetas e empregou o labor deles; e, paralelamente, guiou-os por seu Espírito, para que nada anunciassem que não o que dele recebera, mas fielmente comunicassem o que procedera dele somente. Estas duas coisas juntas, pois, bem se harmonizam – que as profecias que se seguem eram as palavras de Amós e que eram palavras reveladas do alto para ele; porque a palavra hzj, chazah, que Amós utiliza significa propriamente ver por revelação, e tais revelações eram denominadas de profecias.

Porém, ele diz que estava entre os pastores de Tecoa. Esta era uma acanhada vila e que pouco antes estivera rodeada por muralhas, havendo sido anteriormente uma aldeia. Ele não cita então sua região por que fosse célebre, ou como se por meio disso pudesse obter mais autoridade ou renome: ao contrário, chama a si mesmo de tecoano porque Deus o tirara de um lugar obscuro para pô-lo sobre todo o reino de Israel. Logo, segundo penso, estão equivocados os que supõem que Amós foi denominado um dos pastores devido às suas riquezas e à quantidade de seu gado; pois, quando pondero sobre tudo isso, não vejo como possa ser. Admito realmente que <ydqn nokdim não são apenas os pastores que fazem o trabalho, mas homens que possuem rebanhos, conduzindo um grande negócio – pois do rei de Moabe se diz ter sido um dqn noked, e que alimentava extensas manadas; porém, isso se dava por pastores assalariados. Quanto ao Profeta, não vejo como isso se lhe pode aplicar; pois Tecoa não era um local famoso pelas riquezas; e, como eu disse, era um pequeno burgo, sem opulência. Não duvido então de que Amós, ao dizer que era pastor, lance desprezo sobre o orgulho do rei de Israel e do povo inteiro; pois, visto que não se haviam dignado a ouvir os Profetas de Deus, um guardador de ovelhas era enviado a eles.

De resto, deve ser observado que ele não é chamado pastor de Tecoa, mas oriundo de Tecoa; e os intérpretes não têm reparado nessa preposição. No capítulo sete veremos que, apesar de Amós ter nascido na tribo de Judá ele, todavia, residia no reino de Israel: pois o sacerdote, após o haver caluniado perante o rei, ordenou que ele fosse para outra parte e comesse seu próprio pão, não perturbando a paz do país. Portanto, habitava lá como forasteiro, numa terra que não era a sua. Houvesse ele sido rico, detentor de muitos bens, certamente teria morado em sua terra natal: por que mudaria de lugar? Visto então ser óbvio que era peregrino na terra de Israel, indubitavelmente era alguém do povo ordinário. De modo que sua baixa condição (ignobilitias – ignobilidade) tinha este propósito: que Deus, por meio dessa, domasse a arrogância do rei de Israel e de todo o povo. Pois sabemos quão inchados estavam em virtude da produtividade da terra e das riquezas. Sendo assim, Amós foi posto sobre eles como Profeta, sendo pastor, a quem Deus trouxera dos apriscos.

O tempo também tem de ser observado quando se diz que ele visionou tais profecias. Isso aconteceu nos dias de Uzias, rei de Judá, dois anos antes do terramoto, e nos dias de Jeroboão, o filho de Joás. Qual o estado daquele período, descrevi na explanação das profecias de Oséias. A história sagrada relata que o reino de Israel prosperou debaixo de Jeroboão II: visto que, embora fosse um homem ímpio e mau, Deus poupou o povo na ocasião, fazendo com que não só as dez tribos permanecessem intactas, mas também que Jeroboão alargasse seu reino; pois havia recuperado algumas cidades que haviam sido perdidas. O estado do povo era então tranqüilo, e a sua prosperidade era tal que o enchia de orgulho, como geralmente ocorre. Uzias também reinou sobre a tribo de Judá de modo tal que coisa alguma adversa predominava ali. Logo depois se seguiu o sismo. O tempo em que este tremor de terra ocorreu não é mencionado pela história sagrada. Porém, Josefo diz que foi quando Uzias se apoderou do ofício sacerdotal e foi ferido de lepra. Por conseguinte, dá esse ataque de lepra e o terremoto como sendo da mesma época. Amós, contudo, tanto quanto os outros Profetas, falava dele como algo bem sabido, de forma que Zacarias, depois da volta do povo, refere-se a ele no capítulo 14: ‘Haverá terror a vós tal como houve no terremoto sob o rei Uzias’. Ele não declara o ano, mas era então de conhecimento comum.

