{"id":148,"date":"2026-04-18T14:23:49","date_gmt":"2026-04-18T17:23:49","guid":{"rendered":"https:\/\/spurgeon.com.br\/?p=148"},"modified":"2026-04-18T17:54:28","modified_gmt":"2026-04-18T20:54:28","slug":"enfermidade-sofrimento-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spurgeon.com.br\/?p=148","title":{"rendered":"Enfermidade, sofrimento, depress\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Cap. 17 do livro <em>Living by Revealed Truth: The Life and Pastoral Theology of Charles Haddon Spurgeon<\/em>, de Tom Nettles<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sei que voc\u00eas me dir\u00e3o que o ouro precisa ser lan\u00e7ado no fogo, que os crentes t\u00eam de passar por muita tribula\u00e7\u00e3o. Respondo: Verdadeiramente tem de ser assim, mas, quando o ouro sabe por que e para que est\u00e1 no fogo, quando entende quem o colocou ali, quem o vigia enquanto est\u00e1 entre as brasas, quem jurou tir\u00e1-lo de l\u00e1 sem dano, e em que pureza incompar\u00e1vel em breve aparecer\u00e1, o ouro, se de fato for ouro, agradecer\u00e1 ao Refinador por t\u00ea-lo posto no crisol, e encontrar\u00e1 doce satisfa\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo nas chamas.1<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em certa ocasi\u00e3o, em meio a um severo per\u00edodo de enfermidade e ang\u00fastia mental, Spurgeon comentou sobre onze mortes ocorridas entre os membros do Tabern\u00e1culo em um \u00fanico m\u00eas. \u201cMuitas vezes nos admiramos\u201d, refletiu ele, \u201cda pequenez do n\u00famero de nossas mortes, muito abaixo da m\u00e9dia das t\u00e1buas de mortalidade.\u201d Em seguida, observou que \u201ca piedade, trazendo consigo temperan\u00e7a, paz e pureza, tende a produzir longa vida.\u201d \u00c0s vezes, por\u00e9m, uma combina\u00e7\u00e3o de outras circunst\u00e2ncias serve para tornar miser\u00e1vel e abreviar a vida at\u00e9 mesmo do piedoso. Spurgeon entrou numa s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias das quais n\u00e3o havia escape; cada uma contribuiu com sua parte para a tens\u00e3o incessante que desafiou sua f\u00e9 e sua sa\u00fade por mais de trinta e cinco anos. Enfermidade e afli\u00e7\u00e3o de um tipo palp\u00e1vel reapareceram com frequ\u00eancia durante os \u00faltimos vinte e dois anos de sua vida. Seu leal \u201cescudeiro\u201d, J. W. Harrald, estimou que, a partir dos trinta e cinco anos de idade, Spurgeon esteve afastado de seu p\u00falpito por um ter\u00e7o do tempo, quer por dor, enfermidade, quer em convalescen\u00e7a.2<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma teologia viva do sofrimento<\/h2>\n\n\n\n<p>Ele j\u00e1 sabia algo disso, contudo, quando tinha vinte e dois anos, pois em janeiro de 1856 pregou, aparentemente com mais do que especula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica: \u201cDeus ensina seu povo todos os dias, pela enfermidade, pela afli\u00e7\u00e3o, pela depress\u00e3o de esp\u00edrito, pelos abandonos de Deus, pela perda do Esp\u00edrito por algum tempo, pela falta das alegrias de sua presen\u00e7a, que ele \u00e9 Deus, e que fora dele n\u00e3o h\u00e1 nenhum outro.\u201d 3 Por mais reais que essas experi\u00eancias fossem para Spurgeon aos vinte e dois anos, pouco a pouco elas se tornariam t\u00e3o reais e t\u00e3o constantes quanto a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Vinte e cinco anos depois, ele ainda se apegava ao prop\u00f3sito divino no sofrimento. Em \u201cThe Sitting of the Refiner\u201d, Spurgeon apontou para a Palavra, a comunh\u00e3o com Cristo e a presen\u00e7a do Esp\u00edrito Santo como meios de purifica\u00e7\u00e3o. Deus est\u00e1 determinado a purificar seu povo, pois os elegeu para a santidade. Ningu\u00e9m precisa queixar-se da elei\u00e7\u00e3o se n\u00e3o tem desejo de santidade. \u201cSenhores\u201d, repreendeu ele, \u201cse voc\u00eas n\u00e3o desejam purifica\u00e7\u00e3o e santidade, por que haveriam de contender com Deus porque Ele n\u00e3o lhes concede isso?\u201d Tamb\u00e9m olhou para uma variedade de interven\u00e7\u00f5es providenciais como a maneira de Deus sentar-se para refinar seus filhos de Levi. \u201cT\u00e3o grande \u00e9 a obstina\u00e7\u00e3o de nossa carne, que o Senhor usa como combust\u00edvel em sua fornalha prova\u00e7\u00f5es agudas e pesadas de diferentes esp\u00e9cies\u201d, enfatizou Spurgeon, sem mudan\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o ao longo de um quarto de s\u00e9culo. \u201cA adversidade assume muitas formas e, em cada uma e em todas as suas fei\u00e7\u00f5es, o Senhor sabe como us\u00e1-la para o benef\u00edcio de seu povo.\u201d Prosseguiu:<\/p>\n\n\n\n<p>Cristo senta-se como Refinador quando tira a prosperidade e reduz o rico \u00e0 pobreza. Muitas vezes ele refina os homens pelas perdas que sofrem de amigos amados. O luto arde como o sopro de uma fornalha e, ah, quanto amor carnal foi consumido por ele! Temos conhecido pessoas grandemente purificadas pelo Esp\u00edrito Santo ao passarem por depress\u00e3o de esp\u00edrito, tristeza interior e pesar da alma. A dor espiritual foi aben\u00e7oada para alguns e a dor f\u00edsica para mais. 4<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon nunca duvidou de que sua dor requintada, suas frequentes enfermidades e at\u00e9 mesmo seu des\u00e2nimo lhe eram dados por Deus para sua santifica\u00e7\u00e3o, segundo um prop\u00f3sito s\u00e1bio e santo. Depois de seis anos, a serem seguidos por mais dezesseis, de tal sofrimento, Spurgeon ofereceu seu pensamento pastoral sobre a quest\u00e3o num artigo intitulado \u201cLaid Aside. Why?\u201d Podemos fazer perguntas a Deus, cria Spurgeon, se o fizermos sem murmura\u00e7\u00e3o. Se um comandante de soldados, por sua pr\u00f3pria vontade, tornasse incapazes de entrar na batalha aqueles que fossem seus combatentes mais zelosos, n\u00e3o ficar\u00edamos perplexos em discernir seus motivos? \u201cFelizmente para n\u00f3s\u201d, respondeu Spurgeon, \u201cnossa felicidade n\u00e3o depende de entendermos a provid\u00eancia de Deus.\u201d O crist\u00e3o \u00e9 capaz de crer mesmo quando n\u00e3o \u00e9 capaz de explicar e se contenta em deixar tudo \u00e0 sabedoria e bondade de seu Pai celestial. \u201cA dolorosa enfermidade que p\u00f5e o ministro crist\u00e3o fora de combate quando ele \u00e9 mais necess\u00e1rio no conflito \u00e9 um bondoso mensageiro do Deus de Amor, e deve ser recebida como tal.\u201d Isso, contudo, deixava Spurgeon perplexo e o levou a afirmar: \u201cmas como isso pode ser assim n\u00e3o podemos dizer com precis\u00e3o.\u201d Procurou, por\u00e9m, tanto pela experi\u00eancia quanto pelo exemplo b\u00edblico, lan\u00e7ar alguma luz sobre o assunto. Cada par\u00e1grafo \u00e9 em si mesmo evid\u00eancia de que Spurgeon escreveu no meio dos estertores de um acesso de severa dor e ang\u00fastia mental. Ao final do artigo, confessou: \u201cJustamente agora, quando a ang\u00fastia enche o cora\u00e7\u00e3o, e o esp\u00edrito est\u00e1 esmagado por dor intensa e sofrimento, n\u00e3o \u00e9 a melhor esta\u00e7\u00e3o para formar um ju\u00edzo imparcial sobre nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, nem sobre qualquer outra coisa.\u201d 5<\/p>\n\n\n\n<p>Cheio de senten\u00e7as que eram unidades autocontidas de significado axiom\u00e1tico, Spurgeon construiu um argumento em favor da instrumentalidade do sofrimento para aumentar a f\u00e9 de algu\u00e9m, encorajar a humildade, desenvolver a paci\u00eancia ao lado da efic\u00e1cia no servi\u00e7o, promover uma imita\u00e7\u00e3o mais profunda de Cristo pela participa\u00e7\u00e3o em seus sofrimentos, proporcionar os benef\u00edcios de uma mudan\u00e7a de atmosfera espiritual na qual frutifique uma fragrante colheita espiritual, suscitar verdadeira simpatia e comunh\u00e3o ao tratar as feridas dos quebrantados de cora\u00e7\u00e3o, e exercer corre\u00e7\u00e3o paternal para uma devo\u00e7\u00e3o mais pura \u00e0 gl\u00f3ria de Deus e \u00e0 sua causa no mundo. Era cuidadoso neste \u00faltimo ponto para evitar a s\u00edndrome dos amigos de J\u00f3. \u201cTodavia, n\u00e3o \u00e9 bom\u201d, advertiu ele, \u201catribuir cada enfermidade e prova\u00e7\u00e3o a alguma falta real, como se estiv\u00e9ssemos debaixo da lei, ou pud\u00e9ssemos ser punidos novamente por aqueles pecados que Jesus levou em seu pr\u00f3prio corpo no madeiro.\u201d Qu\u00e3o indecoroso seria julgar o maior sofredor como o maior pecador; igualmente insensato seria aplicar \u201cregra t\u00e3o err\u00f4nea a n\u00f3s mesmos, e condenar-nos morbidamente quando Deus n\u00e3o condena.\u201d 6<\/p>\n\n\n\n<p>Uma imagem muito impressionante, cheia de farpas penetrantes, ilustrou o entendimento de Spurgeon acerca da detesta\u00e7\u00e3o do Senhor pelo orgulho e de seu uso do sofrimento para obliter\u00e1-lo. \u201cA consci\u00eancia de nossa pr\u00f3pria import\u00e2ncia \u00e9 uma ilus\u00e3o odiosa, mas uma na qual ca\u00edmos t\u00e3o naturalmente quanto as ervas daninhas crescem sobre um monte de esterco.\u201d Sua discuss\u00e3o do sofrimento como oportunidade para o aumento da f\u00e9 fornece um exemplo da do\u00e7ura e do poder condensado do tratamento que Spurgeon dava ao tema:<\/p>\n\n\n\n<p>Consideremos um pouco. N\u00e3o nos \u00e9 bom ficar desconcertados e perplexos, e assim ser for\u00e7ados a exercitar a f\u00e9? Seria bom para n\u00f3s que todas as coisas fossem ordenadas de tal maneira que n\u00f3s mesmos pud\u00e9ssemos ver a raz\u00e3o de cada dispensa\u00e7\u00e3o? Poderia o plano do amor divino ser de fato supremamente, infinitamente, s\u00e1bio se pud\u00e9ssemos medi-lo com a curta linha de nossa raz\u00e3o? N\u00e3o permanecer\u00edamos n\u00f3s mesmos t\u00e3o tolos e presun\u00e7osos quanto crian\u00e7as mimadas e aduladas, se todas as coisas fossem arranjadas segundo nosso ju\u00edzo acerca do que seria adequado e conveniente? Ah, \u00e9 bom sermos lan\u00e7ados fora de nossa profundidade e obrigados a nadar nas doces \u00e1guas do amor poderoso! Sabemos que \u00e9 supremamente bendito sermos compelidos a cessar de n\u00f3s mesmos, a render tanto o desejo quanto o ju\u00edzo, e a jazer passivos nas m\u00e3os de Deus. 7<\/p>\n\n\n\n<p>Essa teologia fora verificada, purificada e temperada em seu cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 1890. Ao pregar sobre Cristo como \u201cNosso Compassivo Sumo Sacerdote\u201d, Spurgeon refletiu: \u201cEu n\u00e3o poderia prosseguir sem aqueles leitos de enfermidade, e aquelas dores amargas, e aquelas noites cansativas sem dormir.\u201d A bem-aventuran\u00e7a vem por meio da dor, se quisermos ser ajudadores do povo de Deus. O crist\u00e3o deve gloriar-se em suas enfermidades e doen\u00e7as, pois elas ser\u00e3o tornadas \u00fateis \u201cpara o consolo do povo enfermo de Deus\u201d. N\u00e3o menos do que isso, Spurgeon se gloriava em sua depress\u00e3o, pois a\u00ed se sentia muito pr\u00f3ximo de Cristo, porque em toda a nossa afli\u00e7\u00e3o ele mesmo tamb\u00e9m foi afligido. Assim tamb\u00e9m ser\u00e1 com o ministro:<\/p>\n\n\n\n<p>Nossas depress\u00f5es tamb\u00e9m podem tender \u00e0 nossa frutifica\u00e7\u00e3o. Um cora\u00e7\u00e3o curvado sob o desespero \u00e9 coisa terr\u00edvel. \u201cEsp\u00edrito ferido, quem o pode suportar?\u201d Mas, se voc\u00ea nunca teve tal experi\u00eancia, meu querido irm\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o valer\u00e1 um alfinete como pregador. Voc\u00ea n\u00e3o pode ajudar outros que est\u00e3o deprimidos, a menos que voc\u00ea mesmo tenha descido \u00e0s profundezas. Voc\u00ea n\u00e3o pode levantar outros do desalento e da depress\u00e3o, a menos que voc\u00ea mesmo por vezes tenha precisado ser levantado de semelhantes experi\u00eancias. Voc\u00ea deve tamb\u00e9m, por vezes, estar cercado por essa enfermidade, a fim de ter compaix\u00e3o daqueles que se acham em caso semelhante. 8<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Desastre do Surrey Music Hall<\/h2>\n\n\n\n<p>Devido ao grande crescimento da congrega\u00e7\u00e3o em New Park Street, a igreja decidiu que realizaria seus cultos matutinos na Capela e os cultos vespertinos em Exeter Hall, a fim de acomodar com mais facilidade as grandes multid\u00f5es que desejavam ouvir Spurgeon. De 8 de junho at\u00e9 24 de agosto de 1856, a congrega\u00e7\u00e3o reuniu-se em Exeter Hall, mas considerou o arranjo muito inconveniente, e os propriet\u00e1rios do Sal\u00e3o passaram a crer que sua predomin\u00e2ncia por uma \u00fanica denomina\u00e7\u00e3o n\u00e3o era apropriada. Spurgeon concordou. 9<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda necessitando de um grande espa\u00e7o para atender \u00e0 demanda do p\u00fablico e cumprir um mandato e oportunidade evangel\u00edsticos, a igreja, ap\u00f3s livre discuss\u00e3o e obje\u00e7\u00f5es de alguns que o chamavam de \u201cCasa do Diabo\u201d, decidiu alugar o Music Hall dos Royal Surrey Gardens por um m\u00eas, come\u00e7ando no terceiro domingo de outubro, mostrando disposi\u00e7\u00e3o para ir at\u00e9 mesmo \u00e0 casa do Diabo para ganhar almas para Cristo. O recinto, amplamente conhecido pelos divertimentos e pela pompa que ali eram regularmente promovidos, serviria por pouco mais de tr\u00eas anos como local de prega\u00e7\u00e3o para o pregador mais popular da Inglaterra. Na manh\u00e3 anterior \u00e0quele primeiro culto vespertino, esperan\u00e7as e temores estavam em alta. Spurgeon pediu \u00e0 congrega\u00e7\u00e3o que \u201cprovasse o Senhor\u201d por sua coragem e compromisso para com empreendimento t\u00e3o ousado, t\u00e3o insensato como muitos insistiam, confiando num Deus cujo poder se mostra em sua fraqueza, cuja sabedoria vence sua insensatez, e cujo prop\u00f3sito supera suas vacila\u00e7\u00f5es. Ainda que ele, assim pregou Spurgeon, tivesse de permanecer onde \u201cse formam nuvens de trov\u00e3o, onde brilham rel\u00e2mpagos, e onde rugem ventos tempestuosos\u201d, fora, n\u00e3o obstante, nascido para provar o poder e a majestade de Deus. Os acontecimentos daquela noite fizeram-no \u201cpassar pela maior prova\u00e7\u00e3o de [sua] vida\u201d. 10<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos alunos de Spurgeon, William Williams, recordou a rea\u00e7\u00e3o visceral que Spurgeon tinha quando algum acontecimento ou conversa lhe trazia \u00e0 lembran\u00e7a, de modo v\u00edvido, aquele terr\u00edvel evento. Spurgeon perguntou a Williams qual era seu texto para um serm\u00e3o, e Williams respondeu: \u201cA maldi\u00e7\u00e3o do Senhor est\u00e1 na casa do \u00edmpio, mas ele aben\u00e7oa a habita\u00e7\u00e3o dos justos.\u201d Spurgeon soltou um profundo suspiro, seu semblante caiu e ele gemeu: \u201cAi de mim!\u201d Quando lhe perguntaram o que o afligia, respondeu: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o sabe? Esse \u00e9 o texto que eu tinha naquela terr\u00edvel noite do acidente no Surrey Music Hall.\u201d Williams n\u00e3o o sabia e resolveu nunca mais mencionar a ele nem o texto nem o acontecimento. \u201cN\u00e3o posso deixar de pensar\u201d, escreveu ele, \u201cpelo que vi, que sua morte comparativamente prematura pode, em certa medida, ter sido devida \u00e0 fornalha de sofrimento mental que ele suportou naquela e depois daquela noite pavorosa.\u201d 11<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s vinte anos de serm\u00f5es impressos, Spurgeon relembrou muitos dos eventos decisivos pelos quais a circula\u00e7\u00e3o de seus serm\u00f5es aumentou para audi\u00eancias cada vez mais amplas. Entre esses fatores, mencionou a mudan\u00e7a para o grande sal\u00e3o em Surrey Gardens, onde pregou por mais de tr\u00eas anos. Esse sal\u00e3o, acreditava Spurgeon, fora preparado por uma maravilhosa provid\u00eancia para precisamente tal ocasi\u00e3o, \u201cpois seu principal uso e benef\u00edcio para qualquer pessoa, em qualquer sentido, at\u00e9 que foi transformado em hospital, esteve ligado \u00e0 nossa ocupa\u00e7\u00e3o dele\u201d. A grande provid\u00eancia incluiu, por\u00e9m, esse acontecimento. Embora ousasse mencion\u00e1-lo, hesitava, \u201cmesmo a esta dist\u00e2ncia no tempo\u201d, em confiar a si mesmo \u201ca escrever sobre o horror mortal que passou sobre minha alma durante o calamitoso p\u00e2nico que p\u00f4s r\u00e1pido fim ao primeiro culto naquele lugar\u201d. Reconhecia, contudo, que \u201cDeus maravilhosamente dirigiu o triste evento para sua pr\u00f3pria gl\u00f3ria, levando vastos n\u00fameros de todas as classes a cercarem o edif\u00edcio e a ench\u00ea-lo continuamente\u201d. Para os serm\u00f5es impressos, esses acontecimentos \u201cabriram uma porta muito mais ampla do que antes\u201d. 12<\/p>\n\n\n\n<p>Robert Shindler, que conhecia Spurgeon desde 1855, ap\u00f3s seu estabelecimento em Londres, e escrevia frequentemente para <em>The Sword and the Trowel<\/em>, recordou o efeito que a calamidade do Surrey Music Hall teve sobre Spurgeon. Na reuni\u00e3o da Uni\u00e3o Batista em 1881, vinte e cinco anos depois do acontecimento, anunciou-se que Spurgeon pregaria em Portsmouth. Muito antes da hora do culto, o recinto estava lotado e centenas de outras pessoas faziam press\u00e3o para entrar. Isso criou certa confus\u00e3o justamente quando Spurgeon se dirigia \u00e0 plataforma para tomar seu lugar. A confus\u00e3o o perturbou de tal modo que \u201cele pareceu inteiramente desfeito, e ficou parado na passagem, apoiando-se na m\u00e3o\u201d. Ele disse a Shindler que a semelhan\u00e7a daquela cena com a do Music Hall era t\u00e3o v\u00edvida que sentia-se totalmente incapaz de pregar. Ele pregou, e, segundo Shindler, pregou bem. O pr\u00f3prio Spurgeon referiu-se a esse acontecimento em The Sword and the Trowel. Ele acreditava que a \u201cvasta audi\u00eancia tivera um livramento not\u00e1vel de um perigo iminente\u201d. Um jornal havia observado que Spurgeon parecia nervoso, e ele respondeu: \u201cQuem poderia evit\u00e1-lo em meio \u00e0quela multid\u00e3o densa, num edif\u00edcio fr\u00e1gil, com interrup\u00e7\u00f5es constantes?\u201d Sua reminisc\u00eancia p\u00fablica das cenas que causavam sua propens\u00e3o ao medo foi expressa em linguagem forte: \u201cO horror de grande escurid\u00e3o que passou sobre a alma do pregador, poucos podem compreender, sen\u00e3o aqueles que uma vez j\u00e1 viram uma multid\u00e3o fugir em p\u00e2nico, e pessoas serem pisoteadas at\u00e9 a morte no tumulto.\u201d 13<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A press\u00e3o do labor incessante<\/h2>\n\n\n\n<p>Durante um epis\u00f3dio de dor particularmente aguda no outono de 1869, Spurgeon teve de explicar por que sua contribui\u00e7\u00e3o para o <em>Sword<\/em> estava abaixo de seu volume habitual. \u201cA dolorosa indisposi\u00e7\u00e3o do Editor o obriga a abrir m\u00e3o de suas costumeiras notas mensais, e tamb\u00e9m da Exposi\u00e7\u00e3o do Salmo.\u201d Ent\u00e3o observou, com uma honesta percep\u00e7\u00e3o de si mesmo que permeava toda a sua comunica\u00e7\u00e3o: \u201cPress\u00e3o excessiva de trabalho produziu um dist\u00farbio cuja raiz \u00e9 mais mental do que f\u00edsica.\u201d Para ele, a combina\u00e7\u00e3o de \u201cdor fatigante, somada \u00e0 afli\u00e7\u00e3o relativa e \u00e0 responsabilidade sempre crescente\u201d, constitu\u00eda \u201cum fardo sob cujo peso a for\u00e7a mortal desassistida necessariamente sucumbir\u00e1\u201d. Como nada em sua situa\u00e7\u00e3o temporal lhe trazia al\u00edvio ou perspectiva de prazer, confessou: \u201cUm Deus todo-suficiente \u00e9 a nossa alegria e o nosso regozijo.\u201d 14 Spurgeon \u00e0s vezes parecia saber melhor como lidar com dor, adversidade e oposi\u00e7\u00e3o do que com amizade e elogio. Quando um pequeno livro apareceu em 1869 com elevado apre\u00e7o por seu \u201cTrabalho, e sucesso\u201d, Spurgeon escreveu: \u201cQuando amigos crist\u00e3os escrevem em nossa honra, sentimos grande vergonha por t\u00e3o pouco merecermos seu louvor, e dolorosa prostra\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito por ter sido dita alguma palavra em nosso favor.\u201d Certamente as opini\u00f5es do escritor se deviam mais a \u201cafei\u00e7\u00e3o agradecida do que a ju\u00edzo sereno\u201d. 15 A aprova\u00e7\u00e3o p\u00fablica lhe causava dor, pois cada aclama\u00e7\u00e3o parecia produzir o maior estresse de expectativas exaltadas. As crescentes responsabilidades de que falava, incluindo as exig\u00eancias dos minist\u00e9rios beneficentes, vinham sobre ele sem cessar e com insist\u00eancia cada vez mais estridente. O minist\u00e9rio da prega\u00e7\u00e3o e da publica\u00e7\u00e3o fazia parte desse aumento.<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon deu v\u00e1rios nomes \u00e0 sua afli\u00e7\u00e3o ao longo dos anos \u2014 gota, reumatismo, neurite \u2014 combinados com excesso de trabalho, depress\u00e3o, estresse constante e culpa por sentir estresse. Parecia saber instintivamente que a gota n\u00e3o era a resposta simples para tudo o que lhe percorria o corpo e a mente. Hannah Wycoll observou que sua \u201ccondi\u00e7\u00e3o foi diagnosticada como Doen\u00e7a de Bright, ou nefrite cr\u00f4nica, uma enfermidade dos rins, causando severa dor e incha\u00e7o devido ao ac\u00famulo de l\u00edquido, o que pode distender o corpo inteiro e restringir gravemente a respira\u00e7\u00e3o\u201d. 16 O hist\u00f3rico de gota em sua fam\u00edlia torna poss\u00edvel que, em certos momentos, sua queixa corporal proviesse dessa fonte, mas provavelmente a severidade dela se explica em termos do grave agravamento da dor nas articula\u00e7\u00f5es pelos sintomas peculiares da Doen\u00e7a de Bright. Os termos e a percep\u00e7\u00e3o de Spurgeon governar\u00e3o a narrativa, mas entenderemos que ele provavelmente tinha mais raz\u00f5es para sua dor do que at\u00e9 ele mesmo sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo ao celebrar um minist\u00e9rio de vinte anos publicando serm\u00f5es em 1875, Spurgeon imprimiu uma advert\u00eancia franca ao sentimento de exulta\u00e7\u00e3o que tal sucesso lhe trazia. Revisou a hist\u00f3ria de vinte anos de serm\u00f5es publicados consecutivamente e admitiu o \u201cdesgaste mental envolvido em imprimir um serm\u00e3o por semana\u201d, e, embora a Escritura seja uma pedreira inesgot\u00e1vel, \u201ca sele\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo bloco, e a considera\u00e7\u00e3o de como dar-lhe forma, n\u00e3o s\u00e3o assuntos t\u00e3o f\u00e1ceis quanto alguns pensam\u201d. M\u00eas ap\u00f3s m\u00eas, as prepara\u00e7\u00f5es para o p\u00falpito n\u00e3o s\u00e3o coisas leves, especialmente quando se considera qu\u00e3o fortemente se sente o que est\u00e1 em jogo. 17<\/p>\n\n\n\n<p>O labor implac\u00e1vel tinha um efeito duplo, cujo resultado era um dilema insol\u00favel. Tendia a aumentar a carga de trabalho exponencialmente e arruinava a condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, de tal modo que o trabalho se tornava imposs\u00edvel. Refletindo claramente sobre sua experi\u00eancia pessoal, Spurgeon disse a seus alunos e egressos do col\u00e9gio: \u201cA chama consagrada, talvez, consumir\u00e1 voc\u00eas, queimando a sa\u00fade do corpo com demasiado ardor da alma, assim como uma espada afiada desgasta a bainha, mas que importa? O zelo da casa de Deus consumiu nosso Mestre, e \u00e9 coisa pequena se consumir seus servos. Se por labor excessivo morrermos antes de alcan\u00e7ar a idade m\u00e9dia do homem, gastos no servi\u00e7o do Mestre, ent\u00e3o, gl\u00f3ria a Deus. Teremos tido tanto menos da terra e tanto mais do c\u00e9u.\u201d 18<\/p>\n\n\n\n<p>No fim de 1869, em meados de novembro, Spurgeon foi subitamente posto de lado por um ataque de var\u00edola, que ele chamou de \u201caquela terr\u00edvel doen\u00e7a\u201d. Ela o atingiu justamente quando havia enchido tanto sua agenda que precisava estar \u201cem mil lugares\u201d. Orou fervorosamente para que nada da obra sofresse, especialmente o orfanato e o col\u00e9gio. Spurgeon observou que, em apenas poucas horas, sem saber da indisposi\u00e7\u00e3o de Spurgeon, um amigo chamou e deixou \u00a3500 para o orfanato. \u201cQu\u00e3o condescendentemente o Senhor assim aliviou a mente de seu pobre servo! Sentimos doce paz e santa alegria ao deixar todo o resto de nossa obra nas mesmas m\u00e3os.\u201d Em apenas poucos dias, chegou outro donativo de \u00a31000. Outra vez Spurgeon reconheceu que toda provis\u00e3o vinha de Deus e com alegria \u201cpusemos nosso selo em que Deus \u00e9 verdadeiro\u201d. \u201cTemos muitas outras fontes de ansiedade, como a carne as chamaria, mas os graciosos tratos de nosso Deus nos constrangem a cham\u00e1-las fontes de alegria, j\u00e1 que nos d\u00e3o motivo para apelar \u00e0 sua generosidade.\u201d Ele imprimiu a carta e deixou o doador saber que sua doa\u00e7\u00e3o encorajava os administradores a receber mais 50 meninos no orfanato e a completar o n\u00famero de 200 o quanto antes. 19<\/p>\n\n\n\n<p>Em meados de 1871, as dores e a afli\u00e7\u00e3o de Spurgeon voltaram com for\u00e7a e com um ataque mais prolongado do que at\u00e9 ent\u00e3o experimentara. Reconhecendo que estivera relativamente livre de dificuldades desde o Natal de 1869, escreveu: \u201cNo \u00faltimo dia da Confer\u00eancia anual fomos prostrados por um ataque de nossa mui dolorosa enfermidade. Receamos que ela ser\u00e1 nossa cruz at\u00e9 a morte.\u201d O ataque veio sobre ele \u201ccomo um homem armado, e grande tem sido nossa ang\u00fastia corporal sob seus golpes.\u201d Teve de suspender seu trabalho pessoal e, por isso, escreveu poucas notas para o <em>Sword<\/em> mensal. Deu gra\u00e7as a seu irm\u00e3o e a outros por sua fidelidade e capacidade de \u201cconduzir t\u00e3o bem os assuntos em nossa aus\u00eancia. Louvado seja o nome do Senhor.\u201d 20<\/p>\n\n\n\n<p>No m\u00eas seguinte apareceu um artigo intitulado \u201cA enfermidade do pastor\u201d, escrito por George Rogers. A natureza debilitante do surto de 1871 de Spurgeon em seu perene encontro aflitivo foi acentuada quando Rogers explicou com franqueza sua totalidade. Spurgeon n\u00e3o podia levantar-se para escrever palavras de \u201cconselho e encorajamento\u201d por causa da \u201cinquieta\u00e7\u00e3o e dor de sua afli\u00e7\u00e3o corporal\u201d. Embora t\u00e3o abatido de sa\u00fade, disse Rogers, ele era \u201csustentado e animado\u201d pelos relatos da boa frequ\u00eancia no Tabern\u00e1culo, da recep\u00e7\u00e3o dada aos pregadores e das ofertas feitas para sustentar o col\u00e9gio e as \u201cv\u00e1rias ag\u00eancias, institu\u00eddas por ele como auxiliares de suas ministra\u00e7\u00f5es\u201d. A evidente preocupa\u00e7\u00e3o e as ora\u00e7\u00f5es de seu povo muito o encorajavam. Ningu\u00e9m deveria achar estranho, escreveu Rogers, que ministros sejam postos de lado justamente quando parece que sua presen\u00e7a \u00e9 mais necess\u00e1ria. Eles tamb\u00e9m est\u00e3o sujeitos \u00e0 soberana provid\u00eancia de Deus e devem dizer: \u201cSe o Senhor quiser.\u201d A Escritura e a hist\u00f3ria confirmam essa realidade, e isso n\u00e3o deve trazer surpresa nem des\u00e2nimo quando ocorre. O cancelamento de compromissos de prega\u00e7\u00e3o deve suscitar ora\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o da parte daqueles t\u00e3o desapontados, e a restri\u00e7\u00e3o de quaisquer convites para o futuro certamente deve ser vista como necess\u00e1ria. 21<\/p>\n\n\n\n<p>Rogers tinha sua pr\u00f3pria explica\u00e7\u00e3o para o que provocara essa crise de for\u00e7as e de sa\u00fade. Ele cria que a agita\u00e7\u00e3o da recente confer\u00eancia do col\u00e9gio agravara as dificuldades de um estado j\u00e1 quase exaurido e necessitado de f\u00e9rias. A intensa excita\u00e7\u00e3o de tantos jovens brilhantes, \u00fateis, valorosos e \u201cvalentes soldados da cruz, que haviam bebido de seu esp\u00edrito e sido treinados por meio de sua instrumentalidade\u201d, submeteu suas fortes sensibilidades \u00e0 mais severa prova. A intelig\u00eancia e a devo\u00e7\u00e3o, bem como os m\u00faltiplos dons e opera\u00e7\u00f5es da mente evidentes na apresenta\u00e7\u00e3o dos trabalhos, intensificaram o efeito daquela semana altamente emocional e, ao passo que, em circunst\u00e2ncias normais, tais opera\u00e7\u00f5es fortaleceriam e animariam, um corpo e uma mente j\u00e1 esgotados foram levados a um ponto de crise por suas emo\u00e7\u00f5es sobrecarregadas. 22<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon pretendia fazer sua viagem ao Continente para descansar, mas n\u00e3o p\u00f4de sequer viajar. Tr\u00eas meses de dor e fraqueza foram tornados mais insuport\u00e1veis por uma aus\u00eancia de treze semanas do p\u00falpito do Tabern\u00e1culo. Esperava retomar seu minist\u00e9rio em julho. Apesar das grandes dificuldades enfrentadas, Spurgeon relatou, como dever e tamb\u00e9m como prazer, a bondade de Deus no acontecimento. \u201cMeu amado povo transbordou de amor por mim. Todos t\u00eam sido bondosos. A ora\u00e7\u00e3o tem sido fervorosa. Nossas v\u00e1rias obras para o Senhor t\u00eam sido bem sustentadas. As congrega\u00e7\u00f5es t\u00eam sido excelentes, e as reuni\u00f5es de ora\u00e7\u00e3o especialmente numerosas.\u201d Informou a todos os seus leitores que n\u00e3o lhe pedissem que pregasse para eles nos pr\u00f3ximos meses, \u201cpois n\u00e3o posso atender a seus pedidos sem incorrer em nova enfermidade.\u201d Quando um amigo sugeriu que ele evangelizasse alguns meses de cada ano e editasse um jornal semanal, reconheceu a bondade da confian\u00e7a, mas suspirou: \u201cPor que n\u00e3o esperar que eu rivalize com Atlas e carregue o mundo, ou seja o sucessor de H\u00e9rcules com o dobro de seus labores? Uma nota de cinco libras para o orfanato tem mais valor do que as mais s\u00e1bias inven\u00e7\u00f5es de novas tarefas para um homem sobrecarregado de trabalho.\u201d 23<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma experi\u00eancia cr\u00f4nica de graus vari\u00e1veis<\/h2>\n\n\n\n<p>Qualquer ganho de for\u00e7as encorajava Spurgeon. Amigos come\u00e7aram a sugerir toda sorte de rem\u00e9dios para suas dificuldades recorrentes. Ele lhes disse que, de fato, estava melhor, embora ainda fraco. Havia realizado um culto em cada domingo durante um m\u00eas. \u201cEmbora muito pressionados a descansar, a viajar, a fazer uma viagem \u00e0 Austr\u00e1lia, a ir a uma Institui\u00e7\u00e3o Hidrop\u00e1tica, a fazer uma viagem \u00e0 Am\u00e9rica, a visitar a Su\u00ed\u00e7a, a ficar na Esc\u00f3cia, a experimentar Buxton, Bournemouth, Scarborough, etc. etc., sentimos ser nosso dever come\u00e7ar a trabalhar gentil e prudentemente, pouco a pouco, mas ainda assim come\u00e7ar.\u201d Deu gra\u00e7as a todos aqueles amigos t\u00e3o preocupados a ponto de sugerirem meios de melhora, mas, embora soubesse estar \u201csobrecarregado de trabalho\u201d, n\u00e3o encontrava meio de escapar \u00e0s press\u00f5es que seu pr\u00f3prio zelo criara, e recusava-se a seguir qualquer coisa que n\u00e3o fosse o dever. 24<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro, descreveu-se como \u201cinteiramente recuperado\u201d, mas \u201cainda fraco e incapaz de trabalhar at\u00e9 o seu n\u00edvel habitual\u201d. Mais uma vez pediu que n\u00e3o lhe fossem feitos convites para pregar, pois apenas teria de recus\u00e1-los. Tomar nota disso, portanto, \u201cpoupar\u00e1 tanto a eles como a n\u00f3s o tempo ocupado em escrever cartas desnecess\u00e1rias\u201d. 25 Em dezembro, finalmente cedeu e informou sua igreja e amigos: \u201cTemos sido capacitados a continuar nosso minist\u00e9rio e outros labores sob consider\u00e1vel dificuldade por causa de sa\u00fade fr\u00e1gil, e agora, a fim de obter descanso e escapar aos nevoeiros que encerram o ano, sentimos ser nosso dever fazer uma breve perman\u00eancia no clima mais quente do sul da Fran\u00e7a.\u201d 26<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon recapitulou a experi\u00eancia com a dor que tanto dominou 1871 no pref\u00e1cio ao volume encadernado daquele ano de <em>The Sword and the Trowel<\/em>. A despeito das dificuldades agravantes e debilitantes, assegurou a seus leitores que \u201cmiseric\u00f3rdia sem mistura\u201d permeou toda a experi\u00eancia. A luta lhe ensinou \u201ca contar suas enfermidades dolorosas como suas mais escolhidas b\u00ean\u00e7\u00e3os\u201d. Embora n\u00e3o negasse aos outros esse direito, ele n\u00e3o conseguia \u201ccantar de miseric\u00f3rdia e de ju\u00edzos\u201d, pois sua m\u00fasica era somente de amor. Spurgeon nunca gostou de puro sentimentalismo nem de espiritualidade irreal e afetada, mas n\u00e3o permitiria que seus leitores pensassem que essa linguagem fosse apenas \u201csentimento superfino, ou entusiasmo elevado\u201d. N\u00e3o, escreveu ele \u201csobriamente e com serena sinceridade\u201d. Havia achado \u201ca afli\u00e7\u00e3o doce, e a cruz t\u00e3o ricamente proveitosa, que \u00e9 por simples justi\u00e7a consider\u00e1-la uma b\u00ean\u00e7\u00e3o ricamente paternal\u201d. Sempre pronto com analogias oriundas de suas observa\u00e7\u00f5es da natureza, comparou o doloroso assalto \u00e0 sua sa\u00fade a uma p\u00e1 que revolve a terra ao redor de uma \u00e1rvore e \u201cp\u00f5e as ra\u00edzes em liberdade para sorver a gordura do solo\u201d. Se ele pudesse reclamar, ent\u00e3o bem poderia \u201ca relva ceifada murmurar contra as nuvens que renovam seu verdor\u201d. N\u00e3o tinha inclina\u00e7\u00e3o alguma para deixar seu \u201ccora\u00e7\u00e3o proferir uma palavra injuriosa contra a dor e a depress\u00e3o, que operam em n\u00f3s os confort\u00e1veis frutos da justi\u00e7a\u201d. Foi t\u00e3o longe, na verdade, a ponto de \u201cn\u00e3o desejar a nossos leitores b\u00ean\u00e7\u00e3o mais rica do que a santifica\u00e7\u00e3o de cada provid\u00eancia para o mais alto bem de suas almas\u201d. 27<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1874, Spurgeon suportou as mesmas ondula\u00e7\u00f5es de dor e de dor ainda maior. Em mar\u00e7o, come\u00e7ou suas \u201cnotas\u201d com a confiss\u00e3o de ter uma \u201cmente fatigada\u201d, causada por \u201cdores reum\u00e1ticas\u201d. 28 Escreveu seu relat\u00f3rio da confer\u00eancia do col\u00e9gio de um \u201clugar deserto\u201d, para onde havia \u201cfugido para recuperar-se do desgaste desta semana excitante\u201d. 29 Em julho, um cl\u00e9rigo anglicano lhe escreveu dizendo que sua gota lhe fora enviada como ju\u00edzo de Deus por causa de sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja da Inglaterra. Spurgeon se perguntou, \u00e0 luz dessa teologia, o que significava a morte do bispo de Oxford por causa de um pesco\u00e7o quebrado. 30 Em novembro, informou a seus leitores que a maior parte de outubro o viu incapaz de funcionar porque a mudan\u00e7a de esta\u00e7\u00e3o \u201ctrouxe uma afec\u00e7\u00e3o reum\u00e1tica, muito dolorosa, por\u00e9m muito menos severa do que em qualquer ocasi\u00e3o anterior\u201d. Talvez lembrando-se de sua antiga exuber\u00e2ncia invenc\u00edvel, refletiu: \u201cDeve ser alto privil\u00e9gio estar sempre apto a trabalhar para o Mestre com vigor.\u201d 31<\/p>\n\n\n\n<p>Novamente, em 1875, Spurgeon viu-se emboscado pela dor e pela afli\u00e7\u00e3o. T\u00e3o indisposto estava que nem sequer p\u00f4de fazer sua planejada viagem a Mentone, o que o tornou prisioneiro em casa. A dor o havia acometido como um homem armado, tornando suas m\u00e3os e p\u00e9s bons para nada sen\u00e3o sofrer. \u201cT\u00ednhamos muito a fazer, \u2014 demais\u201d, queixou-se ele, \u201ce, para nossa tristeza, n\u00e3o pod\u00edamos sequer pensar em todas as boas coisas que hav\u00edamos planejado.\u201d Tanto seu cirurgi\u00e3o quanto seu m\u00e9dico, com base em anos de observa\u00e7\u00e3o de Spurgeon, aconselharam-no de que a \u201cdoen\u00e7a brota de causas mentais, e pode ser t\u00e3o seguramente calculada, quando ocorre press\u00e3o extra de cuidado ou trabalho, quanto as mar\u00e9s podem ser calculadas pela lua\u201d. Ele teria de descansar e, quando revigorado, estaria novamente em atividade. \u201c\u00c9 muito triste ser assim detido em plena corrida\u201d, lamentou, \u201cquando h\u00e1 bem a ser feito e tanto dele est\u00e1 diante de n\u00f3s.\u201d 32<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Spurgeon retornou \u00e0 sa\u00fade, sentiu que precisava reservar suas for\u00e7as para as exig\u00eancias de cuidar dos minist\u00e9rios do Tabern\u00e1culo. Ao longo de abril e maio de 1876 permaneceu em seu aposento e, quando finalmente foi capaz de pregar no \u201cDia do Senhor\u201d, informou a seus leitores que seria assim por alguns meses ainda. \u201cTodos os compromissos para pregar fora devem permanecer adiados ou cancelados, e nenhum novo trabalho de esp\u00e9cie alguma pode ser assumido.\u201d 33<\/p>\n\n\n\n<p>Esse apelo parece n\u00e3o ter tido efeito universal, pois no m\u00eas seguinte ele rogou aos amigos que \u201cn\u00e3o o pressionassem t\u00e3o importunamente a pregar todos os dias e em toda parte\u201d. Aos \u201csuplicantes ansiosos\u201d que pediam \u201capenas um dia em nosso anivers\u00e1rio!\u201d, ele apelava para que \u201ctivessem alguma miseric\u00f3rdia\u201d. Se respondessem ao seu \u201cn\u00e3o\u201d com outro convite explicando por que o convite deles deveria ser uma exce\u00e7\u00e3o, ele pedia que inclu\u00edssem um selo para que ele n\u00e3o tivesse de perder um penny, bem como o tempo, para dizer n\u00e3o outra vez. \u201cPoderia algum de nossos leitores imaginar quanto custa a correspond\u00eancia de um homem p\u00fablico?\u201d reafirmou ele. \u201cFa\u00e7am-na um penny menos, deixando de pedir-lhe que pregue quando ele n\u00e3o est\u00e1 bem.\u201d 34<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de 1877, Spurgeon novamente foi para Mentone, mas encontrou em Marselha um vento frio que provocou um ataque de reumatismo e \u201cnos causou intensa dor e fraqueza\u201d. Seus amigos lhe enviaram liberalmente seus rem\u00e9dios infal\u00edveis, pelos quais Spurgeon lhes agradeceu profusamente e pediu que tivessem a bondade de \u201cn\u00e3o nos enviar mais rem\u00e9dios: conhecemos pelo menos 50 curas infal\u00edveis, e estamos embara\u00e7ados com riquezas m\u00e9dicas que, como o avarento, acumulamos para benef\u00edcio de outros\u201d. 35 Admitiu que uma das recomenda\u00e7\u00f5es mais extraordin\u00e1rias, embora igualmente in\u00fatil, era a de que mantivesse um par de rolas ou dois pombos jovens no quarto. No sul da Alemanha, as pombas eram chamadas de \u201cpombas da gota\u201d. A \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que Spurgeon conseguia ver entre as aves e o reumatismo era que o barulho que faziam acabaria com os breves per\u00edodos de al\u00edvio que tinha e assim apressaria o fim final de toda ang\u00fastia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Preocupa\u00e7\u00e3o com Thomas<\/h2>\n\n\n\n<p>Dada a dor cr\u00f4nica e a enfermidade de Spurgeon, a fragilidade de seu filho Tom deve ter sido uma preocupa\u00e7\u00e3o constante para os Spurgeon. Charles e Tom foram ambos batizados em 20 de setembro de 1874, aos dezoito anos de idade, por seu pai. Logo se envolveram na prega\u00e7\u00e3o em Bolingbroke, numa casa particular. As multid\u00f5es cresceram e levaram \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Capela de Bolingbroke em 1877. Quando ficou claro que Thomas era prejudicado pelo clima ingl\u00eas, sua m\u00e3e aconselhou uma viagem mar\u00edtima. Seu pai concordou e lhe escreveu: \u201cVoc\u00ea h\u00e1 de pregar, estou certo, mas sem bom preparo n\u00e3o poder\u00e1 ocupar a posi\u00e7\u00e3o que quero que voc\u00ea ocupe.\u201d Sem d\u00favida, o pai tinha em mente uma posi\u00e7\u00e3o no Metropolitan Tabernacle. \u201cTeologia n\u00e3o deve ser aprendida em sua amplitude e precis\u00e3o por algu\u00e9m destinado a ser um instrutor p\u00fablico sem estud\u00e1-la a fundo e dominar seus termos e detalhes.\u201d Spurgeon, mais uma vez, ainda que incidentalmente, revelou qu\u00e3o central a teologia era para toda a sua compreens\u00e3o do minist\u00e9rio pastoral. \u201cTalvez uma viagem d\u00ea t\u00f4nus ao seu organismo\u201d, isto \u00e9, possa fortalec\u00ea-lo fisicamente para que pudesse suportar os rigores de \u201cdois anos de aplica\u00e7\u00e3o constante\u201d. 36 Thomas partiu para a Austr\u00e1lia em 15 de junho de 1877. Spurgeon anunciou isso brevemente no Sword, escrevendo: \u201cAqui, talvez, nos seja permitido notificar nossos amigos australianos de que nosso filho, Thomas Spurgeon, deixou-nos para Melbourne, em 15 de junho, fazendo uma viagem na Lady Jocelyn por causa de sua sa\u00fade. Ficaremos agradecidos a quaisquer amigos que lhe estendam bondade. Ele estar\u00e1 disposto a pregar conforme a oportunidade se apresentar.\u201d 37<\/p>\n\n\n\n<p>A viagem mostrou-se um est\u00edmulo para sua sa\u00fade. Ele desembarcou na Austr\u00e1lia em 28 de agosto. Logo depois que Thomas chegou, Christopher Bunning entrou em contato com ele e fez com que fosse cordialissimamente recebido por todos. Thomas falou a uma multid\u00e3o de mais de 4.000 pessoas no Melbourne Town Hall, \u201ccom muito proveito para seus ouvintes e cr\u00e9dito para si mesmo\u201d. 38 Bunning descreveu uma viagem que fez com Thomas pelo interior, durante a qual conseguiram realizar v\u00e1rias prega\u00e7\u00f5es. Depois de um dia vagueando por milhas de arbustos sem trilha, realizaram um culto num dep\u00f3sito de lenha, onde Thomas, \u201ccom habilidade divinamente concedida, combateu desculpas de toda esp\u00e9cie\u201d, enquanto Bunning pregava sobre o Senhor abrindo o cora\u00e7\u00e3o dos primeiros convertidos da Europa. Outros compromissos de prega\u00e7\u00e3o, eventos sociais e oportunidades de testemunho santificaram essa excurs\u00e3o de v\u00e1rias semanas pelo interior. Isso n\u00e3o poderia deixar de ajudar imensamente o esp\u00edrito de CHS quando Bunning encerrou a carta com elevado elogio a ambos os seus filhos:<\/p>\n\n\n\n<p>Deus fez dele instrumento de muita b\u00ean\u00e7\u00e3o para muitos, mas acima de tudo, penso eu, para mim e os meus. Creio que o trabalho precedente e outras atividades que Thomas possa realizar nas Col\u00f4nias, se o Senhor quiser, poder\u00e3o ser ajuda n\u00e3o pequena para prepar\u00e1-lo para o que eu oro seja uma vida gloriosamente \u00fatil. Preciso alegrar-me com o senhor, amado senhor, pelo fato de que ambos os seus filhos s\u00e3o chamados t\u00e3o inequivocamente para o minist\u00e9rio do evangelho. Embora talvez n\u00e3o seja lembrado por Charles, agora no col\u00e9gio, desejo enviar-lhe afetuosa sauda\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Ao senhor, honrado Presidente, devo permanecer para sempre, Seu muito agradecido ex-aluno, Wm. Christopher Bunning. 