O Profeta, pois, nada mais pretendia senão mostrar, por meio desse evento, que anunciava a vingança de Deus sobre os israelitas quando esses estavam na prosperidade e imersos, por assim dizer, em seus prazeres. E a fartura, como sempre acontece, tornou-os violentos; por esse motivo, ele não foi bem recebido. Mas com isso sua autoridade é mais confirmada para nós, uma vez que ele não lisonjeou o povo na prosperidade, mas severamente o reprovou; e também predisse o que não podia ser antevisto pelo discernimento humano, ou melhor, o que parecia ser completamente improvável. Não tivesse ele sido dotado do Espírito celeste, não podia ter profetizado as calamidades futuras, quando tanto os judeus quanto os israelitas e outros, como eu já disse, afiançavam a si próprios toda sorte de abundância, visto que naquele momento Deus poupou os reinos de Israel e Judá e não executou seu juízo sobre as nações vizinhas.

Devemos agora observar também isto, que as palavras que ele viu eram concernentes a Israel. Somos informados, portanto, como eu já disse, que o Profeta foi especificamente designado para os israelitas, ainda que nascido alhures. Porém, como e em que ocasião ele migrou para o reino de Israel, não sabemos. Quanto ao assunto ora em discussão, isso não importa muito; mas é provável, como eu disse antes, que isso foi feito intencionalmente, para que Deus refreasse a insolência do povo, o qual tanto se vangloriava em sua afluência. Visto pois que os israelitas haviam até então rejeitado os servos de Deus, eram agora constrangidos a ouvir um estrangeiro e pastor os condenar por seus pecados, exercendo o ofício de juiz: aquele que proclama uma destruição iminente é um arauto celestial. Sendo este o caso, percebemos aí que Deus não havia debalde empregado o ministério desse Profeta, porque tem ele por costume escolher as coisas fracas do mundo para confundir as fortes (1.ª ao Coríntios 1), pegando Profetas e mestres da classe mais baixa para humilhar o brio do mundo, pondo o inestimável tesouro de sua doutrina em vasos terreais, para que seu poder (segundo Paulo nos ensina) torne-se mais evidente (2 Co 4.7).

Mas havia uma razão especial quanto ao Profeta Amós, porque foi ele enviado de propósito para verberar as dez tribos; e, como veremos, tratou-as com muita aspereza. Pois não foi polido, mas provou que tinha de se avir com aqueles que não tinham de ser lidados como homem, mas como animais irracionais; sim, piores em obstinação que as bestas inconscientes. Porquanto há alguma docilidade em bois e vacas, especialmente nos carneiros, pois ouvem a voz de seu pastor, seguindo-o para onde ele os leva. Os israelitas eram de todo intratáveis e indomáveis. Era então forçoso pôr sobre eles um mestre que não os trataria de modo cortês, mas exerceria para com eles sua rusticidade nativa. Prossigamos agora; pois dos reinados de Uzias e de Jeroboão, filho de Joás, o segundo com esse nome, falamos no primeiro capítulo de Oséias.

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Sobre o Autor

João Calvino
João Calvino
João Calvino, advogado, teólogo e reformador da Igreja no século 16, nasceu em Noyon, na Picardia, França, em 1509, e morreu em Genebra, Suiça, em 1564. Dotado de mente brilhante, dedicou seus talentos ao serviço de Cristo e de sua Igreja. Calvino destaca-se pela firmeza e precisão de suas convicções bíblicas e gigantismo de sua teologia. Não obstante, quando escrevia ou pregava, apresentava a mensagem do Evangelho com humildade, simplicidade, clareza e absoluta submissão às Escrituras.




 
 

 
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