39<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Thomas encontrava tempo para se refazer, admirava o zelo incans\u00e1vel de um amigo, o Sr. Varley, que pregava todos os dias. Thomas encontrou algumas oportunidades para pregar na Austr\u00e1lia, mas aceitou o tempo de descanso como prepara\u00e7\u00e3o para maior utilidade futura. Sua m\u00e3e resumia suas cartas para casa a fim de public\u00e1-las em <em>The Sword and the Trowel<\/em>, e seu pai lhe escrevia com a concis\u00e3o exigida por sua agenda, mas com express\u00f5es de esperan\u00e7a para o futuro. \u201cQuando eu tiver voc\u00ea e Char ao meu lado para pregar as mesmas grandes verdades, pela gra\u00e7a de Deus faremos a Inglaterra conhecer mais do poder do Evangelho.\u201d Essas palavras encorajaram Thomas a orar por \u201cplena consagra\u00e7\u00e3o e por aquele zelo consumidor com que Deus tem ajudado o senhor\u201d. 40 Charles estava \u201ctrabalhando bem no Col\u00e9gio e, espero, sair\u00e1 dele plenamente equipado\u201d, escreveu seu pai. \u201cQuando voc\u00ea voltar para casa, espero que sua pr\u00e1tica na Austr\u00e1lia diminua sua necessidade de forma\u00e7\u00e3o no col\u00e9gio, de modo que um ano talvez seja suficiente. Ainda assim, todo homem lamenta, quando j\u00e1 est\u00e1 no campo, n\u00e3o ter-se preparado melhor antes de entrar nele. Veremos.\u201d 41<\/p>\n\n\n\n<p>Em 26 de agosto de 1878, Thomas recebeu o cabo: \u201cMam\u00e3e pior, volte.\u201d P\u00f4de partir em 12 de setembro e chegou em casa perto do fim de outubro. Em novembro, seu pai estava enfermo, e Thomas foi chamado a pregar cinco vezes no Tabern\u00e1culo. Essas mensagens foram publicadas sob o t\u00edtulo <em>The Gospel of the Grace of God<\/em>. Seu pai disse que elas eram \u201ccheias da verdade do evangelho, e de viva sinceridade. O estilo est\u00e1 todo em chama, faiscando de met\u00e1foras, aquecido de afeto, ardendo de zelo.\u201d Tamb\u00e9m admitiu que provavelmente estava inclinado em favor do jovem. 42<\/p>\n\n\n\n<p>Em meados de janeiro, Thomas acompanhou seu pai a Mentone, onde seguiu um regime de estudos sob a dire\u00e7\u00e3o de CHS. Em 13 de abril, j\u00e1 estavam novamente em casa. Thomas entrou no Col\u00e9gio de Pastores, mas \u201ca sa\u00fade fr\u00e1gil interrompia frequentemente sua frequ\u00eancia\u201d. 43 Partiu outra vez em outubro de 1879 para a Nova Zel\u00e2ndia. Esse foi um acontecimento triste para o velho Spurgeon, e ele pregou naquela noite no culto de meio de semana: \u201cN\u00e3o, senhor meu, eu sou uma mulher angustiada de esp\u00edrito.\u201d At\u00e9 a morte de seu pai, Thomas permaneceu na Nova Zel\u00e2ndia e na Tasm\u00e2nia, com exce\u00e7\u00e3o de cinco meses em uma viagem de arrecada\u00e7\u00e3o de fundos pela Inglaterra. The Sword and the Trowel, por\u00e9m, sempre manteve o nome de Thomas Spurgeon diante de seus leitores, em artigos humor\u00edsticos, relatos de viagem, serm\u00f5es e not\u00edcias de sucesso evangel\u00edstico em tempo integral. Seu pai trabalhou zelosamente entre os amigos apoiadores das capelas e dos labores mission\u00e1rios, para levantar fundos para a constru\u00e7\u00e3o do Tabern\u00e1culo de Thomas em Auckland, Nova Zel\u00e2ndia. Uma efusiva carta de agradecimento de Thomas no <em>Sword<\/em> foi seguida pela observa\u00e7\u00e3o de seu pai: \u201cN\u00e3o temos d\u00favida de que, quando recebermos um desenho da capela proposta, e a obra tiver come\u00e7ado, os amigos dar\u00e3o ampla ajuda ao nosso filho.\u201d 44<\/p>\n\n\n\n<p>Outra carta e relat\u00f3rio vindos de Auckland levaram Spurgeon a expressar algo de seus temores pelo filho excessivamente sobrecarregado. Thomas tinha \u201cuma pesada tarefa diante de si\u201d, e Spurgeon orava para que, em seus esfor\u00e7os para levantar fundos, \u201cn\u00e3o viesse a sucumbir sob a press\u00e3o que isso deve trazer sobre ele\u201d. As cidades da Austr\u00e1lia estavam muito distantes umas das outras, e assim havia o \u201ctrabalho e cansa\u00e7o de uma viagem de coleta para um jovem que n\u00e3o \u00e9 forte\u201d. 45 A perda da companhia adulta de Thomas, mesmo com o conhecimento de sua fidelidade evang\u00e9lica nas terras do sul, lan\u00e7ava uma atmosfera de melancolia sobre o esp\u00edrito de C. H. Spurgeon, pois temia que o excesso de trabalho pudesse produzir luta cr\u00f4nica semelhante com depress\u00e3o e fadiga.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Depress\u00e3o e franqueza<\/h2>\n\n\n\n<p>Em julho de 1877, Spurgeon teve de cancelar compromissos em Liverpool, Norwich e Maze Pond por causa de dor e enfermidade. Manteve sua agenda em casa, mas pediu aos amigos que n\u00e3o lhe solicitassem que sa\u00edsse para falar. Se se esfor\u00e7asse para fazer mais do que isso, sabia que seria \u201cposto de lado com bastante frequ\u00eancia por depress\u00e3o de esp\u00edrito e dor no corpo;\u201d preferia, portanto, o relativo recolhimento de prosseguir firmemente com os deveres dom\u00e9sticos, pois a quietude comparativa poderia renovar suas for\u00e7as para empreendimentos futuros. 46 No in\u00edcio de 1881, estivera doente por cinco semanas e \u201cdurante esse tempo fui lan\u00e7ado em \u00e1guas profundas de depress\u00e3o mental,\u201d mas ao mesmo tempo tivera mais \u201cquietude de cora\u00e7\u00e3o do que antes.\u201d 47<\/p>\n\n\n\n<p>Elizabeth Skoglund apontou Spurgeon como um mestre para compreender os mecanismos internos da depress\u00e3o nos servos fi\u00e9is de Deus. Ele tamb\u00e9m tinha aguda percep\u00e7\u00e3o de suas origens mentais e f\u00edsicas, e ofereceu profundas interpreta\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas dela. N\u00e3o analisava a depress\u00e3o como tendo, sem exce\u00e7\u00e3o, suas ra\u00edzes no pecado. Essa origem era poss\u00edvel e, \u00e0s vezes, era a explica\u00e7\u00e3o mais clara, mas frequentemente a explica\u00e7\u00e3o para seu assalto ao esp\u00edrito estava muito distante de uma disposi\u00e7\u00e3o pecaminosa, e seu rem\u00e9dio muitas vezes era algo diverso do arrependimento. \u201cSpurgeon estava muito \u00e0 frente de seu tempo ao perceber essa importante rela\u00e7\u00e3o entre as emo\u00e7\u00f5es e o corpo\u201d, observou Skoglund, percep\u00e7\u00e3o que ele adquiriu por causa da conex\u00e3o que experimentava de modo consistente entre seus males cr\u00f4nicos e sua depress\u00e3o sempre recorrente. 48 Ao compartilhar abertamente sua dor, de corpo e de esp\u00edrito, Spurgeon tornou-se grande fonte de consolo e conselho para outros. Sua pr\u00f3pria vulnerabilidade a essa condi\u00e7\u00e3o e as cr\u00edticas que recebia por causa dela tornaram-no agudamente sens\u00edvel \u00e0 experi\u00eancia de outros e permitiram-lhe encontrar exemplos escritur\u00edsticos e teol\u00f3gicos para explicar essa condi\u00e7\u00e3o humana t\u00e3o comum, embora nem por isso menos aflitiva. Skoglund observou com acerto que \u201cas nuvens negras da depress\u00e3o nunca deixaram permanentemente a vida de Spurgeon at\u00e9 que ele foi estar com seu Salvador.\u201d 49<\/p>\n\n\n\n<p>Skoglund tamb\u00e9m recorreu a alguns serm\u00f5es de Spurgeon para mostrar que o pr\u00f3prio Cristo sentiu depress\u00e3o, obviamente n\u00e3o de modo pecaminoso, mas como resultado do impacto de seu conhecimento de que miseric\u00f3rdias antes sustentadoras agora lhe estavam sendo retiradas. Ele come\u00e7ou a entristecer-se profundamente, como nos dizem os Evangelistas, e, se quisermos ter alguma esp\u00e9cie de simpatia com ele em sua tristeza, \u201c\u00e0s vezes at\u00e9 para n\u00f3s os gafanhotos precisam ser um fardo, para que em todas as coisas sejamos semelhantes \u00e0 nossa cabe\u00e7a.\u201d 50 Sua pesquisa do progresso de Spurgeon desde o in\u00edcio de seu minist\u00e9rio at\u00e9 sua morte convenceu Skoglund de que \u201cApesar de, e muito provavelmente por causa de, a depress\u00e3o na vida de Spurgeon, ele se tornou um gigante espiritual para Deus.\u201d Skoglund encontrou na experi\u00eancia de Spurgeon e em sua capacidade de analis\u00e1-la cuidadosamente um aux\u00edlio profundo no aconselhamento de crist\u00e3os que caminham sob as sombras de uma peregrina\u00e7\u00e3o nublada.<\/p>\n\n\n\n<p>O aluno e bi\u00f3grafo de Spurgeon, J. C. Carlile, viu em Spurgeon esse mesmo elemento de edifica\u00e7\u00e3o por meio da maneira como suportava a dor constante. Carlile observou que a maior parte da carreira de Spurgeon \u201cfoi vivida em comunh\u00e3o com a dor f\u00edsica.\u201d Ao suport\u00e1-la ele pr\u00f3prio com resigna\u00e7\u00e3o animosa, o sofrimento contribu\u00eda \u201cpara o consolo e fortalecimento de outros.\u201d Nos anos posteriores, ao sentar-se desconfort\u00e1vel e pesadamente na cadeira em seu aposento particular, conversar era dif\u00edcil, pois a respira\u00e7\u00e3o lhe vinha apenas com dor e, mesmo sentado, apoiava-se fortemente em sua bengala. \u201cHoje o inimigo me pegou,\u201d disse certa vez, \u201cem ambos os joelhos. Receio que n\u00e3o poderei caminhar at\u00e9 a plataforma.\u201d Come\u00e7ou a \u00e1rdua caminhada endireitando-se, apertando os l\u00e1bios, e ficou de p\u00e9 com a ajuda de sua bengala de um lado e de um bra\u00e7o que o amparava do outro. Ao longo do corredor ele lutava para seguir, e ent\u00e3o entrava na sala do Col\u00e9gio, onde, como recordou Carlile, \u201cas vigas ressoavam com as boas-vindas de cento e vinte homens.\u201d Endireitou-se ainda mais, alcan\u00e7ou a plataforma e sentou-se. \u201cEnt\u00e3o o inimigo lhe deu outra pontada; seu rosto se contraiu por um momento, mas, quando levantou os olhos com nova luz no olhar, disse: \u2018Deus d\u00e1 a alguns um talento para sofrer.\u2019\u201d Refletindo seu pr\u00f3prio ju\u00edzo e as conversas que teve com os homens presentes, Carlile observou: \u201cNaquela tarde muitos homens sentiram vergonha de alguma vez terem falado de suas mesquinhas dores e pequenas indisposi\u00e7\u00f5es. Tinham visto uma grande alma em agonia f\u00edsica.\u201d 51<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os anos dif\u00edceis de 1878 e 1879<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando chegou o tempo de concluir o trabalho editorial de <em>The Sword and the Trowel <\/em>em dezembro de 1877 para a revista de janeiro de 1878, a primeira entrada nas notas declarava: \u201cO Sr. Spurgeon est\u00e1 completamente afastado e em uma condi\u00e7\u00e3o de dor que o impede de fazer qualquer coisa.\u201d 52 Em janeiro, \u201cexausto pelo cansa\u00e7o do c\u00e9rebro\u201d, Spurgeon partiu para um per\u00edodo de descanso. A cada ano, certos sintomas apareciam com \u201cdolorosa for\u00e7a\u201d e indicavam que \u201ca tens\u00e3o sobre a mente precisava ser afrouxada ou os per\u00edodos de descanso prolongados.\u201d A tens\u00e3o do minist\u00e9rio de uma congrega\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande, combinada com as crescentes responsabilidades das obras beneficentes, tornava necess\u00e1rio tomar provid\u00eancias para \u201ctransferir parte do fardo para outros ombros.\u201d 53<\/p>\n\n\n\n<p>No que dizia respeito \u00e0 pr\u00f3pria congrega\u00e7\u00e3o, Spurgeon sentia um peso crescente por causa das estat\u00edsticas de aumento e diminui\u00e7\u00e3o. Quando 1877 produziu um aumento bruto de 437, desligamentos de v\u00e1rios tipos de 337, resultando em um aumento l\u00edquido de 100, Spurgeon suspirou: \u201c\u00c9 not\u00e1vel qu\u00e3o grande um aumento bruto \u00e9 necess\u00e1rio para produzir qualquer aumento claro. \u00c0 medida que uma igreja envelhece, essa dificuldade aumenta, e grande obra precisa ser feita para pouco resultado estat\u00edstico.\u201d A quest\u00e3o importante, contudo, era que \u201calmas s\u00e3o salvas e, quer outras igrejas na terra ou as hostes triunfantes no alto sejam as beneficiadas, \u00e9 igualmente motivo de regozijo.\u201d 54<\/p>\n\n\n\n<p>Os di\u00e1conos sugeriram que ele tirasse algumas semanas extras de folga. Um deles, de fato, sugeriu doze, pois \u00e0s vezes mesmo sete ou oito semanas n\u00e3o bastam para uma recupera\u00e7\u00e3o completa. O di\u00e1cono tinha um cavalo que era \u201ct\u00e3o boa pe\u00e7a quanto j\u00e1 viveu, mas livre demais (muito parecido com o senhor), e se excessaria se tivesse oportunidade, e por fim ficou estranho das pernas e tonto da cabe\u00e7a.\u201d O cavalo precisou de tr\u00eas meses em bom pasto para recobrar as for\u00e7as e o equil\u00edbrio e, \u201csendo vendido, alcan\u00e7ou o pre\u00e7o original.\u201d 55 Spurgeon n\u00e3o tinha desejo de ser vendido a pre\u00e7o algum, mas sorriu com a compara\u00e7\u00e3o congenial. Parecia melhorar \u201ca cada cinco minutos\u201d, disse ele, e via Mentone como um \u201cretiro encantador, sem rival por seu calor, sol e paisagem.\u201d 56 N\u00e3o apenas o clima e a paisagem eram um t\u00f4nico para Spurgeon, mas ele achava a comunh\u00e3o notavelmente encorajadora, pois ministros tanto da Igreja quanto dos Dissidentes formavam uma \u201cAlian\u00e7a Evang\u00e9lica pr\u00e1tica.\u201d O ministro e evangelista da Igreja Francesa eram muito atenciosos tanto com os visitantes quanto com os mentoneses.<\/p>\n\n\n\n<p>Em julho de 1878, Spurgeon n\u00e3o p\u00f4de cumprir um compromisso de pregar em Witney, \u201cpois o tempo severo nos confinou ao leito.\u201d O pai de Spurgeon foi em seu lugar e o substituiu bem. Spurgeon deixou claro que temia assumir compromissos, \u201cpois t\u00e3o frequentemente somos postos de lado da maneira mais dolorosa, e o resultado \u00e9 desapontamento.\u201d Quando se soube que ele estava indo \u00e0 Esc\u00f3cia para descansar, os pedidos de serm\u00f5es ao longo do caminho come\u00e7aram a se acumular. Spurgeon ficou perplexo com isso, n\u00e3o sabendo bem como processar tamanha bondade severa. N\u00e3o perdeu seu senso de humor e ironia ao descrever sua perplexidade. Convites vinham de \u201cgrande n\u00famero de cidades escocesas, e de lugares em cada uma das tr\u00eas linhas f\u00e9rreas, mas fomos suplicados a fazer apenas uma breve parada de algumas horas e pregar no norte do Pa\u00eds de Gales, bem como na costa de Cumberland, que, como todos sabem, tamb\u00e9m ficam no caminho da Esc\u00f3cia, se a pessoa assim quiser.\u201d Ele n\u00e3o conseguia calcular quantos pennies havia sido multado na forma de selos postais por fornecer respostas negativas a todos esses pedidos. Apenas uma parada de duas horas e pegar o pr\u00f3ximo trem, multiplicado por doze, tornava duvidoso que algum dia chegasse \u00e0 Esc\u00f3cia. \u201cE isso quando um homem est\u00e1 saindo de f\u00e9rias!\u201d Para Spurgeon, a coisa n\u00e3o era t\u00e3o simples quanto apenas dizer: \u201cN\u00e3o\u201d, pois ele preferiria ser a\u00e7oitado a recusar um convite para pregar. Como sucedeu, a sa\u00fade de Spurgeon, ou a falta dela, causou o adiamento das f\u00e9rias. 57 Ningu\u00e9m precisava, portanto, ofender-se, pois Spurgeon n\u00e3o se aproximou das cidades que o haviam convidado, mas encontrou seu repouso num leito doloroso.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo ele j\u00e1 p\u00f4de viajar, e foi para a Esc\u00f3cia. Um amigo, o Sr. Duncan, tinha um iate, e os dias eram passados \u201ccruzando mares ensolarados, e geralmente ancorando \u00e0 noite em ba\u00edas solit\u00e1rias\u201d. Ali as distra\u00e7\u00f5es n\u00e3o vinham do ronco do tr\u00e1fego nem do ru\u00eddo incessante da vida urbana, mas do \u201cgrito das aves marinhas, o clamor da foca, e o salpicar dos peixes que saltavam\u201d. Ali ele experimentou um banho de descanso, intenso deleite e repouso, pelo qual expressou gratid\u00e3o, algo que nenhuma \u201cexibi\u00e7\u00e3o, recrea\u00e7\u00e3o artificial, ou prepara\u00e7\u00e3o m\u00e9dica pode proporcionar\u201d. 58 Contudo, ele n\u00e3o apenas observava, mas pescava, e achava o tempo estimulante. Ao usar sua pescaria como ilustra\u00e7\u00e3o para o evangelismo, descreveu o que deve ter sido uma experi\u00eancia v\u00edvida a bordo do iate. \u201c\u00c9 muito encorajador sentir que alguma grande criatura de algum tipo est\u00e1 puxando do outro lado da linha. Tragam-no logo para cima! Melhor ainda \u00e9 ter dois anz\u00f3is e puxar dois peixes de uma vez, como um de nossos amigos fez. Fazer isso duas vezes por minuto, ou t\u00e3o depressa quanto se possa lan\u00e7ar a linha, \u00e9 melhor de tudo. Que excita\u00e7\u00e3o! Ningu\u00e9m se cansa, e o dia mal \u00e9 longo o bastante. Puxem-nos para cima, recolham as linhas! O qu\u00ea, outra mordida? R\u00e1pido! R\u00e1pido! \u2026 Isto \u00e9 boa pescaria.\u201d 59<\/p>\n\n\n\n<p>Em 10 de novembro de 1878, Spurgeon adoeceu e chamou seus filhos para pregarem em seu lugar. \u201cO filho Tom\u201d entrou na brecha, assumindo o culto da noite, que havia sido especialmente planejado para \u201cvisitantes\u201d, a ocasi\u00e3o trimestral em que os ouvintes habituais de Spurgeon ficavam em casa para permitir que outros assistissem. Tom pregou cinco vezes, e Charles uma. Spurgeon escreveu: \u201cTem sido um deleite nada comum para ambos os pais enfermos ouvir por toda parte os ju\u00edzos altamente favor\u00e1veis do povo de Deus quanto \u00e0 utilidade presente e \u00e0 futura emin\u00eancia de seus filhos.\u201d 60<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon pregou uma vez em dezembro e, em meados de janeiro, foi para seu retiro na Fran\u00e7a, em Mentone. Segundo Fullerton, esse lugar, \u201cde todos os pontos da Riviera Francesa, era o retiro escolhido durante o \u00faltimo quartel do s\u00e9culo dezenove por aqueles que buscavam sol de inverno longe das frivolidades da moda\u201d. 61 Thomas Spurgeon o acompanhou nessa viagem. Spurgeon quis dar alguma aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s leituras do filho e lhe designou <em>French Revolution<\/em> de Carlyle e <em>Outlines of Theology,<\/em> de A. A. Hodge. Durante essa estadia, o jovem Spurgeon conheceu George Muller, Hudson Taylor e John Bost.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a perman\u00eancia em Mentone, ele escreveu \u00e0 sua congrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos ouvintes no Tabern\u00e1culo e em outros lugares<\/p>\n\n\n\n<p>Amados amigos<\/p>\n\n\n\n<p>Pela terna bondade de Deus, a viagem at\u00e9 aqui foi feita sem fadiga excessiva, e agora espero que o clima ameno traga consigo r\u00e1pida restaura\u00e7\u00e3o. Este lugar participou do clima rigoroso. Ele varreu o continente, de modo que, neste momento, sinto falta do sol brilhante ao qual antes estava acostumado; contudo, \u00e9 comparativamente quente e, at\u00e9 onde vai, \u00e9 ben\u00e9fico para um inv\u00e1lido. O descanso \u00e9 a principal coisa, e espero descobrir que poderei voltar a voc\u00eas fortalecido para o servi\u00e7o sagrado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a pedido de muitos que escrevo estas poucas linhas; de outro modo, eu estaria mais contente em nada dizer acerca de mim mesmo. Cambaleando hoje sobre meu cajado em fraqueza, olho esperan\u00e7osamente para o tempo em que estarei entre voc\u00eas em plenitude de vigor. Deus conceda que me sejam dadas for\u00e7a mental e, acima de tudo, for\u00e7a espiritual para a prega\u00e7\u00e3o da palavra em vosso meio, de modo que minha longa afli\u00e7\u00e3o corporal ajude para esse fim. Confio que n\u00e3o serei esquecido em vossas ora\u00e7\u00f5es quando tudo estiver bem convosco; espero tamb\u00e9m que os v\u00e1rios empreendimentos, tais como o Col\u00e9gio e o Orfanato, n\u00e3o sejam deixados definhar porque o Presidente est\u00e1 enfermo. Paz seja com todos voc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito cordialmente vosso,<\/p>\n\n\n\n<p>C. H. Spurgeon<\/p>\n\n\n\n<p>No Pref\u00e1cio ao volume de 1879 de <em>The Sword and the Trowel<\/em> (escrito provavelmente em dezembro ou no fim de novembro de 1879), Spurgeon resumiu a dolorosa luta com enfermidade e depress\u00e3o experimentada durante o ano. \u201cSuas primeiras horas viram o Pastor prisioneiro, incapaz de levantar-se do leito de dor.\u201d Isso o levou a tirar uma \u201clicen\u00e7a de tr\u00eas meses, durante a qual cessou sua dor corporal, seu \u00e2nimo reviveu, e sua mente se recuperou de uma press\u00e3o que de algum modo a havia sobrepujado.\u201d As exig\u00eancias sobre cabe\u00e7a e cora\u00e7\u00e3o geradas por ministrar a uma congrega\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande, bem como por superintender tantas formas de trabalho crist\u00e3o, Spurgeon achava imposs\u00edvel descrever a quaisquer, exceto \u00e0queles que as haviam sentido por si mesmos. \u201cN\u00e3o \u00e9 de admirar que \u00e0s vezes a tens\u00e3o seja grande demais, e mente e esp\u00edrito afundem em dolorosa depress\u00e3o\u201d, confessou Spurgeon, \u201cda qual n\u00e3o h\u00e1 recupera\u00e7\u00e3o sen\u00e3o pelo descanso.\u201d 62 Essa licen\u00e7a de tr\u00eas meses foi precedida por dois meses de tal debilidade que Spurgeon teve de pedir a outros que ocupassem seu p\u00falpito de 10 de novembro at\u00e9 sua partida em janeiro. Durante esse tempo, escreveu que desejava \u201cque zelo e fervor n\u00e3o fossem restringidos e embara\u00e7ados por estarem jungidos a dolorosas enfermidades da carne.\u201d Queria que seu povo e todos os seus amigos soubessem que certamente faria mais \u201cse n\u00e3o f\u00f4ssemos prostrados justamente no momento em que nosso trabalho requer nossa presen\u00e7a.\u201d Comprometeu-se a que cada intervalo de al\u00edvio seria \u201cempregado em seu servi\u00e7o.\u201d Como foi mencionado acima, seus filhos estavam entre aqueles que o supriram, tendo Thomas preenchido cinco dos cultos. 63<\/p>\n\n\n\n<p>Nos estertores desse assalto, Spurgeon tentou responder \u00e0 necessidade de escrever alguma pe\u00e7a memorial relativa \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o de vinte e cinco anos na igreja. Spurgeon escreveu: \u201cNossa m\u00e1 sa\u00fade neste momento mal nos permite segurar uma pena ou ditar palavras a outrem; devemos, portanto, deixar para outra ocasi\u00e3o tais express\u00f5es de gratid\u00e3o quanto a plenitude de nosso cora\u00e7\u00e3o permitir.\u201d Ele havia experimentado muitas b\u00ean\u00e7\u00e3os comuns pelas quais era agradecido, mas os abundantes e extraordin\u00e1rios favores que lhe foram concedidos no relacionamento com seu povo ao longo desse semijubileu n\u00e3o podiam ser \u201cdevidamente reconhecidos com l\u00ednguas de homens ou de anjos, a menos que uma feliz inspira\u00e7\u00e3o levasse o agradecido para al\u00e9m de si mesmo.\u201d 64<\/p>\n\n\n\n<p>Ao escrever as \u201cNotas\u201d para janeiro, sua enfermidade debilitante de novo veio ao primeiro plano. \u201cSe houver erros nas notas, ou no reconhecimento dos bens, ou em qualquer outra coisa, espera-se e cr\u00ea-se que a m\u00e1 sa\u00fade do editor ser\u00e1 desculpa suficiente. Fizemos o melhor que pudemos; mas, com um c\u00e9rebro dolorido e cansado, que \u00e9 a raiz de nossa enfermidade, n\u00e3o podemos deixar de falhar de muitas maneiras.\u201d Embora a celebra\u00e7\u00e3o do m\u00eas fosse sobre seu minist\u00e9rio, ele se manteve o mais afastado poss\u00edvel da agita\u00e7\u00e3o. Pediu que os amigos o compreendessem e desculpassem se continuasse a faz\u00ea-lo, \u201cpois nossa cabe\u00e7a n\u00e3o o suporta.\u201d Ao mesmo tempo em que era pressionado ao limite em dor e afli\u00e7\u00e3o, relatou que \u201ca Sra. Spurgeon tem passado por um tempo muito penoso de dor e fraqueza.\u201d Ela se sentia incapaz da tarefa de escrever um relat\u00f3rio sobre o fundo para livros. Seu marido a teria ajudado, mas ele tamb\u00e9m havia sido posto de lado, \u201crevirando-se de um lado para outro em dor.\u201d 65<\/p>\n\n\n\n<p>No m\u00eas seguinte esse estado prostrado continuou, com um correspondente senso de miseric\u00f3rdia. \u201cDurante as \u00faltimas semanas, longas semanas de fato, fomos postos de lado por enfermidade. Houve intervalos de capacidade para escrever, como nossos leitores ver\u00e3o pelos artigos nesta e na revista do m\u00eas passado, mas na maior parte do tempo fomos um prisioneiro, sob restri\u00e7\u00f5es para cessar o trabalho.\u201d Spurgeon representava seu caso como um de felicidade e favor, cheio de miseric\u00f3rdia, mas com dores agudas necess\u00e1rias e labores excessivos para que a alegria n\u00e3o sa\u00edsse de seus limites. Esses fen\u00f4menos contrastantes da vida destinavam-se a equilibrar-se mutuamente. Em meio a tudo isso, disse Spurgeon, \u201cEstamos agora recuperando for\u00e7as e, antes que esta folha encontre o olhar do leitor, esperamos estar fora dos frios e das umidades, no sul da Fran\u00e7a.\u201d Estava cercado de amigos \u00edntimos e \u201co amor flutua na atmosfera que respiramos.\u201d Mais uma vez, Susannah n\u00e3o poderia acompanh\u00e1-lo. Recomendou-a aos seus amigos, para que n\u00e3o a esquecessem em sua aus\u00eancia. Os oficiais da igreja haviam feito um apelo sincero para que ele tomasse tempo suficiente de descanso para o bem mais duradouro de seu minist\u00e9rio entre eles. \u201cN\u00f3s o imprimimos\u201d, observou Spurgeon, \u201cporque interessar\u00e1 a alguns de nossos amigos.\u201d 66<\/p>\n\n\n\n<p>Caro Pastor,<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com muita sinceridade e amor que n\u00f3s, seus oficiais da igreja, desejamos apresentar-lhe este nosso apelo un\u00e2nime.<\/p>\n\n\n\n<p>Consideramos ser o caminho da sabedoria que o senhor ponha de lado por tr\u00eas meses seus deveres p\u00fablicos em nosso meio, a fim de obter o descanso completo de que tanto necessita. Seus muitos labores, em tempo e fora de tempo, nos quais nos alegramos de todo o cora\u00e7\u00e3o, levaram-nos \u00e0 conclus\u00e3o de que, a menos que o senhor renove suas for\u00e7as por meio de uma longa interrup\u00e7\u00e3o do trabalho ativo, ser\u00e1 impedido de continu\u00e1-lo no futuro. Nossos cora\u00e7\u00f5es t\u00eam se entristecido profundamente pelo sofrimento e fraqueza que o t\u00eam acometido com tanta frequ\u00eancia ultimamente, e, portanto, julgamos imperativo que o senhor experimente o efeito de uma mudan\u00e7a completa de cen\u00e1rio por tr\u00eas meses. Faremos quaisquer arranjos que o senhor desejar para a condu\u00e7\u00e3o de seu trabalho enquanto estiver ausente, mas, mui afetuosamente e ainda assim firmemente, insistimos em nosso ju\u00edzo un\u00e2nime para sua considera\u00e7\u00e3o. Sentiremos muito sua falta e saudaremos com alegria seu retorno aos seus amados e pr\u00f3speros labores; ainda assim, n\u00e3o podemos deixar de ver que o senhor est\u00e1 se desgastando em seu posto e deve poupar-se para o futuro bem-estar e servi\u00e7o, n\u00e3o apenas de nossa pr\u00f3pria amada igreja, mas de todo o mundo crist\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os oficiais n\u00e3o apenas enviaram esta carta, mas providenciaram que tudo fosse devidamente cuidado durante a aus\u00eancia do pastor. Quando se tratava de cuidar de seu pastor, n\u00e3o faziam nada pela metade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meados de mar\u00e7o, na companhia de muitos amigos, Spurgeon podia dizer que estava melhor, \u201cembora fraco dos joelhos, e sujeito a agudas dores reum\u00e1ticas a cada mudan\u00e7a de tempo.\u201d Esperava voltar para pregar no segundo domingo de abril. As condi\u00e7\u00f5es em Mentone sempre o ajudavam. O ar de Mentone era seco, o tempo geralmente bom, e o Hotel de la Paix, bem ordenado em todos os aspectos, lhe proporcionava todo conforto e hospitalidade conceb\u00edveis. Estava cercado de \u201camigos da mais excelente esp\u00e9cie, que parecem vir e partir em sucess\u00e3o, como que por arranjo.\u201d O Dr. Bennet, seu m\u00e9dico, como de costume, \u201cexercia sua melhor habilidade para nossa recupera\u00e7\u00e3o.\u201d 67<\/p>\n\n\n\n<p>Ele viu Hudson Taylor, bem como George Muller. Ambos eram amigos de Spurgeon, e ele os admirava grandemente. Nesta ocasi\u00e3o, a respeito de Muller, escreveu: \u201cContamos como alegria extraordin\u00e1ria ter-nos sido concedido estar com este homem de Deus. Sua prega\u00e7\u00e3o \u00e9 muito espiritual e fortalecedora; mas em particular ele nos impressiona ainda mais. Sua evidente felicidade e santa serenidade leem uma bendita li\u00e7\u00e3o para algu\u00e9m que \u00e9 por demais propenso a abater-se.\u201d Prometeu escrever algo sobre alguns de seus visitantes \u201cse nossa mente estiver em condi\u00e7\u00e3o apropriada.\u201d Cumpriu essa promessa para a edi\u00e7\u00e3o de maio. Enquanto isso, prosseguiu, dizendo: \u201cEstamos revigorados em esp\u00edrito, e fortalecidos nos nervos, embora um tanto perplexos com o relat\u00f3rio da Sociedade de Colportagem, o qual desejamos levar perante o Senhor em ora\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que usamos os meios, informando o povo.\u201d Spurgeon confessou a necessidade de uma grande medida de f\u00e9 e, com sua habitual e adequada simplicidade, sentia-se confiante de que o Senhor supriria as necessidades de sua pr\u00f3pria obra. \u201cN\u00e3o podemos nos dar ao luxo de ficar ansiosos, pois isso nem honraria o Senhor nem beneficiaria nossa sa\u00fade mental ou f\u00edsica.\u201d Mais tarde, descreveu a necessidade imediata que o minist\u00e9rio de colportagem tinha de uma inje\u00e7\u00e3o de \u00a31.000. 68<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dor e benevol\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p>Aquela nota concernente ao minist\u00e9rio de colportagem apontava para a realidade de que as benevol\u00eancias que floresciam sob sua superintend\u00eancia tamb\u00e9m desgastavam suas reservas emocionais. Sua rela\u00e7\u00e3o com elas gerava uma manifesta\u00e7\u00e3o crescente de confian\u00e7a, bem como uma fonte cada vez mais profunda de afli\u00e7\u00e3o. Esse processo havia come\u00e7ado anos antes.<\/p>\n\n\n\n<p>A urg\u00eancia saturava suas palavras em 1870 quando escreveu: \u201cPerdoar-nos-\u00e3o os amigos por lembr\u00e1-los de que a maior bondade que podem fazer-nos \u00e9 impedir toda tenta\u00e7\u00e3o \u00e0 ansiedade de esp\u00edrito de nossa parte, suprindo com regularidade de liberalidade as necessidades do Col\u00e9gio, do Orfanato e da Colportagem.\u201d 69 Dois anos depois, continuou a expressar essa urg\u00eancia por meio de seu apre\u00e7o pelas maneiras criativas com que os doadores de pequenas ofertas procuravam ampliar seu impacto para o bem. Spurgeon fez men\u00e7\u00e3o especial a \u201cv\u00e1rias pequenas quantias de homens trabalhadores que foram levados a ajudar o orfanato por meio da leitura de<em> John Ploughman\u2019s Almanack<\/em>\u201d, elogiando suas sugest\u00f5es para aumentar as receitas. Um desses leitores \u201cquer que exortemos algumas centenas de trabalhadores a enviar 2s. 6d. cada um, como ele fez, e assim aumentar a renda\u201d. Spurgeon lhe agradeceu por sua liberalidade espont\u00e2nea, esperou que outros o imitassem por amor aos \u00f3rf\u00e3os, e recomendou tal generosidade exclamando: \u201cQuanto mais, melhor.\u201d Quando outro leitor enviou meia coroa, reconhecendo que o Almanack a valia, \u201cJohn Ploughman tira o chap\u00e9u \u00e0quele amigo\u201d. Outro leitor de John Ploughman predisse grande venda para o livro e anexou quatro guin\u00e9us, como \u201cequivalente por 1.000 exemplares, para os Fundos do Orfanato de Stockwell, confiando que muitos de seus leitores sigam o exemplo\u201d. 70<\/p>\n\n\n\n<p>A combina\u00e7\u00e3o de \u201castuto bom senso ingl\u00eas\u201d e ora\u00e7\u00e3o foi exibida plenamente numa fala em reuni\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o em agosto de 1881. As viagens de ver\u00e3o muitas vezes faziam as pessoas esquecerem-se das necessidades constantes l\u00e1 em Londres e, assim, confessou Spurgeon, causavam \u201cprova\u00e7\u00e3o da minha f\u00e9\u201d. \u201cVejo as \u00e1guas baixando, e \u00e0s vezes os topos das rochas ficam descobertos, e posso ver as algas e a lama, e n\u00e3o aprecio nada essa vis\u00e3o.\u201d Ele preferiria ver bastante \u00e1gua naveg\u00e1vel \u201cpara a frota da caridade\u201d. Embora agradecido por nunca terem estado realmente em d\u00edvida, tamb\u00e9m esperava mais regularidade nas contribui\u00e7\u00f5es. Com a recente adi\u00e7\u00e3o do orfanato para meninas, confessou uma prova\u00e7\u00e3o da mente: \u201cDigo a mim mesmo: \u2018N\u00e3o vejo mais pessoas tomando parte na obra\u2019, e surge a pergunta: \u2018Como, afinal, voc\u00ea as sustentar\u00e1?\u2019\u201d Sua resposta era que ele n\u00e3o sabia, mas Deus sabia e podia encontrar os meios. Ele n\u00e3o lan\u00e7ar\u00e1 fora uma \u201cboa obra que \u00e9 empreendida por amor dele\u201d. Assim, exortou os 1.500 presentes na reuni\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o: \u201corem sobre isso, para que n\u00e3o seja verdade que n\u00e3o temos porque n\u00e3o pedimos.\u201d Falou com urg\u00eancia, rogando ora\u00e7\u00e3o por todas as ag\u00eancias igualmente \u00fateis, n\u00e3o porque \u201ceu tenha alguma ansiedade incr\u00e9dula, mas porque o Senhor disse: \u2018Ainda por isto serei consultado pela casa de Israel, para lho fazer.\u2019\u201d 71 Cada nova benevol\u00eancia, cada nova sociedade, cada funda\u00e7\u00e3o de uma igreja numa \u00e1rea necessitada acrescentava ao fardo mental de Spurgeon, aumentava a urg\u00eancia de seu apelo aos amigos contribuintes, e dava novo impulso \u00e0 ora\u00e7\u00e3o importuna diante do trono da gra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, Spurgeon parecia usar sua sa\u00fade como alavanca para obter apoio financeiro. Em 1871, pediu a seus ouvintes que, \u201cse s\u00e3o beneficiados pela palavra que prego, e desejam mostrar sua gratid\u00e3o\u201d, lhe fizessem uma bondade pessoal contribuindo para o Orfanato de Stockwell. \u201cN\u00e3o estou suficientemente bem para suportar ansiedade\u201d, informou-lhes, \u201ce espero que aqueles por quem tenho trabalhado me preservem dela pela const\u00e2ncia de seu apoio a esta e \u00e0s minhas outras Institui\u00e7\u00f5es.\u201d Se o apoio fosse constante e suficiente, isso o guardaria contra \u201cdepress\u00e3o de esp\u00edrito, e me alegraria no servi\u00e7o de meu Senhor.\u201d 72<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de partir em 1874, informou seu povo de que havia orado por \u201calguma pequena reserva em caixa para durar enquanto estiv\u00e9ssemos ausentes.\u201d Tal provis\u00e3o o livraria da \u201ctenta\u00e7\u00e3o de preocupar-se com finan\u00e7as enquanto busca descanso.\u201d Sua ora\u00e7\u00e3o havia sido ouvida \u201cem certa medida\u201d, e os fundos aumentaram. \u201cNunca tivemos tantos sinais de amor de nossos amigos como justamente agora. A todos agradecemos e tomamos \u00e2nimo.\u201d 73<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano depois, quando uma dolorosa crise o acometeu em janeiro, Spurgeon mencionou brincando todas as prescri\u00e7\u00f5es que os amigos lhe haviam dado para curar a gota, as quais certamente o teriam matado se as houvesse tomado. No in\u00edcio da vida, antes que sua pr\u00f3pria afli\u00e7\u00e3o se tornasse evidente, o pr\u00f3prio Spurgeon havia sido humor\u00edstico ao sugerir uma cura para a gota de seu av\u00f4, supondo que ele devia ter gota na m\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o respondera \u00e0s suas cartas. \u201cSe ele est\u00e1 vivo\u201d, gracejou Spurgeon, \u201ce n\u00e3o foi para al\u00e9m-mar, fa\u00e7a o favor de dar-lhe meu afetuoso amor na primeira vez que o encontrar, e diga-lhe que suponho que ele deva ter gota nas m\u00e3os, de modo que n\u00e3o pode escrever.\u201d Se assim fosse, sugeriu Spurgeon, \u201cmantenha todos os vinhos e bebidas fortes longe dele, pois s\u00e3o coisas ruins para pessoas gotosas; e tenha a bondade de fomentar-lhe as m\u00e3os com \u00e1gua morna fervida com cabe\u00e7as de papoula. Com esse tratamento, o incha\u00e7o diminuir\u00e1.\u201d Nesse ponto, Spurgeon sugeriu que o amigo fict\u00edcio a quem compunha essa missiva colocasse seu av\u00f4 diante de uma mesa, pusesse uma pena em sua m\u00e3o, fizesse com que escrevesse seu nome e a colocasse no correio. \u201cAh, \u00e9 coisa triste\u201d, observou o saud\u00e1vel Spurgeon de dezenove anos, \u201cas pessoas ficarem gotosas!\u201d 74<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon havia ficado gotoso e agora n\u00e3o tinha rem\u00e9dios a sugerir sen\u00e3o um. O melhor rem\u00e9dio para ele, se os amigos realmente estavam preocupados com sua melhora, seria \u201cliberdade de qualquer ansiedade acerca do Col\u00e9gio, do Orfanato, ou da Colportagem enquanto estivermos ausentes. Se os fundos se mantiverem, e as obras forem levadas adiante por aqueles nelas engajados, e especialmente se o Senhor aben\u00e7oar os empreendimentos, isso nos ser\u00e1 melhor do que todas as lo\u00e7\u00f5es, linimentos, espec\u00edficos e elixires juntos, com vinte esp\u00e9cies de magnetismo acrescentadas.\u201d 75<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, em 1879, vemos qu\u00e3o de perto Spurgeon cria que sua sa\u00fade estava ligada aos n\u00edveis de ansiedade provocados pela seguran\u00e7a ou inseguran\u00e7a do apoio financeiro \u00e0s benevol\u00eancias. Ao preparar-se para deixar a Inglaterra em novembro e dezembro a fim de escapar aos nevoeiros, para evitar a enfermidade que regularmente o atacava nesses meses, com a esperan\u00e7a de sa\u00fade e for\u00e7as melhores para o restante do inverno, pensou imediatamente no estado financeiro da obra de caridade. \u201cNossa \u00fanica dificuldade \u00e9 que durante nossa aus\u00eancia os fundos diminuem\u201d, lembrou Spurgeon aos amigos leitores, \u201ce, portanto, seria grande al\u00edvio se os dep\u00f3sitos estivessem bem reabastecidos antes de sairmos de casa. Isso tornaria nosso feriado duplamente repousante.\u201d 76<\/p>\n\n\n\n<p>Seus leitores acostumaram-se a esses apelos por fundos para garantir-lhe a sa\u00fade e respondiam imediatamente ao ouvir falar de seus planos de ir ao Continente. Isso tamb\u00e9m se tornou certa alavanca em suas m\u00e3os. Quando partiu em novembro de 1881, conduziu seu apelo nessa linha. \u201cOs amigos que se interessam por nossa obra aliviar\u00e3o grandemente nossa mente se enviarem ajuda especialmente abundante para todas as institui\u00e7\u00f5es enquanto estivermos ausentes\u201d, lembrou ele a seus leitores, e ent\u00e3o acrescentou: \u201cTivemos outrora amigos vigilantes que prontamente enviavam aux\u00edlio generoso sempre que viam que o pastor estava enfermo, pois pensavam que isso seria ministrar \u00e0 sua sa\u00fade se mantivessem toda obra em bom funcionamento.\u201d Ent\u00e3o veio a suave aplica\u00e7\u00e3o para tal sensibilidade continuada: \u201cAlguns desses amigos ainda sobrevivem, e o Senhor est\u00e1 preparando mais, pois sua obra n\u00e3o deve vacilar.\u201d 77<\/p>\n\n\n\n<p>O sustento dessas benevol\u00eancias estava constantemente em sua mente. A perspectiva de preocupar-se, preocupava-o. O espectro do medo o fitava de tal maneira que ele precisava de evid\u00eancia de b\u00ean\u00e7\u00e3o para cobrar \u00e2nimo. Com o aumento da responsabilidade nos anos vindouros, o pre\u00e7o emocional e mental cobrado da sa\u00fade de Spurgeon se multiplicaria. Antes do bazar em janeiro de 1882 para completar o financiamento do orfanato das meninas, Spurgeon sentiu um de seus velhos inimigos insinuando-se de novo em seu corpo. Uma mobiliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de amigos por toda a Inglaterra estava em andamento, reunindo bens e pessoas suficientes para uma extraordin\u00e1ria arrecada\u00e7\u00e3o de renda. \u201cSeria um grande conforto\u201d, disse a seus leitores, \u201creceber apenas uma linha assegurando-nos de que nossa confian\u00e7a est\u00e1 bem fundamentada.\u201d Ent\u00e3o disse ao leitor que \u201cos nevoeiros est\u00e3o vindo sobre n\u00f3s, e o Pastor se encontra em temor di\u00e1rio de uma volta do reumatismo; em cujo caso ter\u00e1 de deixar de imediato esta terra de umidades.\u201d Mas como poderia ele ir embora com tamanha press\u00e3o por sua presen\u00e7a neste est\u00e1gio cr\u00edtico do desenvolvimento dos planos e da publicidade? \u201cContribuiria para a sa\u00fade\u201d, informou, \u201cver a boa obra avan\u00e7ando com vigor.\u201d 78 A prepara\u00e7\u00e3o do bazar precisava continuar em sua aus\u00eancia e certamente seria bem-sucedida se \u201ccada membro da igreja, cada leitor de serm\u00f5es, e cada assinante da revista\u201d enviasse alguma coisa. \u201cLembrem-se\u201d, instou ele, \u201cisto \u00e9 para as <em>meninas<\/em>, e os pequeninos pleiteiam por si mesmos.\u201d 79<\/p>\n\n\n\n<p>As alturas de alegria geradas pelos brilhantes \u00eaxitos de cada respectivo afluxo caritativo exigiam uma correspondente efus\u00e3o de mente e cora\u00e7\u00e3o de Spurgeon de um modo que nenhum outro mortal podia entender, e nenhum outro mortal podia suportar. Embora se cercasse de administradores capazes, de igual pensamento quanto \u00e0 doutrina e \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o, nenhum podia tomar seu lugar no apelo p\u00fablico gerado por cada empreendimento. Era o Tabern\u00e1culo de Spurgeon, o Col\u00e9gio de Spurgeon, o Orfanato de Spurgeon, os pregadores de Spurgeon, os colportores de Spurgeon, os asilos de Spurgeon, e os \u00f3rf\u00e3os de Spurgeon. Ele n\u00e3o conseguia empurrar nada disso para fora de seus ombros; sabia que seu apelo, sua presen\u00e7a, seus relat\u00f3rios, sua ambi\u00eancia especial de justifica\u00e7\u00e3o para cada minist\u00e9rio garantiam o \u00eaxito. Nem um minuto de qualquer dia estava livre de uma exig\u00eancia sempre crescente sobre suas habilidades de apelo, sua facilidade de explica\u00e7\u00e3o, seu rosto como monumento de confiabilidade, e seu minist\u00e9rio como fonte de \u201cofertas de gratid\u00e3o\u201d para o investimento do povo. Para onde poderia ir, sem que essa responsabilidade o seguisse; o que poderia fazer para ausentar-se sequer por um momento do cuidado de tantas pessoas, do pagamento de tantos sal\u00e1rios, e da manuten\u00e7\u00e3o de tanta propriedade? Isso exigia, ademais, n\u00e3o apenas g\u00eanio administrativo e investimento incessante de ju\u00edzo s\u00e1bio e experimentado, mas a suposi\u00e7\u00e3o de cont\u00ednua b\u00ean\u00e7\u00e3o espiritual sobre sua vida e minist\u00e9rio. E se isso cessasse?<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon fez quest\u00e3o de que ningu\u00e9m pudesse duvidar de seu compromisso com o financiamento das ag\u00eancias e de que ele pessoalmente se sacrificava pelo bem-estar delas. O come\u00e7o da celebra\u00e7\u00e3o dos vinte e cinco anos viu a lideran\u00e7a do Tabern\u00e1culo propor que um presente, um testemunho, fosse dado ao pastor. Spurgeon aprovou o levantamento da oferta comemorativa, mas recusou-se resolutamente a receber qualquer parte dela como presente pessoal. Embora um presente a um pastor por longo servi\u00e7o fosse um gesto digno, e em muitos outros casos fosse correto que pastores assim honrados recebessem alegremente a oferta para reserv\u00e1-la para suas fam\u00edlias, \u201cem nosso pr\u00f3prio caso n\u00e3o nos pareceu de modo algum apropriado que a oferta viesse para a nossa pr\u00f3pria bolsa\u201d. Embora n\u00e3o fosse pecado receb\u00ea-la, sua consci\u00eancia e seu cora\u00e7\u00e3o se revoltavam contra a ideia. Ele n\u00e3o queria monopolizar uma honra que, na realidade, pertencia \u00e0 igreja inteira. Prop\u00f4s que a oferta fosse levantada, mas destinada ao aux\u00edlio dos pobres da igreja. \u201cAjudar a igreja em seu santo dever de lembrar-se dos pobres, que \u00e9 a aproxima\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima de lembrar-se do pr\u00f3prio Cristo, pareceu-nos ser o uso mais elevado do dinheiro.\u201d 80<\/p>\n\n\n\n<p>Ele come\u00e7ara a preparar isso um ano antes, quando se aproximava do fim de vinte e cinco anos de minist\u00e9rio na congrega\u00e7\u00e3o. Em janeiro de 1878, disse aos di\u00e1conos que o \u201cfardo mais pesado eram os Asilos\u201d. Tinham um fundo escassamente dotado, suficiente para seis vi\u00favas, mas agora sustentavam dezessete. Isso, somado \u00e0s d\u00e1divas aos pobres, incluindo os membros pobres, excedia \u00a31.000 de despesa a cada ano. Pediu, portanto, que se fizesse um esfor\u00e7o para levantar uma dota\u00e7\u00e3o de \u00a35.000, e \u201cessa parte da obra da igreja ficaria em ordem adequada\u201d. Consideraria isso uma maneira apropriada de celebrar seu jubileu de prata de minist\u00e9rio. Embora ele pr\u00f3prio pudesse suportar o fardo, n\u00e3o gostaria de deixar tal carga para seu sucessor, caso viesse a ser chamado em breve. Sua administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria b\u00ean\u00e7\u00e3o alguma se a igreja viesse a descobrir que possu\u00eda instala\u00e7\u00f5es em que as vi\u00favas poderiam morrer de fome, mas nenhuma provis\u00e3o para seu p\u00e3o di\u00e1rio. Quando chegou a ocasi\u00e3o, portanto, o cuidado pelas vi\u00favas foi aumentado, e o leito de dor que ele ocupava foi suavizado. \u201cDurante todo o tempo em que estivemos revolvendo-nos de um lado para outro em dor\u201d, contextualizou pessoalmente Spurgeon, \u201co dinheiro para os v\u00e1rios objetivos tem aflu\u00eddo numa propor\u00e7\u00e3o raramente experimentada antes. Parece como se o Senhor tivesse ordenado aos seus mordomos que cuidassem em dobro de nossa obra enquanto sofr\u00edamos. A Deus seja o primeiro louvor, e ent\u00e3o a cada doador nossa gratid\u00e3o pessoal.\u201d 81<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que as entradas para o Memorial continuavam a chegar, Spurgeon comentou novamente sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a generosidade deles e sua sa\u00fade. Contemplando uma viagem a Mentone, observou: \u201cEste descanso se torna ainda mais verdadeiramente repousante pelo fato de nossos assinantes terem sido duplamente generosos para com os v\u00e1rios fundos, e assim nos fazerem sentir que nenhuma obra sofrer\u00e1 enquanto estivermos ausentes.\u201d Mesmo com a possibilidade de tal aumento na dota\u00e7\u00e3o, Spurgeon n\u00e3o podia permitir que algu\u00e9m esquecesse que \u201ca despesa com os v\u00e1rios empreendimentos continua\u201d. Sentia al\u00edvio, contudo, na presente seguran\u00e7a, tanto terrena quanto celestial, de \u201cum bom saldo em caixa em todas as contas, e a certeza de que cora\u00e7\u00f5es bondosos n\u00e3o se esquecer\u00e3o de manter todas as necessidades supridas, e acima disso, a confian\u00e7a de que nosso Deus suprir\u00e1 todas as nossas necessidades\u201d. 82 As doa\u00e7\u00f5es haviam alcan\u00e7ado \u00a32.300, com a promessa de mais \u00a31.000. Ele continuou firme em sua determina\u00e7\u00e3o, apesar dos esfor\u00e7os para convenc\u00ea-lo do contr\u00e1rio, de que nenhuma por\u00e7\u00e3o seria mantida para si mesmo, mas que dividiria a quantia entre as v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es. O comit\u00ea insistiu, contudo, em marcar o acontecimento com uma placa na sala de aula do Asilo e em dar alguma lembran\u00e7a da ocasi\u00e3o \u00e0 casa dos Spurgeon \u2014 \u201calgum bronze substancial, ou pe\u00e7a de mobili\u00e1rio, com uma inscri\u00e7\u00e3o apropriada\u201d 83 Ao fim do ano, quando Spurgeon escreveu o pref\u00e1cio para o <em>Trowel<\/em> de 1879, relatou um total final da d\u00e1diva memorial de testemunho, dada por \u201cnosso amado povo\u201d, de \u00a36.223 10s 5d. Spurgeon teve o prazer de entregar tudo aos administradores para a obra do Senhor. Sentiu grande al\u00edvio ao saber que \u201cnossos <em>Asilos<\/em> est\u00e3o agora dotados, de modo que o sustento das irm\u00e3s idosas nunca se tornar\u00e1 um fardo para a igreja\u201d. 84 Em 1882, Spurgeon constatou que \u201ca quantia provida pela dota\u00e7\u00e3o do Pastor\u201d n\u00e3o era suficiente para as velhinhas viverem. \u201cAlgumas poucas centenas mais\u201d, relatou, \u201ccolocariam esta institui\u00e7\u00e3o al\u00e9m da necessidade.\u201d 85<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voltou de Mentone em 1879, depois do refrig\u00e9rio do descanso e da grande vit\u00f3ria do Memorial, relatou: \u201cEstamos revigorados em esp\u00edrito e fortalecidos nos nervos, embora um tanto perplexos com o relat\u00f3rio da Sociedade de Colportagem.\u201d Como de costume, queria levar a necessidade diante do Senhor em ora\u00e7\u00e3o, \u201cao mesmo tempo em que usamos os meios, informando o povo\u201d. Precisava de f\u00e9 para que provis\u00e3o suficiente viesse a suprir as exig\u00eancias da Sociedade e a manter o equil\u00edbrio em sua pr\u00f3pria sa\u00fade. \u201cN\u00e3o podemos dar-nos ao luxo de ficar ansiosos, pois isso nem honraria o Senhor nem beneficiaria nossa sa\u00fade mental ou f\u00edsica.\u201d 86 Em seguida, passou a descrever uma situa\u00e7\u00e3o em que os fundos da Sociedade de Colportagem estavam perigosamente baixos e apelou por um ingresso de \u00a31.000. \u201cAgora h\u00e1 82 colportores, e o estoque est\u00e1 baixo demais para continuarmos pagando \u00e0 vista. Qualquer outra forma de agir \u00e9 dif\u00edcil na pr\u00e1tica e insustent\u00e1vel em princ\u00edpio.\u201d Por causa da obra do Reino, o labor dos colportores na prega\u00e7\u00e3o do evangelho, na temperan\u00e7a, em palestras, na distribui\u00e7\u00e3o de folhetos e na visita\u00e7\u00e3o aos enfermos precisava continuar. Nada menos que 75.000 fam\u00edlias estavam sendo visitadas mensalmente. Tudo isso, do ponto de vista humano, estava em perigo, e Spurgeon olhava \u201cpara Deus em busca de socorro imediato\u201d. N\u00e3o podia pensar que Deus quisesse \u201cque interromp\u00eassemos este santo servi\u00e7o, que ele est\u00e1 t\u00e3o grandemente aben\u00e7oando\u201d. Toda a prata e o ouro pertenciam ao Senhor, e ele podia prov\u00ea-los por meio de um \u00fanico doador ou levantar muitos amigos para completar a quantia. 87<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo falado aos \u201cirm\u00e3os e irm\u00e3s em Cristo\u201d da necessidade urgente, assegurou a seus leitores que n\u00e3o faria \u201capelo abjeto, nem poria an\u00fancios no jornal acerca de nossa afli\u00e7\u00e3o\u201d. A prova\u00e7\u00e3o viera quando ele n\u00e3o tinha reserva pessoal para suport\u00e1-la, \u201cjulgando segundo a fraqueza de nossa carne\u201d. Resolveu, n\u00e3o obstante, \u201cregozijar-se nela em esp\u00edrito, e bendizer o Senhor, que suprir\u00e1 a necessidade t\u00e3o certamente quanto p\u00f5e o fardo sobre n\u00f3s\u201d. Apenas para insistir um pouco mais intencionalmente junto aos doadores regulares, Spurgeon queria que entendessem que a colportagem n\u00e3o era de import\u00e2ncia secund\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o ao col\u00e9gio e ao orfanato. Embora Spurgeon n\u00e3o pudesse esconder de ningu\u00e9m seu deleite instintivo no col\u00e9gio, seu compromisso com a cont\u00ednua urg\u00eancia da obra pr\u00e1tica da colportagem precisava ser abra\u00e7ado por seus apoiadores. \u201cEla est\u00e1 realizando uma grande obra para o Senhor em distritos entenebrecidos, e n\u00f3s de modo algum a amamos menos do que qualquer outra de nossas institui\u00e7\u00f5es.\u201d Reconhecia que falhara em interessar os outros por ela com suficiente urg\u00eancia, mas agora, \u201cvendo que somos impotentes na quest\u00e3o, e estreitamente encerrados por urgente necessidade, lan\u00e7amos todo o assunto sobre o Senhor, esperando ver sua m\u00e3o libertadora\u201d. Spurgeon sentia o desconforto do momento \u2014 logo ap\u00f3s t\u00e3o grandes doa\u00e7\u00f5es ao Testimonial, e pouco antes da reuni\u00e3o anual do col\u00e9gio \u2014 e percebia que um simples apelo ao p\u00fablico crist\u00e3o dificilmente prevaleceria. Um apelo, contudo, \u201cao Senhor nunca \u00e9 inoportuno, nem ele se acha limitado. A confian\u00e7a do salmista deve ser a sua: \u2018\u00d3 minha alma, espera somente em Deus; porque dele vem a minha expectativa.\u2019\u201d 88<\/p>\n\n\n\n<p>As necessidades nunca tinham fim, e a press\u00e3o era incessante, de modo que Spurgeon precisava encontrar meios de continuar os apelos. O sucesso continuava a apertar a manivela do torno que encerrava sua mente e sua consci\u00eancia. Conclu\u00edda a compra do terreno para o Orfanato das Meninas em 1879, Spurgeon divulgou um m\u00e9todo para obter contribui\u00e7\u00f5es regulares para a manuten\u00e7\u00e3o dos orfanatos. Primeiro, o mobili\u00e1rio da casa exigiria doa\u00e7\u00f5es, e depois \u201cmaior ajuda para alimentar todos os meninos e meninas\u201d. Amigos especiais poderiam ajudar-nos muito se permitissem que Spurgeon lhes enviasse cadernos de coleta. Ele queria formar uma \u201cpequena banda de ajudadores que se correspondessem conosco pessoalmente, e nos ajudassem regularmente coletando em diferentes cidades e aldeias entre seus amigos\u201d. 89 Spurgeon n\u00e3o precisava de mais bocas para alimentar nem de mais propriedades para manter, e seus amigos n\u00e3o precisavam de mais uma fonte de apelos constantes. Sua pr\u00f3pria sa\u00fade n\u00e3o podia suportar a press\u00e3o da responsabilidade aumentada, mas tampouco podia ele dar as costas \u00e0 provid\u00eancia que tornara poss\u00edvel a nova miseric\u00f3rdia ou \u00e0 necessidade evidente de uma institui\u00e7\u00e3o de cuidado em que meninas desamparadas pudessem florescer.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1881, quando lembrou a seus apoiadores que o col\u00e9gio educava 100 homens em preparo para o minist\u00e9rio e tamb\u00e9m ensinava 200 homens \u00e0 noite para aperfei\u00e7oar sua \u201cprega\u00e7\u00e3o ao ar livre, ensino de escola dominical, e outras graciosas obras\u201d, tamb\u00e9m os informou de que as despesas excediam as doa\u00e7\u00f5es em \u00a31.500 por ano. Legados consider\u00e1veis haviam permitido que a obra prosseguisse sem impedimento. Se esse apoio poderia continuar dessa forma no futuro, confessou Spurgeon n\u00e3o saber, mas estava convencido de que Deus faria o que \u00e9 certo. Naquele tempo, mais de 500 ministros do evangelho j\u00e1 haviam sido treinados. Embora amasse o orfanato e se alegrasse com a resposta entusi\u00e1stica de todos \u00e0s necessidades daquela obra, apontou que \u201cmuitos dar\u00e3o a um orfanato por compaix\u00e3o natural, que n\u00e3o contribuir\u00e3o para um col\u00e9gio por zelo pela verdade\u201d. Todas as necessidades haviam sido supridas, \u201cnem jamais nos veremos desamparados, pois a obra \u00e9 do Senhor\u201d. Os doadores precisavam estar cientes, contudo, de que a continuidade de longo prazo de toda a obra dependia da manuten\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio. \u201cEnquanto desvios da ortodoxia nos assombram de todos os lados, seria indigno dos amantes do evangelho \u00e0 moda antiga retirar seu aux\u00edlio de uma institui\u00e7\u00e3o que se mant\u00e9m nas linhas doutrin\u00e1rias puritanas, e n\u00e3o tem ambi\u00e7\u00e3o de ser tida em conta por \u2018ideias progressistas\u2019 e \u2018pensamento avan\u00e7ado\u2019.\u201d 90<\/p>\n\n\n\n<p>Wayland Hoyt achava Spurgeon sereno sob o peso de tantas responsabilidades. Hoyt olhou para os minist\u00e9rios de Spurgeon e calculou o que devia ser necess\u00e1rio para sustent\u00e1-los. \u201cEu estava pensando nos \u00f3rf\u00e3os que ele precisava alimentar, nas velhas mulheres crist\u00e3s de quem precisava cuidar, nos sal\u00e1rios dos professores de seu Col\u00e9gio de Pastores que precisava pagar, nos alunos a quem precisava prover ensino, muitos deles tamb\u00e9m com p\u00e3o e roupa, visto que eram pobres demais para comprar essas coisas por si mesmos.\u201d Perdido na aparente impossibilidade de tudo isso, Hoyt perguntou: \u201cComo o senhor pode estar t\u00e3o tranquilo? Essas responsabilidades n\u00e3o v\u00eam sobre o senhor, \u00e0s vezes, com uma esp\u00e9cie de peso esmagador?\u201d Spurgeon olhou para Hoyt \u201ccom uma esp\u00e9cie de santo espanto, e respondeu: \u2018O Senhor \u00e9 um bom banqueiro, eu confio nele. Ele nunca me faltou. Por que eu haveria de andar ansioso?\u2019\u201d 91<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon de fato sentia a ponderosa imensid\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o humana e declarava com franqueza sua suscetibilidade \u00e0 fraqueza f\u00edsica e espiritual; nunca muito atr\u00e1s, contudo, estava o consciente testemunho de confian\u00e7a em Deus para cuidar de sua pr\u00f3pria obra no mundo. A delicada interse\u00e7\u00e3o, t\u00e3o sempre presente na teologia de Spurgeon, entre a responsabilidade humana ser apenas um elemento da administra\u00e7\u00e3o soberana de Deus sobre o mundo fazia com que ele nunca perdesse a perspectiva, mesmo sob a press\u00e3o mais opressiva. Quando, em 1880, relatou que por seis meses o Senhor o havia provado \u201ccom dores agudas\u201d, tamb\u00e9m afirmou que o Senhor havia removido \u201ctoda causa de s\u00e9ria preocupa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s necessidades financeiras de minhas muitas institui\u00e7\u00f5es\u201d. Vemos aqui n\u00e3o apenas o reconhecimento franco de que as institui\u00e7\u00f5es eram suas, e ele sentia a responsabilidade mais do que qualquer pessoa sobre a terra, mas tamb\u00e9m que a \u201cprova\u00e7\u00e3o de recursos escassos\u201d fora afastada do servo sofredor. Deus proveu, embora a enfermidade enfraquecesse n\u00e3o apenas os esfor\u00e7os f\u00edsicos, mas o fervor da ora\u00e7\u00e3o. \u201cEu apenas confio e oro debilmente\u201d, queixou-se Spurgeon, mas, por pura gra\u00e7a, \u201cDeus responde mui ricamente; e quando, em horas de esmagadora agonia, tanto a s\u00faplica quanto a confian\u00e7a parecem exigir um esfor\u00e7o al\u00e9m da for\u00e7a da mente torturada, o Senhor trata comigo segundo o seu pr\u00f3prio modo gracioso, \u2018infinitamente mais do que tudo quanto pedimos, ou at\u00e9 pensamos.\u2019\u201d 92<\/p>\n\n\n\n<p>As receitas eram relatadas todos os meses em<em> The Sword and the Trowel<\/em> para todas as benevol\u00eancias, sendo cada contribuinte listado pelo nome. As ofertas semanais no Tabern\u00e1culo eram recolhidas para o col\u00e9gio. A Associa\u00e7\u00e3o dos Evangelistas recebia fundos de doadores, bem como das igrejas servidas pelos evangelistas. Spurgeon expressou pelo menos leve preocupa\u00e7\u00e3o em 1881, quando n\u00e3o havia \u201crecebido recentemente quantias das localidades visitadas pelos evangelistas\u201d, embora estivesse certo de que os resultados espirituais da obra de Fullerton e Smith em Sheffield seriam \u201cseguidos por uma correspondente oferta de gratid\u00e3o\u201d. Al\u00e9m disso, a Associa\u00e7\u00e3o de Yorkshire estava \u201cesperando at\u00e9 o encerramento dos compromissos do Sr. Burnham para repassar de uma s\u00f3 vez as quantias recebidas das igrejas \u00e0s quais ele ajudou\u201d. Dada a lentid\u00e3o das ofertas de gratid\u00e3o, Spurgeon observou que \u201csubscri\u00e7\u00f5es gerais ser\u00e3o cordialmente bem-vindas para esta obra, que o Senhor tem t\u00e3o assinaladamente possu\u00eddo para a salva\u00e7\u00e3o de almas, e para a edifica\u00e7\u00e3o e consola\u00e7\u00e3o dos crentes\u201d. Da mesma maneira, embora a Sociedade de Colportagem florescesse no benef\u00edcio espiritual que promovia, \u201co fundo geral est\u00e1 muito baixo, e ajuda tem sido recebida em medida muito limitada durante os \u00faltimos seis meses\u201d. Por isso, Spurgeon olharia \u201cem ora\u00e7\u00e3o para o Senhor, por meio de seu povo, para suprir nossa necessidade\u201d. 93<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon nunca entrou em p\u00e2nico, nunca indicou nada menos que plena confian\u00e7a na provis\u00e3o de Deus, mas sentia intensamente a responsabilidade pessoal de lembrar ao povo que eles s\u00e3o mordomos. Na maioria dos casos, fazia isso com gentileza e gratid\u00e3o. No final de 1884, sua luta contra a dor lhe custou caro, mas ele p\u00f4de dizer: \u201cDurante nossa extrema fraqueza, fomos preservados de toda ansiedade quanto a fundos para a obra do Senhor pela cont\u00ednua considera\u00e7\u00e3o dos amigos.\u201d O Senhor recompensaria aqueles que ministravam \u00e0s necessidades dos estudantes, dos \u00f3rf\u00e3os e dos evangelistas. \u201cCertamente somos favorecidos acima da maioria dos outros servos de nosso Mestre, por vivermos no cora\u00e7\u00e3o de tantas pessoas graciosas.\u201d Sua gratid\u00e3o era \u201cprofunda e inexprim\u00edvel\u201d. 94<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o fim, Spurgeon via enfermidade, d\u00edvida e doa\u00e7\u00e3o como inextricavelmente rec\u00edprocas em poder. Antes da inaugura\u00e7\u00e3o do Memorial de Surrey Gardens, Spurgeon encontrou o fundo \u00a3272 abaixo do necess\u00e1rio. \u201cNunca abrimos qualquer de nossos edif\u00edcios dom\u00e9sticos com d\u00edvida\u201d, lembrou ele ao povo. \u201cHaveremos de faz\u00ea-lo agora?\u201d Desceremos nesta hora ao n\u00edvel comum e nos apartaremos de nosso curso anterior t\u00e3o honroso? Absolutamente n\u00e3o. Bem, ent\u00e3o o lugar ficar\u00e1 fechado por falta de recursos? \u201cQueridos irm\u00e3os\u201d, rogou Spurgeon, \u201cvosso velho amigo n\u00e3o est\u00e1 bem, e o m\u00e9dico diz que ele n\u00e3o deve ser afligido; portanto, por favor, eliminem esta coisa m\u00e1.\u201d Eliminem a tens\u00e3o e nunca permitam que a palavra \u201cd\u00edvida\u201d manche um memorial de gratid\u00e3o. Ent\u00e3o, com marcado senso tanto de urg\u00eancia quanto de autoridade, encerrou o apelo: \u201cQue a quantia inteira esteja em \u2018Westwood\u2019 antes que o sol se levante no dia 2 de junho.\u201d 95<\/p>\n\n\n\n<p>A enfermidade de Spurgeon atrasou a abertura do novo edif\u00edcio para as Escolas de Carter Street de 2 de junho at\u00e9 23 de junho, mas \u201co restante do dinheiro requerido para a compra do terreno e a constru\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios\u201d havia sido contribu\u00eddo, de modo que tomaram posse das instala\u00e7\u00f5es \u201csem a sombra de uma d\u00edvida pairando sobre elas.\u201d 96<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Interesse p\u00fablico na dor pessoal<\/h2>\n\n\n\n<p>Spurgeon, em raz\u00e3o do interesse popular, informou aos leitores que, dali em diante, suas notas incluiriam uma se\u00e7\u00e3o de notas \u201cpessoais\u201d. Essas notas pessoais consistiriam principalmente em cartas que ele recebera acerca do impacto de seus serm\u00f5es publicados para a salva\u00e7\u00e3o de seus leitores. Ao voltar da Fran\u00e7a na primavera de 1879, acompanhado por Tom, sentiu-se encorajado por ter sido \u201ccalorosamente recebido no Tabern\u00e1culo em 13 de abril\u201d. 97 Fullerton acrescentou detalhes: \u201cQuando pai e filho apareceram juntos no p\u00falpito do Tabern\u00e1culo no dia treze daquele m\u00eas, a congrega\u00e7\u00e3o, feliz por saudar ambos, levantou-se espontaneamente e cantou a doxologia.\u201d 98 Spurgeon estava preocupado com o baixo n\u00edvel dos fundos destinados \u00e0s obras beneficentes, mas estava convencido de que, pela \u201cb\u00ean\u00e7\u00e3o divina\u201d, em breve tudo estaria \u201cem boa ordem de navega\u00e7\u00e3o\u201d. Agradeceu \u00e0queles amigos que o haviam instado a tomar um per\u00edodo mais longo de descanso. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o podia ser feito, pois v\u00e1rias coisas precisavam de sua aten\u00e7\u00e3o pessoal. Lembrou aos leitores que \u201co Pastor n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de assumir qualquer trabalho al\u00e9m daquele que lhe cabe em casa, e ser\u00e1 in\u00fatil insistir com ele para que o fa\u00e7a\u201d. 99<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 1879, Spurgeon voltou a ver a necessidade de descanso e de escapar do inverno ingl\u00eas com sua n\u00e9voa e umidade. \u201cNesta \u00e9poca, ou um pouco mais tarde\u201d, lembrou Spurgeon a seus leitores, \u201ctemos estado enfermos por v\u00e1rios anos sucessivos, e somos aconselhados a partir antes que a enfermidade venha, na esperan\u00e7a de ganhar for\u00e7as para atravessar o restante do inverno.\u201d Pretendia seguir o conselho de seus m\u00e9dicos, mas sentia a dificuldade que isso apresentava para as obras beneficentes. \u201cNossos fundos diminuem\u201d, lamentou, \u201ce, portanto, seria um grande al\u00edvio se os dep\u00f3sitos estivessem bem reabastecidos antes de partirmos de casa. Isso tornaria nosso descanso duplamente repousante.\u201d 100<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 1880 n\u00e3o concedeu a Spurgeon al\u00edvio da enfermidade, nem das aus\u00eancias, nem da depend\u00eancia da gra\u00e7a e da cont\u00ednua provis\u00e3o de uma congrega\u00e7\u00e3o leal e dedicada. Enviou uma palavra de profunda gratid\u00e3o \u00e0 sua congrega\u00e7\u00e3o por meio do pref\u00e1cio do Sword and Trowel de 1880, por sua const\u00e2ncia mesmo com um \u201cministro aleijado, que esteve ausente de seu p\u00falpito por mais de tr\u00eas meses dos doze\u201d. 101 Essa dolorosa admiss\u00e3o refletia a triste realidade de que sua recente mudan\u00e7a de casa n\u00e3o beneficiara materialmente sua sa\u00fade. Em agosto de 1880, ele e Susannah mudaram-se para \u201cWestwood\u201d, em Beulah Hill, Upper Norwood. O terreno tinha nascentes que supostamente eram saud\u00e1veis, e a altitude mais elevada foi considerada apta a diminuir os efeitos da n\u00e9voa e do frio no inverno. \u201cNo topo da Colina Deleit\u00e1vel, confiamos que as brisas frescas possam tender a dar sa\u00fade e prolongar a vida.\u201d 102 Como se poderia saber se isso aconteceu ou n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon tratou do tema do sofrimento em 1881 por meio de uma resenha de livro. Sir Emilius Bayley forneceu a ocasi\u00e3o em um livro intitulado <em>Deep Unto Deep: An Enquiry into some of the deeper experiences of the Christian Life<\/em>; Spurgeon identificou v\u00e1rios fatores de sofrimento aos quais um ministro do evangelho deve ser sens\u00edvel. Recomendou o livro aos jovens ministros, \u201cpois estamos persuadidos de que h\u00e1 muito mais necessidade de estudar a patologia da alma crist\u00e3 do que muitos deles imaginam\u201d. Apertos severos e profundezas de ang\u00fastia constituem a experi\u00eancia de muitos santos e t\u00eam leg\u00edtima reivindica\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201csimpatia e ao conhecimento de todo fiel ministro do evangelho\u201d. Falando obviamente a partir de sua experi\u00eancia como pastor, mas igualmente a partir de suas pr\u00f3prias lutas, Spurgeon observou: \u201cEnfermidades f\u00edsicas e perdas sociais, por exemplo, podem parecer afli\u00e7\u00f5es muito comuns, embora lancem a alma em profunda tristeza, mas a influ\u00eancia que produzem sobre mentes sens\u00edveis \u00e9 muitas vezes t\u00e3o peculiar que cada caso requer aten\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.\u201d Pecados antigos se levantam para torturar e assombrar a mem\u00f3ria dos santos mesmo ap\u00f3s a profunda experi\u00eancia do perd\u00e3o, e as tenta\u00e7\u00f5es de Satan\u00e1s assaltam outros com horrores espirituais \u2014 essas coisas \u201cn\u00e3o devem ser levianamente consideradas por aqueles a quem Cristo confiou a supervis\u00e3o de qualquer igreja ou congrega\u00e7\u00e3o\u201d. Al\u00e9m de Bayley, Spurgeon apontou para outros autores, mais antigos, que haviam sido \u201cmuito lan\u00e7ados de um lado para outro no mar tempestuoso\u201d e, assim, sabiam \u201ccomo cuidar de almas mareadas em cada est\u00e1gio de suas tristes queixas, quer cambaleando de um lado para outro, quer reduzidas ao extremo de sua raz\u00e3o\u201d. Tais homens eram Agostinho, Lutero, Bunyan, Gilpin, Brainerd, Edwards, e ele at\u00e9 acrescentou \u201cWilliam Huntingdon\u201d. Spurgeon sem d\u00favida teria inclu\u00eddo a si mesmo entre esses curadores sofredores, pois experimentara em primeira m\u00e3o a \u201cpatologia da alma crist\u00e3\u201d, provocada por ang\u00fastia f\u00edsica, esmagamento emocional e perdas sociais. Finalmente, por\u00e9m, isso n\u00e3o era uma quest\u00e3o estritamente \u00e0 merc\u00ea da experi\u00eancia humana. Qualquer ajuda vinda de outras paragens era bem-vinda, e Spurgeon acreditava que a \u201cfamiliaridade com a descoberta moderna\u201d de Bayley o ajudara a encontrar ilustra\u00e7\u00f5es para um problema que \u00e9 levantado e resolvido nas Sagradas Escrituras. 103<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o de 1881, Spurgeon forneceu poucas notas para a revista por causa da enfermidade incapacitante do fim do inverno. \u201cDias mais penosos nos foram designados, mas ainda assim o Senhor tem sido muito gracioso, e temos boa esperan\u00e7a de recupera\u00e7\u00e3o permanente quando as geadas e as umidades se tornarem menos frequentes.\u201d Os membros da igreja haviam insistido com ele para que sa\u00edsse por um m\u00eas de descanso. Sentia uma gratid\u00e3o transbordante por sua bondade e desejava dar a maior defer\u00eancia ao ju\u00edzo deles, mas n\u00e3o sentia qualquer libera\u00e7\u00e3o de seu posto. Onde poderia encontrar al\u00edvio significativo nesta \u201cterra de umidade\u201d, enquanto ainda repousava sobre ele a incumb\u00eancia que constitu\u00eda seu fardo? \u201cApenas perder\u00edamos os confortos do lar\u201d, sup\u00f4s Spurgeon, \u201ce, como um caracol, carregar\u00edamos nossa carga nas costas por onde quer que rastej\u00e1ssemos.\u201d O trabalho apenas se acumularia e, \u201cenquanto ele estiver por fazer, onde poder\u00edamos descansar?\u201d Ainda que encontrasse o Jardim do \u00c9den, a \u201cSerpente estaria sobre n\u00f3s at\u00e9 que nossos atrasos fossem eliminados, e at\u00e9 que v\u00edssemos a obra do Senhor prosseguir de novo com seu vigor costumeiro\u201d. 104 Quando se realizou a Reuni\u00e3o Anual da Igreja, Spurgeon estava \u201cincapacitado em ambos os bra\u00e7os\u201d. Observou que o \u201ccaloroso amor de seu dedicado povo animou-lhe o cora\u00e7\u00e3o e, embora outra esta\u00e7\u00e3o de sofrimento o aguardasse, foi um o\u00e1sis ensolarado no deserto da dor\u201d. 105<\/p>\n\n\n\n<p>Dificuldades n\u00e3o diminu\u00eddas o afligiram durante todo o m\u00eas de mar\u00e7o, de modo que sua nota no <em>Sword<\/em> de abril repetiu um refr\u00e3o familiar. \u201cA afli\u00e7\u00e3o pessoal continuou durante o m\u00eas de mar\u00e7o, e foi com dificuldade que os serm\u00f5es semanais e a revista mensal foram preparados.\u201d Reconheceu a provid\u00eancia divina ao conceder-lhe \u201cintervalos de esfor\u00e7o poss\u00edvel\u201d, quando \u201ctoda vela foi desfraldada, de modo que n\u00e3o somos compelidos a ficar encalhados, altos e secos, na praia\u201d. Uma ora\u00e7\u00e3o exclamativa e sincera expressou tanto sua frustra\u00e7\u00e3o quanto sua esperan\u00e7a: \u201c\u00d3, por sa\u00fade e for\u00e7a!\u201d Sentia que, se as tivesse, poderia realizar uma grande quantidade de trabalho. Recusou-se a permitir que um esp\u00edrito questionador e desgostoso deixasse a \u00faltima impress\u00e3o, e por isso acrescentou: \u201ccontudo, pode ser coisa maior e melhor inclinar a cabe\u00e7a em sil\u00eancio e dizer: \u2018\u00c9 o Senhor; fa\u00e7a ele o que bem lhe parecer.\u2019\u201d 106<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon conseguiu estar presente durante toda a confer\u00eancia do col\u00e9gio em maio de 1881, mas \u201cno s\u00e1bado foi acometido por uma afec\u00e7\u00e3o reum\u00e1tica no calcanhar, que o impediu de conseguir ficar em p\u00e9\u201d. Por causa da dor, deixou de pregar naquele domingo. Naquele ano, de fato, declarou no \u201cRelat\u00f3rio Anual do Col\u00e9gio de Pastores\u201d que estivera \u201cmuito enfermo durante a maior parte do \u00faltimo ano [1880-81], e por isso n\u00e3o pude prestar muito servi\u00e7o pessoal ao Col\u00e9gio\u201d. Foi uma dura prova\u00e7\u00e3o, e a folga criada por sua enfermidade foi suprida por seu irm\u00e3o J. A. Spurgeon. Ele tamb\u00e9m mencionou que se alegrava pelo fato de poucos terem precisado ser desligados da escola, pois a \u201cfrequente depress\u00e3o de esp\u00edrito tornou indesej\u00e1vel ter muito trabalho penoso a fazer\u201d. 107<\/p>\n\n\n\n<p>Embora alguns o pressionassem a tirar algum tempo de descanso no fim do ver\u00e3o de 1881, Spurgeon insistiu que isso n\u00e3o ajudaria e que suas obriga\u00e7\u00f5es no minist\u00e9rio simplesmente o proibiam. \u201cMuitos domingos passados no quarto de enfermo vedam qualquer nova aus\u00eancia de casa.\u201d Estava, na verdade, contente por poder relatar melhora na sa\u00fade e capacidade para preparar os serm\u00f5es semanais, editar a revista, escrever livros e falar em p\u00fablico. Como amostra do trabalho que era normal por semana, Spurgeon procurou animar seus leitores, mostrando que sua for\u00e7a, no momento, era suficiente para um disp\u00eandio constante de trabalho. Havia pregado cinco serm\u00f5es, superintendendo tr\u00eas reuni\u00f5es de ora\u00e7\u00e3o, contribuindo com suas habituais e breves homilias extempor\u00e2neas, presidido duas reuni\u00f5es p\u00fablicas, feito um discurso em uma terceira, oficiado uma ceia, e conseguido dedicar uma tarde no col\u00e9gio a duas horas de prele\u00e7\u00e3o. Algumas dessas atividades consumiam muito mais tempo na prepara\u00e7\u00e3o do que na execu\u00e7\u00e3o. Estava grato por poder trabalhar e desejava ter for\u00e7as para fazer mais. 108<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro, por\u00e9m, sentiu a aproxima\u00e7\u00e3o do reumatismo e, apesar de ter muito trabalho a fazer para o orfanato das meninas, entregou as tarefas a outros e partiu para a Fran\u00e7a na primeira semana de novembro. Na noite anterior \u00e0 sua partida, presidiu a reuni\u00e3o anual do Col\u00e9gio de Pastores. Despediu-se do grupo reunido por algumas semanas e, em seguida, fez uma leitura no personagem de John Ploughman, acompanhada por uma exibi\u00e7\u00e3o de gravuras de<em> John Ploughman\u2019s Pictures<\/em>. J. A. Spurgeon expressou o desejo de todos os presentes de que seu irm\u00e3o fosse grandemente beneficiado por seu per\u00edodo de descanso. Spurgeon havia providenciado pregadores para os per\u00edodos de sua aus\u00eancia, incluindo seu irm\u00e3o, seu filho Charles, e um domingo entregue aos evangelistas D. L. Moody e Ira Sankey. 109<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e1bado, 5 de novembro, embarcou para Mentone e chegou em seguran\u00e7a ao Grand Hotel. \u201cO calor do ar, o brilho da luz e a secura de tudo\u201d aumentavam grandemente suas chances de uma recupera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. \u201cSe o reumatismo n\u00e3o partir em um clima t\u00e3o ameno\u201d, disse Spurgeon com leveza, \u201cdeve ser, de fato, dif\u00edcil desaloj\u00e1-lo.\u201d Chegara com fortes dores lombares, mas elas desapareceram em uma noite. T\u00e3o grande foi o al\u00edvio que Mentone lhe proporcionou que instou aqueles de seus leitores que n\u00e3o estavam \u201cpresos \u00e0 terra de n\u00e9voa e geada\u201d a experimentar a hospitalidade de seu anfitri\u00e3o, M. Georgi, \u201cque h\u00e1 anos tem se empenhado em me proporcionar conforto\u201d. 110<\/p>\n\n\n\n<p>Perto do fim dessa visita, Spurgeon escreveu: \u201cTemos estado em uma terra onde os primeiros raios do sol chamam voc\u00ea a abrir a janela e deixar entrar o ar bals\u00e2mico; onde, em pleno inverno, as flores que existem em nossas estufas est\u00e3o vi\u00e7osas e florescendo no jardim aberto.\u201d Somava-se a essa alegria o prazer de que o povo n\u00e3o falava ingl\u00eas, n\u00e3o o conhecia por reputa\u00e7\u00e3o, e ele podia caminhar pelas ruas sem o empecilho de que cada terceira pessoa estivesse ou mendigando ou propondo perguntas. Embora soasse bastante erem\u00edtico, ainda assim tinha visitantes suficientes \u201cpara impedir que o dia estagnasse\u201d. Mesmo assim, n\u00e3o se deve subestimar o valor do tempo a s\u00f3s para Spurgeon. Ele o considerava \u201cuma b\u00ean\u00e7\u00e3o nada pequena\u201d. Na aus\u00eancia das pessoas \u2014 aus\u00eancia bendita para seu prop\u00f3sito \u2014 havia \u201colivais e bosques, e aqui pode-se estar perdido para todo olhar humano\u201d. Essa combina\u00e7\u00e3o de virtual anonimato, um n\u00famero limitado de visitantes corteses e respeitosos, encontros agrad\u00e1veis com a natureza, e anfitri\u00f5es judiciosamente atentos fazia desse o repouso mais perfeito que se podia ter na terra. Teve cinco semanas disso, e estava agradecido. 111<\/p>\n\n\n\n<p>Mentone proporcionava n\u00e3o apenas uma atmosfera salubre na qual Spurgeon sentia que podia curar-se e florescer, mas tamb\u00e9m uma comunidade evang\u00e9lica pr\u00f3xima para encorajamento, culto, edifica\u00e7\u00e3o e calorosa comunh\u00e3o. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria geografia do lugar convidava \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de Cristo. A praia, as videiras, as oliveiras e as palmeiras levavam Spurgeon a exclamar: \u201cTua terra, \u00f3 Emanuel!\u201d \u201cEnquanto estou neste Mentone, muitas vezes imagino que estou contemplando o lago de Genesar\u00e9, ou caminhando ao p\u00e9 do Monte das Oliveiras, ou perscrutando a misteriosa escurid\u00e3o do Jardim do Gets\u00eamani.\u201d As ruas estreitas da cidade velha eram do tipo por que Jesus transitava nas aldeias da Galileia. Esse lugar levava Spurgeon a esperar a presen\u00e7a de Cristo e a transformar todos os seus dias em s\u00e1bados, suas refei\u00e7\u00f5es em sacramentos, e a terra em c\u00e9u. 112 Spurgeon voltou para pregar no dia de Natal e, no dia seguinte, teve o prazer de passar o Natal no orfanato, onde \u201ctudo correu alegre como um sino de casamento\u201d. 113<\/p>\n\n\n\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o completa ainda lhe escapava. Nos \u00faltimos dias de mar\u00e7o de 1882, quando chegou o momento de produzir o <em>Sword<\/em>, Spurgeon escreveu: \u201cA revista \u00e9 exigida, e o Editor mal consegue pensar dois pensamentos consecutivos.\u201d Se alguma ideia surgia, logo escapava ao alcance como a borboleta de um menino, ou, se capturada, logo ficava t\u00e3o mutilada que n\u00e3o valia a pena t\u00ea-la. Os leitores precisavam perdoar e empregar esfor\u00e7o extra para tirar algo de bom da revista, compensando assim a enfermidade do editor, tanto da m\u00e3o como da cabe\u00e7a. \u201cN\u00e3o pudemos adiar a afli\u00e7\u00e3o, ou ter\u00edamos tido primeiro a revista, e depois a gota; mas a enfermidade nos armou uma emboscada e nos deteve justamente quando a hora do trabalho havia chegado.\u201d Se apenas as pernas e os bra\u00e7os estivessem afetados, ele suportaria a dor varonilmente e prosseguiria; \u201cmas a ess\u00eancia do nosso mal \u00e9 o c\u00e9rebro e, com o inimigo penetrando no quartel-general, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil levar adiante a guerra.\u201d Esperava que os leitores fossem t\u00e3o bondosos quanto seu Mestre e n\u00e3o esperassem mais do que ele podia dar. Lembrou-lhes que Deus os alimentou de sua pequena sacola quando ele ainda era menino, e agora que est\u00e1 mais velho, com for\u00e7a mal suficiente para levantar a cesta de caf\u00e9 da manh\u00e3 dos dias mais jovens, \u201cvoc\u00eas h\u00e3o de orar para que o Mestre n\u00e3o restrinja o banquete porque enfraquece o servo\u201d. 114<\/p>\n\n\n\n<p>Renovou seu pedido, tantas vezes publicado, de que cessassem todos os convites para compromissos fora. Mal conseguia acompanhar as exig\u00eancias do trabalho em casa. Nada adicional poderia ser tentado, a menos que quisesse chegar a uma condi\u00e7\u00e3o em que pudesse \u201cnada fazer sen\u00e3o jazer e sofrer dor excessiva, com sua consequente fraqueza do corpo e depress\u00e3o de esp\u00edrito\u201d. Apesar de sua insist\u00eancia em contr\u00e1rio, ele ainda recebia pedidos por carta e, \u00e0s vezes, at\u00e9 delega\u00e7\u00f5es, for\u00e7ando uma entrevista pessoal, para expor a urgente necessidade que alguns lugares tinham dele. Era interceptado em cantos imprevistos e em horas inconvenientes por aqueles \u201cque nos importunavam com vinte pedidos para fazer a mesma coisa, quando lhes dissemos que isso n\u00e3o era poss\u00edvel\u201d. Ainda assim, ele lhes concedia a \u201cmais rica b\u00ean\u00e7\u00e3o pela corre\u00e7\u00e3o que s\u00f3 eles nos trouxeram\u201d. 115<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril, ele prosseguia penosamente em meio a dores debilitantes e parece ter feito seu discurso inaugural anual na confer\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio de Pastores. Disse ao afetuoso grupo que se reunira: \u201cAp\u00f3s minha severa enfermidade, estou tremendo como uma crian\u00e7a que est\u00e1 apenas come\u00e7ando a usar os p\u00e9s.\u201d Mal conseguia sustentar-se em p\u00e9 e perguntou em voz alta o que um grupo poderia esperar de um homem que mal podia ficar de p\u00e9. Durante seis semanas, ao considerar o que diria, achou sua mente desajustada e sua mem\u00f3ria como os baldes furados das filhas de D\u00e2nao, e seus labores t\u00e3o v\u00e3os quanto a fa\u00e7anha de S\u00edsifo ao rolar a pedra. Seu c\u00e9rebro estivera t\u00e3o ocupado com \u201csimpatia para com o pobre corpo que n\u00e3o tem podido al\u00e7ar-se com a \u00e1guia, nem sequer emplumar as asas para o voo mais baixo\u201d que era sua tarefa naquela manh\u00e3. Apropriadamente, pregou sobre o texto: \u201cQuando sou fraco, ent\u00e3o \u00e9 que sou forte\u201d e orou para que pudesse transmitir algum encorajamento que lhe havia chegado, como os antigos santos costumavam dizer, \u201cexperimentalmente\u201d. 116 Ainda insistia com seus homens para que sentissem sinceramente todo o peso da responsabilidade imposta sobre eles em virtude de sua posi\u00e7\u00e3o como arautos do evangelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua contempla\u00e7\u00e3o da fraqueza, por\u00e9m, levou-o a um devaneio raramente indulgido por Spurgeon. Ele considerou a fraqueza produzida por \u201c<em>Um opressivo senso de responsabilidade<\/em>\u201d. Ningu\u00e9m deve levar seu senso de responsabilidade t\u00e3o longe a ponto de j\u00e1 n\u00e3o poder sustent\u00e1-lo; \u201cisso pode aleijar nossa alegria e fazer de n\u00f3s escravos\u201d. Ningu\u00e9m deve for\u00e7ar-se al\u00e9m de sua for\u00e7a f\u00edsica e mental. Fidelidade nem sempre equivale a sucesso vis\u00edvel. Voc\u00ea pode ensinar, mas n\u00e3o pode fazer as pessoas aprenderem; pode tornar as coisas claras, mas n\u00e3o pode fazer o homem carnal ter interesse espiritual. \u201cN\u00e3o somos o Pai, nem o Salvador, nem o Consolador, da Igreja.\u201d Por um senso excessivamente severo de responsabilidade pessoal, Spurgeon poderia ter transformado sua preocupa\u00e7\u00e3o com o sul de Londres em preju\u00edzo para si mesmo como pastor de seu rebanho. \u201cFicamos nos esfor\u00e7ando como se a salva\u00e7\u00e3o do mundo dependesse de nos esgotarmos at\u00e9 \u00e0 morte.\u201d N\u00e3o cultive a indiferen\u00e7a, mas lembre-se de que \u201cvoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 Deus, e n\u00e3o est\u00e1 no lugar de Deus; n\u00e3o \u00e9 governante da provid\u00eancia, e n\u00e3o foi eleito gerente exclusivo do pacto da gra\u00e7a; portanto, n\u00e3o aja como se fosse\u201d. 117 S\u00e1bias palavras de conselho, estas, mas ainda mais intrigantes vindas da boca de um Spurgeon cansado, ferido e enfermo, que se impusera fraqueza perp\u00e9tua por seus empreendimentos de salvar o mundo em seu minist\u00e9rio inicial e ainda buscava sustentar mais do que sua mente podia suportar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao preparar seu retorno a Londres, vindo do descanso, no fim de 1882, relatou que aquele fora um tempo de repouso do corpo, da mente e do cora\u00e7\u00e3o e que, esperava, o havia preparado para \u201cum bom e longo per\u00edodo de trabalho\u201d. Insistiu, por\u00e9m, que seus amigos n\u00e3o o sobrecarregassem com convites para coisas extras, como haviam feito no ano anterior, com o resultado de que sua for\u00e7a renovada fora gasta em suportar dor em vez de ser empregada no minist\u00e9rio p\u00fablico. \u201cNosso pr\u00f3prio trabalho exige de nossas for\u00e7as at\u00e9 o limite m\u00e1ximo\u201d, lembrou a todos os seus exuberantes amigos, \u201ce rogamos que nos perdoem se n\u00e3o pudermos aceder nem mesmo a pedidos urgentes.\u201d 118<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon n\u00e3o poderia ter antecipado a tempestade de prova\u00e7\u00e3o que o aguardava. Chegou a Londres em 19 de dezembro e, na v\u00e9spera de Natal, morreu a esposa de seu muito estimado secret\u00e1rio J. W. Harrald, deixando-o vi\u00favo com quatro filhos. O reumatismo atacou Spurgeon com f\u00faria e, embora tenha pregado no domingo, dia 24, n\u00e3o p\u00f4de levantar-se do sof\u00e1 no dia de Natal. Diante do luto de Harrald, Spurgeon viu-se incapacitado e sem poder sequer comparecer \u00e0 tradicional celebra\u00e7\u00e3o natalina no orfanato. O amado e antigo di\u00e1cono William Higgs tamb\u00e9m morreu no Natal, e, por ocasi\u00e3o de seu sepultamento, William Mills, outro di\u00e1cono, sofreu uma paralisia da qual nunca se recuperou, vindo a falecer em 12 de janeiro de 1883. Spurgeon mancou por cultos, compromissos, reuni\u00f5es de sociedades e outros engajamentos ligados ao Tabern\u00e1culo por mais algumas semanas, mas em abril estava t\u00e3o prostrado que, pela primeira vez, n\u00e3o p\u00f4de comparecer \u00e0 confer\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio de Pastores.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tarde de segunda-feira da confer\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o, ele e a Sra. Spurgeon compareceram ao ch\u00e1 ap\u00f3s a reuni\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o da tarde, mas nada mais puderam fazer. Ele n\u00e3o p\u00f4de sequer proferir seu discurso inaugural nem apresentar o relat\u00f3rio na ceia dos assinantes. Escreveu na manh\u00e3 de ter\u00e7a-feira: \u201cDepois de uma noite de dor extrema, vejo-me incapaz de deixar meu leito hoje.\u201d Submeteu-se \u00e0 provid\u00eancia divina, orou pelas b\u00ean\u00e7\u00e3os do Esp\u00edrito sobre todos os trabalhos, prometeu que, se em algum momento se sentisse capaz, se apressaria para a confer\u00eancia, mas teria de entregar tudo a seu irm\u00e3o. Esperava que a intensidade do ataque significasse que ele n\u00e3o duraria muito, mas, nesse meio-tempo, \u201cneste exato momento ele est\u00e1 furiosamente sobre mim\u201d. 119<\/p>\n\n\n\n<p>Os homens da confer\u00eancia expressaram sua profunda decep\u00e7\u00e3o por sua aus\u00eancia, mas deram comovente testemunho de sua preocupa\u00e7\u00e3o com sua recupera\u00e7\u00e3o e se alegraram porque receberam grande b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus mesmo com a aus\u00eancia do presidente. Logo ap\u00f3s a confer\u00eancia, Spurgeon teve de emitir sua recorrente recusa a todos os convites para labores externos. \u201cNosso pr\u00f3prio trabalho leg\u00edtimo cresceu t\u00e3o enormemente que \u00e9 o m\u00e1ximo que podemos realizar sem sermos postos de lado, e ultimamente provamos uma vez mais que s\u00e3o os servi\u00e7os extras, externos, que trazem colapsos t\u00e3o tristes quanto aquele que recentemente experimentamos.\u201d Se algum leitor, portanto, estivesse contemplando um bazar, uma reuni\u00e3o de ch\u00e1, um anivers\u00e1rio, a quita\u00e7\u00e3o de uma d\u00edvida, a constru\u00e7\u00e3o de uma escola, ou uma miss\u00e3o da fita azul, e fosse tentado a formular a pergunta: \u201cDevemos convidar o Sr. Spurgeon?\u201d, deveria imediatamente dar sua pr\u00f3pria resposta: \u201cN\u00e3o.\u201d Por mais que desejasse ajudar, nada poderia resultar de tais convites, pois aceit\u00e1-los significaria apenas uma cessa\u00e7\u00e3o completa dos labores necess\u00e1rios em casa. \u201c\u00c9 grande tristeza estar encerrado a isto\u201d, fez careta Spurgeon, \u201cmas que mais podemos fazer?\u201d 120 Durante maio, at\u00e9 mesmo as reuni\u00f5es realizadas no Tabern\u00e1culo Spurgeon foi for\u00e7ado a perder. Durante aqueles encontros festivos e alegres, ele esteve \u201cobrigado a permanecer em casa, sofrendo dor no corpo e depress\u00e3o de esp\u00edrito\u201d. 121<\/p>\n\n\n\n<p>Julho trouxe outro acesso de incapacidade para pregar, e por dois domingos ele teve de fazer outros ocuparem seu p\u00falpito. Os jornais noticiaram isso como um ataque de gota reum\u00e1tica. Spurgeon caracterizou os jornais como um rebanho de ovelhas seguindo sem raz\u00e3o, quando, na verdade, respondeu: \u201cEssas enfermidades frequentes s\u00e3o incidentais ao nosso trabalho, e devemos aceit\u00e1-las como parte do pre\u00e7o do nosso servi\u00e7o.\u201d Ilustrou isso referindo-se a uma carta de Guiness Rogers, que havia pregado por Spurgeon com apenas algumas horas de aviso, na qual ele chegou \u201cmais perto da causa de nossas enfermidades do que a maioria das pessoas tem conseguido chegar\u201d. A carta isolava a dificuldade que s\u00f3 Spurgeon tinha de suportar, e ele a publicou na esperan\u00e7a de obter um ju\u00edzo mais exato acerca de seu caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon n\u00e3o estava desesperado, mas sentia que Guiness Rogers oferecia uma oportunidade para permitir que outro ajudasse todos os observadores, simp\u00e1ticos e c\u00ednicos igualmente, a terem uma vis\u00e3o mais profunda de seu constante estado de dilema. Rogers podia ver claramente que a fonte constante das frequentes enfermidades e debilidade de Spurgeon n\u00e3o era mera fraqueza f\u00edsica e enfermidade corporal, mas a agrava\u00e7\u00e3o de qualquer tal tend\u00eancia pela implac\u00e1vel tens\u00e3o mental e emocional sobre suas faculdades. \u201cSua grande congrega\u00e7\u00e3o \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o\u201d, relatou Rogers, \u201cmas \u00e9 tamb\u00e9m uma responsabilidade esmagadora.\u201d N\u00e3o lhe parecia surpreendente que o labor cont\u00ednuo sob essa responsabilidade afetasse Spurgeon de muitas maneiras, em algumas que at\u00e9 o pr\u00f3prio Spurgeon talvez n\u00e3o suspeitasse. O distanciamento emocional de tudo quanto estava em jogo na proclama\u00e7\u00e3o do evangelho a uma multid\u00e3o assim poderia resolver o problema pessoal, mas ao fim prenunciaria um minist\u00e9rio fracassado. \u201cN\u00e3o invejo o homem que pode pregar ali sem ter toda a sua natureza levada ao m\u00e1ximo da tens\u00e3o, e isso significa exaust\u00e3o nervosa, de todas as coisas a mais dif\u00edcil de combater\u201d, observou Rogers, com genu\u00edno sentimento pelo dilema. S\u00f3 podia oferecer uma ora\u00e7\u00e3o \u2014 \u201cque o Senhor o poupe por muitos anos para realizar uma obra para a qual nem um em dez mil seria igual\u201d. 122<\/p>\n\n\n\n<p>Embora resistisse \u00e0 terminologia dos jornais, em setembro o pr\u00f3prio Spurgeon referiu-se \u00e0 sua dor constante como \u201ccruel reumatismo\u201d. Ela se agarrou a ele tenazmente durante uma visita \u00e0 Esc\u00f3cia em agosto. A dor fora violenta, confessou ele, e tornada duplamente assim pela necessidade de responder a pedidos de ajuda com o bilhete: \u201cFraco demais para sair de casa.\u201d 123 A tens\u00e3o espiritual e a preocupa\u00e7\u00e3o com coisas infinitamente importantes intensificavam a tens\u00e3o f\u00edsica sob a qual Spurgeon trabalhava, mas o reumatismo, implac\u00e1vel, sinistro, s\u00fabito e severo, fazia de todos os seus labores uma tarefa herc\u00falea e consumia sua mente e sua alma.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica de Spurgeon de publicar um serm\u00e3o por semana desde o come\u00e7o de seu minist\u00e9rio em Londres acrescentava press\u00e3o ao seu trabalho semanal. Ele havia se algemado pela distribui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de textos de serm\u00f5es, tornando cada produ\u00e7\u00e3o inutiliz\u00e1vel para o futuro. Embora se gloriasse na expans\u00e3o desse minist\u00e9rio de prega\u00e7\u00e3o pela palavra impressa, n\u00e3o podia ir nem ao Tabern\u00e1culo nem a outros lugares e pregar serm\u00f5es j\u00e1 impressos. \u201cNo meu pr\u00f3prio caso\u201d, escreveu Spurgeon em 1884, considerando o que significava estar envelhecendo aos cinquenta anos, \u201co esfor\u00e7o inicial foi seguido por uma exig\u00eancia cont\u00ednua sobre as for\u00e7as, mediante a impress\u00e3o perp\u00e9tua de tudo quanto tenho falado.\u201d Com vinte e nove anos de serm\u00f5es nas estantes, ainda precisava continuar falando, \u201cseguindo penosamente, publicando mais, e ainda mais, os quais todos devem ser, em alguma medida, vivos e novos, ou o p\u00fablico logo dar\u00e1 a entender seu cansa\u00e7o\u201d. A perspectiva, a seus pr\u00f3prios olhos, confessou ele, n\u00e3o era animadora, mas tinha \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o \u201coutras lentes\u201d e faria uso delas. 124<\/p>\n\n\n\n<p>Sua viagem a Mentone no meio do inverno de 1884-85 foi adiada, pois Spurgeon foi \u201cferido\u201d por um doloroso encontro com seu velho n\u00eamesis. Foi t\u00e3o severo que seus amigos temeram que, se n\u00e3o obtivesse um per\u00edodo prolongado de descanso, logo sofreria um colapso completo. N\u00e3o p\u00f4de pregar no culto anual da vig\u00edlia de Ano-Novo, de modo que W. Y. Fullerton e J. Manton Smith dirigiram os cultos. Em 5 de janeiro, Spurgeon faltou \u00e0 reuni\u00e3o do ramo do sul de Londres da Alian\u00e7a Evang\u00e9lica. Sete jovens que estavam partindo sob os ausp\u00edcios da Miss\u00e3o para o Interior da China estavam presentes e um deles, C. T. Studd, capit\u00e3o dos \u201conze de Cambridge\u201d, contou a hist\u00f3ria de sua convers\u00e3o por meio da prega\u00e7\u00e3o de Moody e sua raz\u00e3o para realizar trabalho mission\u00e1rio na China. Todos os presentes, incluindo ministros anglicanos, wesleyanos, metodistas primitivos, congregacionais e batistas, oraram pela recupera\u00e7\u00e3o de Spurgeon. 125<\/p>\n\n\n\n<p>Numa reuni\u00e3o extraordin\u00e1ria da igreja convocada em 12 de janeiro, a igreja insistiu para que Spurgeon tirasse uma licen\u00e7a de tr\u00eas meses. \u201cSeus labores \u00e1rduos e suas incessantes ansiedades excedem de tal modo a for\u00e7a m\u00e9dia de sua constitui\u00e7\u00e3o, que h\u00e1 uma exig\u00eancia imperativa de que o senhor tire ocasi\u00f5es mais longas e mais frequentes de retiro.\u201d Queriam que ele o fizesse num momento em que ainda tivesse energia para desfrut\u00e1-lo, e n\u00e3o quando j\u00e1 tivesse consumido sua \u00faltima on\u00e7a de for\u00e7a. Spurgeon respondeu que a pr\u00f3xima confer\u00eancia do col\u00e9gio tornava imposs\u00edvel que tirasse tr\u00eas meses, mas prometeu que descansaria o m\u00e1ximo poss\u00edvel se \u201cpudermos recuperar for\u00e7as suficientes para viajar para fora desta n\u00e9voa perp\u00e9tua\u201d. Para obter o maior descanso, precisava estar seguro de que os minist\u00e9rios seriam bem sustentados e de que o povo oraria pela continuidade da colheita espiritual nos cultos do Tabern\u00e1culo. 126 Ele foi e, de Mentone, anexou uma carta datada de 16 de fevereiro a um serm\u00e3o que havia preparado para publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>CAROS AMIGOS\u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Que a paz de Deus permane\u00e7a com voc\u00eas. Com grande prazer cumpro o dever semanal de preparar o serm\u00e3o e oro para que nosso Senhor o fa\u00e7a uma b\u00ean\u00e7\u00e3o a todos os meus leitores. A cada dia re\u00fano certa medida de for\u00e7a. Meu caminhar \u00e9 medido por passos, poucos e lentos, mas ainda assim posso andar, e esta \u00e9 uma grande raz\u00e3o para gratid\u00e3o por parte de algu\u00e9m que n\u00e3o conseguia p\u00f4r o p\u00e9 no ch\u00e3o sem dor. Estou me recuperando em todos os aspectos e sinto que uma quinzena neste lugar fez mais por mim do que meses de rem\u00e9dio teriam podido fazer. \u00c0quele a quem adorei em meio \u00e0 dor, sejam gratos louvores pela miseric\u00f3rdia restauradora. 127<\/p>\n\n\n\n<p>No fim de mar\u00e7o ele podia escrever que seu descanso havia \u201cfeito maravilhas pelo corpo gasto pela dor, e quase tanto pela mente cansada pelo labor. Se nada imprevisto ocorrer, esperamos estar em nosso pr\u00f3prio p\u00falpito no segundo domingo de abril.\u201d Queria ter um \u201clongo per\u00edodo de testemunho ininterrupto para o Senhor.\u201d 128<\/p>\n\n\n\n<p>A efetiva repara\u00e7\u00e3o da mente e do corpo ficou aqu\u00e9m do que Spurgeon esperava. Ele chegara perto de alcan\u00e7ar o n\u00edvel comum abaixo do qual havia ca\u00eddo tanto mental como fisicamente e, enquanto em outras ocasi\u00f5es havia acumulado um reservat\u00f3rio de for\u00e7as para uso futuro, \u201cnesta ocasi\u00e3o elas foram consumidas de uma vez em reparos necess\u00e1rios.\u201d Tudo o que podia afirmar era que \u201co homem interior est\u00e1 de algum modo renovado\u201d. 129 Ele se alegrava com qualquer ind\u00edcio de que algu\u00e9m pudesse compreender a grande tens\u00e3o sob a qual trabalhava e que s\u00f3 podia intensificar-se com o passar dos anos, \u00e0 medida que as despesas cresciam em cada institui\u00e7\u00e3o, e enquanto domingo sucedia a domingo e a necessidade de expressar algo novo se tornava cada vez mais dif\u00edcil. Um amigo fez uma observa\u00e7\u00e3o, e Spurgeon citou sua percep\u00e7\u00e3o como \u201cboa demais e verdadeira demais para se perder\u201d. O amigo considerava o descanso necess\u00e1rio para reabastecer a mente e permitir que suas energias criativas intr\u00ednsecas operassem por algum tempo sem tributa\u00e7\u00e3o; perguntou ele: \u201cPergunto-me se \u00e9 assim tamb\u00e9m com os serm\u00f5es. O senhor deve saber, se algu\u00e9m sabe; pois um serm\u00e3o impresso semanalmente por trinta anos deve ser uma grande press\u00e3o sobre a capacidade produtiva da mente de um homem, se ele n\u00e3o ficar apenas repetindo a si mesmo.\u201d 130<\/p>\n\n\n\n<p>Breves momentos de restaura\u00e7\u00e3o, de um dia sem dor acompanhado de uma exuber\u00e2ncia h\u00e1 muito ausente, faziam Spurgeon ter mais confian\u00e7a em sua resist\u00eancia do que havia motivo para ter. Per\u00edodos anteriores de bem-estar haviam conduzido a esfor\u00e7o excessivo e a r\u00e1pido decl\u00ednio. O padr\u00e3o n\u00e3o decepcionou. Em outubro de 1885, Spurgeon relatou que estava em vigorosa sa\u00fade e trabalhando em ritmo alucinante. Estava cumprindo compromissos de prega\u00e7\u00e3o havia muito adiados e esperava que seu pr\u00f3prio p\u00falpito pudesse ter seu pregador por muitos dias. Atribuiu esse surto de bem-estar \u00e0 abstin\u00eancia de carne como alimento. Isso se revelou \u201cum preservativo mais eficaz contra o reumatismo e a gota do que qualquer dos muitos sistemas at\u00e9 agora experimentados\u201d. 131 Ao final de 1885, Spurgeon se encontrava em condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica e emocional mais angustiada do que em qualquer momento desde o desastre do Surrey Music Hall. Nas notas de dezembro, confessou que por fim precisava sucumbir. \u201cA neuralgia marcou-nos como sendo dela j\u00e1 h\u00e1 algum tempo.\u201d Seu c\u00e9rebro estava t\u00e3o cansado que se recusava a funcionar, e ele levava um dia inteiro para \u201cproduzir o tecido de pensamento que, em tempos melhores, era tecido em meia hora\u201d. Se a rede n\u00e3o fosse remendada, ela se romperia. Dor miser\u00e1vel por dias a fio, e \u201choras douradas perdidas em miser\u00e1vel incompet\u00eancia\u201d, serviam para adverti-lo de que a maior efici\u00eancia \u201cexige que at\u00e9 o mais disposto trabalhador tenha sua devida propor\u00e7\u00e3o de s\u00e1bado\u201d. 132<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstou completamente exaurido\u201d, explicou ele ao dizer a seus leitores por que n\u00e3o deveriam esperar de sua pena nada muito cintilante no pref\u00e1cio ao volume encadernado de <em>The Sword and the Trowel<\/em>, 1885. \u201cCada membro do meu corpo \u00e9 atormentado de dor; h\u00e1 aproximadamente tanta dor em cada membro quanto qualquer um deles pode convenientemente suportar.\u201d E n\u00e3o era assim apenas com o corpo, mas a unidade mente-corpo encontrava-se num estado de \u201cinquieta\u00e7\u00e3o, <em>mal-estar<\/em> <em>difuso<\/em> e depress\u00e3o\u201d. Se algu\u00e9m pudesse ser acorrentado em seu lugar, ele de boa vontade cederia, mas, como ningu\u00e9m est\u00e1 \u00e0 m\u00e3o, \u201cprecisamos puxar o remo mesmo que quebremos os ossos\u201d. Ap\u00f3s dois par\u00e1grafos, Spurgeon teve de largar a pena, pois foi interrompido por \u201cum furac\u00e3o, consistindo em investidas de dor, espasmos, e toda sorte de mortais apreens\u00f5es\u201d, e s\u00f3 continuou mais tarde, ditando a um amanuense. 133 Escrevendo na mesma \u00e9poca, mas para as notas do <em>Sword<\/em> de janeiro, relatou: \u201cO cansa\u00e7o cerebral levou o Pastor a tomar seu descanso costumeiro.\u201d A demora em partir trouxe sobre ele o doloroso ataque, causado n\u00e3o tanto pela recorr\u00eancia de sua enfermidade, mas por \u201ccansa\u00e7o geral\u201d. Em 17 de dezembro, descreveu um \u201cdia bals\u00e2mico de sol claro e calor de ver\u00e3o\u201d em Mentone. Podia sentar-se do lado de fora o dia inteiro e absorver as influ\u00eancias curativas do sol, do mar e do ar. \u201cNada se compara a isso para um inv\u00e1lido, para quem o frio e a umidade s\u00e3o mortais.\u201d Esperava em breve estar novamente de p\u00e9, com o c\u00e9rebro revigorado e pronto outra vez para pleno trabalho. 134<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se dirigiu \u00e0 confer\u00eancia do col\u00e9gio em maio de 1886, estava com grande dor e tivera de perder a maior parte da confer\u00eancia. Durante seu discurso inaugural, a dor tornava dif\u00edcil pensar e \u201cquase imposs\u00edvel pensar de modo concatenado\u201d. Quase tudo quanto havia preparado foi esquecido e \u201cnenhuma nova nascente de pensamento conseguia abrir canais para si mesma enquanto a mente estava sufocada em sofrimento f\u00edsico\u201d. Hesitou em preparar a mensagem para publica\u00e7\u00e3o na revista, mas amigos o lembraram de que<em> The Sword and the Trowel <\/em>era largamente autobiogr\u00e1fica e certamente deveria aparecer como o testemunho de um homem que podia, \u201ccom dificuldade, conter as l\u00e1grimas em meio ao sofrimento agudo e ainda assim estava resolvido a tomar sua parte numa reuni\u00e3o que havia antecipado com solene interesse por meses a fio\u201d. Spurgeon tamb\u00e9m queria que o leitor soubesse que a revis\u00e3o foi realizada sob as mesmas dificuldades que marcaram sua entrega original. 135<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como saiu impresso, a mensagem continha leves refer\u00eancias \u00e0 sua dor. A mensagem, \u201cWhat We Would Be\u201d [O que ser\u00edamos], estendia uma s\u00e9rie de ternas admoesta\u00e7\u00f5es a seus homens quanto \u00e0 santidade, \u00e0 sabedoria, ao entendimento e \u00e0 mansid\u00e3o para com os pecadores. Sua maturidade agora, ap\u00f3s tantos anos, devia qualific\u00e1-los como Pais na igreja, n\u00e3o com o prop\u00f3sito de controlar e exigir honra, mas para servi\u00e7o, abnega\u00e7\u00e3o e s\u00e1bio conselho. Ele queria que ansiassem pelo crescimento de seu povo e que fossem prontos em perceber os pecadores que retornavam, para que pudessem trat\u00e1-los generosamente. Cerca de oito minutos antes de terminar, ao que parece, Spurgeon disse: \u201cN\u00e3o creio que eu possa dizer muito mais, estou t\u00e3o grandemente vencido pela dor.\u201d Ent\u00e3o continuou: \u201cEu ia dizer que, assim como um pai terreno est\u00e1 no lugar de Deus para seus filhos, assim tamb\u00e9m n\u00f3s o estamos em certa medida.\u201d Encerrou com uma lamenta\u00e7\u00e3o de humilde submiss\u00e3o \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o divina dos momentos individuais da vida; \u201cEu gostaria de ter-lhes falado com toda a minha for\u00e7a, mas pode ser que minha fraqueza seja usada por Deus para maior prop\u00f3sito. Meus pensamentos s\u00e3o poucos por causa da dor, que desordena minha cabe\u00e7a, mas est\u00e3o em fogo, pois meu cora\u00e7\u00e3o permanece fiel ao Senhor, ao seu evangelho, e a voc\u00eas. Que ele use cada um de n\u00f3s at\u00e9 o m\u00e1ximo de nossa capacidade de ser usado, e glorifique a si mesmo por nossa sa\u00fade e nossa doen\u00e7a, nossa vida e nossa morte! Am\u00e9m.\u201d 136<\/p>\n\n\n\n<p>Ele localizou a causa desse retrocesso particular em ter despendido energia demais ao pregar o serm\u00e3o anual para a Sociedade Mission\u00e1ria Wesleyana. Voltou para casa exausto e sofrendo agudamente. Por tr\u00eas domingos teve de deixar de pregar no Tabern\u00e1culo e, como foi mencionado, em boa parte da confer\u00eancia do col\u00e9gio, bem como em todas as reuni\u00f5es da Sociedade de Colportagem. Muitos tiveram de sofrer por causa de sua enfermidade. \u201cA pergunta surge continuamente\u201d, revelou Spurgeon, \u201cn\u00e3o ser\u00e1 esse um pre\u00e7o alto demais a pagar pelo privil\u00e9gio de prestar servi\u00e7o ocasional a dignos objetos fora do nosso pr\u00f3prio c\u00edrculo imediato?\u201d 137<\/p>\n\n\n\n<p>Como Susannah lidava com essas longas e frequentes aus\u00eancias de seu marido? Ela tinha o fundo para livros a ocupar-lhe o tempo e, por isso, ajuda volunt\u00e1ria vinha frequentemente \u00e0 casa, para empacotar os volumes solicitados, auxiliar na correspond\u00eancia e averiguar a idoneidade daqueles que pediam livros para receb\u00ea-los. Especialmente quando os volumes precisavam ser enviados pelo correio, a casa tinha intensa atividade. Nada disso, por\u00e9m, compensava plenamente a aus\u00eancia daquele a quem ela amava chamar de \u201cTirshatha\u201d. Quando a Sra. Spurgeon escreveu o relat\u00f3rio anual de seu fundo para livros, encerrou-o com uma lamenta\u00e7\u00e3o por sua aus\u00eancia em Mentone, condi\u00e7\u00e3o que prevalecera por muitos anos. Em seu estilo po\u00e9tico vitoriano, escreveu sobre \u201cO gabinete escuro e silencioso,\u2014a cadeira vazia do Pastor,\u2014as longas e austeras fileiras de livros sem uso,\u2014o tinteiro fechado, no qual as pr\u00f3prias penas t\u00eam um porte desolado e pendente.\u201d Somando-se ao sil\u00eancio, \u00e0 solid\u00e3o e ao profundo senso de aus\u00eancia havia \u201ca falta de pap\u00e9is espalhados, e outros sinais de uma atarefada obra de toda uma vida\u201d. Ela tamb\u00e9m tinha ansiedades que a oprimiam a cada dia a respeito dele, \u201cmeu amado\u201d. N\u00e3o somente ele estava enfermo, mas estava \u201ca mil milhas da esposa e do lar!\u201d N\u00e3o fosse a gra\u00e7a concedida para entregar tudo nas m\u00e3os amorosas do Pai, e a f\u00e9 dada para crer que \u201cEle fez bem todas as coisas\u201d, ela n\u00e3o pensava que qualquer um dos dois pudesse suportar a separa\u00e7\u00e3o. 138<\/p>\n\n\n\n<p>Em meados de 1888, outra esta\u00e7\u00e3o de sofrimento se abatera sobre o esp\u00edrito e a mente de Spurgeon, mas n\u00e3o o debilitara a tal ponto que ele n\u00e3o pudesse desembainhar sua Espada. \u201cUma revista corre certo perigo de morte quando o editor est\u00e1 t\u00e3o completamente prostrado que seu c\u00e9rebro n\u00e3o pensa\u201d, comentou Spurgeon, e observou tamb\u00e9m um fator complicador, \u201ce sua m\u00e3o direita n\u00e3o consegue segurar uma pena.\u201d A parte particularmente pesada da afli\u00e7\u00e3o lhe sobreveio entre a produ\u00e7\u00e3o de um n\u00famero mensal e do seguinte, de modo que ele se viu, \u201cpor restauradora miseric\u00f3rdia, novamente capaz de lan\u00e7ar m\u00e3o de nossa tarefa designada.\u201d Sempre empenhado em manter a bondade divina diante de si com esfor\u00e7o consciencioso, Spurgeon reconheceu: \u201cH\u00e1 sempre alguma circunst\u00e2ncia de gra\u00e7a na mais pesada prova\u00e7\u00e3o. O espinheiro produz sua rosa. O Senhor nos deixa ver uma luz brilhante nas nuvens mesmo quando elas se ajuntam da maneira mais sombria.\u201d 139 Tal era o equil\u00edbrio quando escreveu a Fullerton, de Mentone, em janeiro de 1889. \u201cEstive muito enfermo, mas agora me sinto convalescente. Tive \u2014 digamos \u2014 quatro dias de verdadeiro descanso: o restante pertence \u00e0 rubrica de enfermidade e melhora. N\u00e3o, tive uma boa semana no come\u00e7o.\u201d 140 Ele queria lembrar-se de cada b\u00ean\u00e7\u00e3o. Qualquer coisa aqu\u00e9m do inferno era miseric\u00f3rdia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A m\u00e1 aplica\u00e7\u00e3o da dor<\/h2>\n\n\n\n<p>Spurgeon sofrera por tanto tempo e de tantas maneiras diferentes que isso naturalmente teve efeito sobre seus processos de pensamento e sua resili\u00eancia emocional. Admitia isso livremente, que estava entre aqueles que \u201ceram mais propensos a esquecer o revestimento de prata\u201d. N\u00e3o dissera ele: \u201cQuanto \u00e0s enfermidades mentais, h\u00e1 algum homem inteiramente s\u00e3o?\u201d 141 A escurid\u00e3o frequentemente o acompanhava. Mas de que sua enfermidade alguma vez o tenha tornado paranoico ou irracional, e assim incapaz de analisar o pensamento com sua acuidade normal e formular uma resposta com clareza e relev\u00e2ncia pontual, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia alguma, e ele resistia vigorosamente a essa conclus\u00e3o. N\u00e3o seu f\u00edgado ou suas juntas inflamadas, mas seu cora\u00e7\u00e3o e sua cabe\u00e7a assumiam sua posi\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria constantemente expressa e emitiam advert\u00eancias sombrias acerca dos efeitos corrosivos do pensamento liberal.<\/p>\n\n\n\n<p>Spurgeon ressentia-se da bondade fingida com que seus cr\u00edticos justificavam a si mesmos ao ignorarem seu s\u00e9rio alarme como melancolia constitucional agravada pela enfermidade. Essas tentativas de minimizar os poderes de discernimento de Spurgeon, ou de atribuir seu alarme teol\u00f3gico meramente a um esp\u00edrito desalentado, vieram \u00e0 tona em meados de 1886. Quando publicou o serm\u00e3o n\u00famero 1900 de <em>The Metropolitan Tabernacle Pulpit<\/em>, desafiou seus cr\u00edticos: \u201cQue aqueles que lerem esse serm\u00e3o vejam se a gota nos torna mal-humorados, ou mesmo melanc\u00f3licos. Contudo, esse discurso foi quase reescrito quando era uma tortura segurar uma pena.\u201d 142<\/p>\n\n\n\n<p>O serm\u00e3o era uma exposi\u00e7\u00e3o da admoesta\u00e7\u00e3o \u201cRegozijai-vos sempre\u201d. A exuber\u00e2ncia e a exulta\u00e7\u00e3o do serm\u00e3o desmentem qualquer tend\u00eancia \u00e0 amargura por causa da dor. Muitas passagens not\u00e1veis insistem sem cessar para que o crist\u00e3o considere cada momento e cada situa\u00e7\u00e3o como ocasi\u00e3o de regozijo. H\u00e1 uma poss\u00edvel refer\u00eancia obl\u00edqua ao seu estado presente de intensa dor em uma passagem, mas ela aparece apenas ao final de uma exorta\u00e7\u00e3o a considerar como o evangelho transforma todas as experi\u00eancias terrenas em ocasi\u00f5es de alegria:<\/p>\n\n\n\n<p>Creio, queridos amigos, que, se estivermos com a mente correta, toda doutrina do evangelho nos alegrar\u00e1, toda promessa do evangelho nos alegrar\u00e1, todo preceito do evangelho nos alegrar\u00e1. Se voc\u00eas percorressem uma lista de todos os privil\u00e9gios que pertencem ao povo de Deus, poderiam deter-se em cada um deles e dizer: eu poderia regozijar-me sempre nisto, ainda que nada mais tivesse. Se alguma vez voc\u00eas deixarem de se alegrar, permitam-me exort\u00e1-los a despertar cada uma das gra\u00e7as do Esp\u00edrito para seu mais ativo exerc\u00edcio. Comecem com a primeira delas, a f\u00e9. Creiam, e, ao crerem nisto e naquilo dentre as dez mil b\u00ean\u00e7\u00e3os que Deus prometeu, a alegria brotar\u00e1 em sua alma. Voc\u00eas exerceram a f\u00e9? Ent\u00e3o conduzam para diante a gra\u00e7a irm\u00e3 da esperan\u00e7a. Comecem a esperar pela ressurrei\u00e7\u00e3o, a esperar pela segunda vinda, a esperar pela gl\u00f3ria que ent\u00e3o ser\u00e1 revelada. Que fontes de alegria s\u00e3o essas! Quando tiverem se entregado \u00e0 esperan\u00e7a, prossigam ent\u00e3o ao amor, e deixem que esta, a mais bela das irm\u00e3s celestiais, lhes mostre o caminho da alegria. Prossigam em amar mais e mais a Deus, e em amar seu povo, e em amar os pobres pecadores; e, \u00e0 medida que amarem, n\u00e3o deixar\u00e3o de se alegrar, pois a alegria nasce do amor! O amor tem na m\u00e3o esquerda a tristeza pelos sofrimentos daqueles a quem ama, mas na m\u00e3o direita uma santa alegria no pr\u00f3prio fato de amar seus semelhantes; pois aquele que ama faz uma coisa alegre. Se voc\u00eas n\u00e3o conseguem tirar alegria nem da esperan\u00e7a, nem da f\u00e9, nem do amor, ent\u00e3o prossigam \u00e0 paci\u00eancia. Creio que uma das mais doces alegrias debaixo do c\u00e9u brota do mais severo sofrimento quando a paci\u00eancia \u00e9 posta em a\u00e7\u00e3o. \u201cDoce\u201d, diz Toplady, \u201c\u00e9 jazer passivo em tua m\u00e3o, e n\u00e3o conhecer vontade alguma sen\u00e3o a tua.\u201d E \u00e9 t\u00e3o doce, t\u00e3o inexprimivelmente doce, que, segundo minha experi\u00eancia, a alegria que vem da paci\u00eancia perfeita \u00e9, sob certos aspectos, a mais divina de todas as alegrias que os crist\u00e3os conhecem deste lado do c\u00e9u. O abismo da agonia tem nele uma p\u00e9rola que n\u00e3o se encontra no monte do deleite. Ponham a paci\u00eancia em sua obra perfeita, e ela lhes trar\u00e1 o poder de regozijar-se sempre. 143<\/p>\n\n\n\n<p>Seus detratores resistiam-lhe, n\u00e3o com argumento racional, mas fazendo dele objeto de rid\u00edculo e piedade. Quando reuniu evid\u00eancias de que o decl\u00ednio doutrin\u00e1rio era de fato real e percebido por outras pessoas verdadeiramente s\u00e3s, de mente e corpo, dispersas pelo mundo crist\u00e3o, informou a seus detratores condescendentes que as ilustra\u00e7\u00f5es \u201cbastam para mostrar que n\u00e3o \u00e9 um disp\u00e9ptico solit\u00e1rio que sozinho julga haver muito mal presente\u201d. 144<\/p>\n\n\n\n<p><em>The Sword and the Trowel<\/em>, em fevereiro de 1890, noticiou que um jornal tentou confortar Spurgeon em seu \u201cpior est\u00e1gio de depress\u00e3o acerca das d\u00favidas do dia\u201d com a garantia de que a religi\u00e3o nunca poderia desaparecer. Outros batistas ingleses informaram a alguns inquiridores americanos que Spurgeon se conduzia de tal maneira porque \u201ca enfermidade e a idade haviam enfraquecido seu intelecto\u201d. 145 Um historiador recente dos batistas ingleses, A. C. Underwood, deu continuidade a esse rid\u00edculo de Spurgeon ao afirmar: \u201cHomem enfermo, ele via com a mais profunda preocupa\u00e7\u00e3o todo afastamento da teologia dos puritanos.\u201d Underwood acrescentou insulto ao sugerir que Spurgeon era simplesmente intelectualmente incapaz de apreciar os avan\u00e7os do pensamento moderno. 146<\/p>\n\n\n\n<p>Quando um cr\u00edtico sugeriu que as acusa\u00e7\u00f5es de Spurgeon provinham de sua enfermidade, e n\u00e3o de sua acuidade teol\u00f3gica, ele mostrou todo o seu desgosto com essa esquiva das quest\u00f5es teol\u00f3gicas. \u201cNossos oponentes\u201d, diz ele, \u201cpuseram-se a fazer alus\u00f5es zombeteiras \u00e0 nossa enfermidade.\u201d Suas solenes observa\u00e7\u00f5es sobre teologia s\u00e3o sugeridas por sua dor, segundo o cr\u00edtico, e n\u00e3o por seu c\u00e9rebro. Essa falta de cortesia crist\u00e3 mostrava, no ju\u00edzo de Spurgeon, que a nova teologia havia introduzido um novo tom e um novo esp\u00edrito. A ades\u00e3o \u00e0 f\u00e9 antiga determina que um homem deva ser um idiota e deva ser tratado \u201ccom aquela piedade desdenhosa que \u00e9 a quintess\u00eancia do \u00f3dio\u201d. Se um c\u00e3o de guarda teol\u00f3gico \u00e9 conhecido tamb\u00e9m por estar enfermo, \u201cimputem sua f\u00e9 \u00e0 sua doen\u00e7a, e finjam que seu fervor nada mais \u00e9 do que petul\u00e2ncia nascida de sua dor\u201d. 147<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sofrimento pela verdade revelada<\/h2>\n\n\n\n<p>Foi bom que Spurgeon tivesse uma teologia do sofrimento muito antes de ter a experi\u00eancia constante dele. A severidade disso em sua pr\u00f3pria vida e o modo torpe como seus oponentes o exploravam em busca de proveito \u00fatil poderiam ter conduzido um homem mais inst\u00e1vel a um desespero c\u00ednico. Em 1857, ele pregou \u201cOs Amados Castigados\u201d. Explorou em detalhe, a partir de exemplos b\u00edblicos, por que o povo de Deus experimenta tantos e t\u00e3o variados males nesta vida. Sempre buscando um fundamento b\u00edblico, uma palavra da verdade revelada, Spurgeon afirmou: \u201c\u00c0 parte da revela\u00e7\u00e3o de Deus, os tratos de Jeov\u00e1 para com suas criaturas neste mundo parecem ser totalmente inexplic\u00e1veis.\u201d As religi\u00f5es dizem que Deus d\u00e1 bem aos bons; o homem que prospera \u00e9 favorecido pelos deuses. Ele d\u00e1 mal aos maus; os que sofrem e n\u00e3o t\u00eam \u00eaxito s\u00e3o odiosos ao Alt\u00edssimo. O texto da Escritura desfaz o mist\u00e9rio; ou\u00e7a, e \u201co enigma \u00e9 desvendado\u201d: \u201cEu repreendo e castigo a todos quantos amo; s\u00ea, pois, zeloso, e arrepende-te.\u201d A recompensa do crist\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 nesta vida, e a puni\u00e7\u00e3o do homem \u00edmpio n\u00e3o est\u00e1 aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele abate o crist\u00e3o; ele d\u00e1 as maiores afli\u00e7\u00f5es aos mais piedosos; talvez fa\u00e7a mais ondas de tribula\u00e7\u00e3o rolarem sobre o peito do crist\u00e3o mais santificado do que sobre o cora\u00e7\u00e3o de qualquer outro homem vivente. Assim, ent\u00e3o, devemos lembrar que, visto que este mundo n\u00e3o \u00e9 o lugar da puni\u00e7\u00e3o, devemos esperar puni\u00e7\u00e3o e recompensa no mundo por vir; e devemos crer que a \u00fanica raz\u00e3o, pois, pela qual Deus aflige seu povo deve ser esta:<\/p>\n\n\n\n<p>Em amor te corrijo, teu ouro a refinar,<\/p>\n\n\n\n<p>Para ao fim, \u00e0 minha imagem, fazer-te brilhar. 148<\/p>\n\n\n\n<p>NOTAS:<\/p>\n\n\n\n<p>1 S&amp;T, March 1866, 100. \u201cBells for Horses.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>2&nbsp; Autobiography, 2:194<\/p>\n\n\n\n<p>3 SS, 1:10.<\/p>\n\n\n\n<p>4 MTP, 1881, 4.<\/p>\n\n\n\n<p>5 S&amp;T, May 1876, 198.<\/p>\n\n\n\n<p>6 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>7 Ibid., 196.<\/p>\n\n\n\n<p>8 MTP, 1892, 180. This was a Thursday evening sermon on April 3, 1890, and was prepared for reading on the Lord\u2019s Day, April 10, 1892.<\/p>\n\n\n\n<p>9&nbsp; Autobiography, 1:428.<\/p>\n\n\n\n<p>10 Ibid., 1:431.<\/p>\n\n\n\n<p>11 William Williams, Personal Reminiscences of Charles Haddon Spurgeon (London: The Religious Tract Society, 1895), 46.<\/p>\n\n\n\n<p>12 S&amp;T, January 1875, 5.<\/p>\n\n\n\n<p>13 S&amp;T, December 1881, 626.<\/p>\n\n\n\n<p>14 S&amp;T, October 1869, 479.<\/p>\n\n\n\n<p>15 Ibid., 477.<\/p>\n\n\n\n<p>16 Hannah Wyncoll, ed. The Suffering Letters of C. H. Spurgeon (London: Wakeman Trust, 2007), 10.<\/p>\n\n\n\n<p>17 S&amp;T, January 1875, 7.<\/p>\n\n\n\n<p>18 S&amp;T, May 1877, 211.<\/p>\n\n\n\n<p>19 S&amp;T, December 1869, 566.<\/p>\n\n\n\n<p>20 S&amp;T,May 1871, 237.<\/p>\n\n\n\n<p>21 S&amp;T, June 1871, 282.<\/p>\n\n\n\n<p>22 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>23 S&amp;T, July 1871, 333.<\/p>\n\n\n\n<p>24 S&amp;T, August 1871, 382.<\/p>\n\n\n\n<p>25 S&amp;T, September 1871, 430.<\/p>\n\n\n\n<p>26 S&amp;T, December 1871, 570.<\/p>\n\n\n\n<p>27 S&amp;T, 1871, Preface.<\/p>\n\n\n\n<p>28 S&amp;T, March 1874, 142.<\/p>\n\n\n\n<p>29 S&amp;T, May 1874, 241.<\/p>\n\n\n\n<p>30 S&amp;T, July 1874, 341.<\/p>\n\n\n\n<p>31 S&amp;T, November 1874, 542.<\/p>\n\n\n\n<p>32 S&amp;T, February 1875, 92.<\/p>\n\n\n\n<p>33 S&amp;T, June 1876, 284.<\/p>\n\n\n\n<p>34 S&amp;T, July 1876, 333.<\/p>\n\n\n\n<p>35 S&amp;T, April 1877, 189.<\/p>\n\n\n\n<p>36 W. Y. Fullerton, Thomas Spurgeon: A Biography (London: Hodder &amp; Stoughton, 1919), 49, 50.<\/p>\n\n\n\n<p>37 S&amp;T, July 1877, 334.<\/p>\n\n\n\n<p>38 S&amp;T, January 1878, 31.<\/p>\n\n\n\n<p>39 Ibid., 40.<\/p>\n\n\n\n<p>40 Fullerton, Thomas Spurgeon, 71.<\/p>\n\n\n\n<p>41 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>42 S&amp;T, November 1884, 598.<\/p>\n\n\n\n<p>43 Fullerton Thomas Spurgeon, 87.<\/p>\n\n\n\n<p>44 S&amp;T, February 1883, 96.<\/p>\n\n\n\n<p>45 S&amp;T, March 1883, 149.<\/p>\n\n\n\n<p>46 S&amp;T, July 1877, 333.<\/p>\n\n\n\n<p>47 S&amp;T, February 1881, 92.<\/p>\n\n\n\n<p>48 Elizabeth Skoglund, Found Faithful (Grand Rapids: Discovery House Publishers, 2003), 143.<\/p>\n\n\n\n<p>49 Ibid., 150.<\/p>\n\n\n\n<p>50 Ibid., she quoted The Saint and His Saviour, 135.<\/p>\n\n\n\n<p>51 J. C. Carlile, Charles H. spurgeon: An Interpretative Biography (London: Religious Tract Society, 1933), 130f.<\/p>\n\n\n\n<p>52 S&amp;T, January 1878, 45.<\/p>\n\n\n\n<p>53 S&amp;T, February 1878, 91.<\/p>\n\n\n\n<p>54 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>55 S&amp;T, March 1878, 142.<\/p>\n\n\n\n<p>56 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>57 S&amp;T, August, 1878, 416.<\/p>\n\n\n\n<p>58 S&amp;T, September 1878, 421.<\/p>\n\n\n\n<p>59 Ibid., 424. \u201cFishing.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>60 Fullerton, Thomas Spurgeon, 82.<\/p>\n\n\n\n<p>61 Ibid., 83.<\/p>\n\n\n\n<p>62 S&amp;T, 1879, \u201cPreface,\u201d iii.<\/p>\n\n\n\n<p>63 S&amp;T, December 1878, 600.<\/p>\n\n\n\n<p>64 S&amp;T, January 1879, 3.<\/p>\n\n\n\n<p>65 Ibid., 41.<\/p>\n\n\n\n<p>66 S&amp;T, February 1879, 86.<\/p>\n\n\n\n<p>67 S&amp;T, April 1879, 193.<\/p>\n\n\n\n<p>68 Ibid., 193-94.<\/p>\n\n\n\n<p>69 S&amp;T Jan 1870, 47. \u201cMemoranda.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>70 S&amp;T, December 1871, 570.<\/p>\n\n\n\n<p>71 S&amp;T, October 1881, 498.<\/p>\n\n\n\n<p>72 S&amp;T, 1881, 485. Stockwell Orphanage Report.<\/p>\n\n\n\n<p>73 S&amp;T, February 1874, 92.<\/p>\n\n\n\n<p>74 Spurgeon, Letters, \u201cTo His Aunt,\u201d 1853.<\/p>\n\n\n\n<p>75 S&amp;T, February 1875, 92.<\/p>\n\n\n\n<p>76 S&amp;T, October 1879, 497.<\/p>\n\n\n\n<p>77 S&amp;T, November 1881, 583.<\/p>\n\n\n\n<p>78 S&amp;T, October 1881, 535.<\/p>\n\n\n\n<p>79 S&amp;T, November 1881, 583.<\/p>\n\n\n\n<p>80 S&amp;T, January 1879, 6.<\/p>\n\n\n\n<p>81 Ibid., 41.<\/p>\n\n\n\n<p>82 S&amp;T, February 1879, 87.<\/p>\n\n\n\n<p>83 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>84 S&amp;T, 1879, Preface, iii.<\/p>\n\n\n\n<p>85 S&amp;T, March 1882, 150.<\/p>\n\n\n\n<p>86 S&amp;T, April 1879, 193.<\/p>\n\n\n\n<p>87 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>88 Ibid., 194.<\/p>\n\n\n\n<p>89 S&amp;T, September 1879, 448.<\/p>\n\n\n\n<p>90 S&amp;T, March 1881, 133.<\/p>\n\n\n\n<p>91 Wayland Hoyt, Walks and Talks with Charles H. Spurgeon (Philadelphia: American Baptist Publication Society, 1892), 10.<\/p>\n\n\n\n<p>92 S&amp;T, April 1881, 161.<\/p>\n\n\n\n<p>93 S&amp;T, July 1881 357.<\/p>\n\n\n\n<p>94 S&amp;T, January 1885, 42.<\/p>\n\n\n\n<p>95 S&amp;T, June 1891, 348.<\/p>\n\n\n\n<p>96 S&amp;T, July 1891, 417-18.<\/p>\n\n\n\n<p>97 S&amp;T, May 1879, 242.<\/p>\n\n\n\n<p>98 Fullerton, Thomas Spurgeon, 85f.<\/p>\n\n\n\n<p>99 S&amp;T, May 1879, 242.<\/p>\n\n\n\n<p>100 S&amp;T, October 1879, 497.<\/p>\n\n\n\n<p>101 S&amp;T, 1880, Preface.<\/p>\n\n\n\n<p>102 S&amp;T, August 1880, 421.<\/p>\n\n\n\n<p>103 S&amp;T, February 1881, 84.<\/p>\n\n\n\n<p>104 S&amp;T, March 1881, 147.<\/p>\n\n\n\n<p>105 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>106 S&amp;T, April 1881. 194.<\/p>\n\n\n\n<p>107 S&amp;T, 1881, 304.<\/p>\n\n\n\n<p>108 S&amp;T, August 1881, 418.<\/p>\n\n\n\n<p>109 S&amp;T, December 1881, 626.<\/p>\n\n\n\n<p>110 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>111 S&amp;T, January 1882, 42.<\/p>\n\n\n\n<p>112 S&amp;T,. December 1886, 613.<\/p>\n\n\n\n<p>113 S&amp;T, February 1882, 97.<\/p>\n\n\n\n<p>114 S&amp;T, April 1882, 1.<\/p>\n\n\n\n<p>115 Ibid., 200.<\/p>\n\n\n\n<p>116 S&amp;T, August 1882, 385.<\/p>\n\n\n\n<p>117 S&amp;T, September 1882, 461.<\/p>\n\n\n\n<p>118 S&amp;T, January 1883, 43.<\/p>\n\n\n\n<p>119 S&amp;T, May 1883, 248.<\/p>\n\n\n\n<p>120 S&amp;T, June 1883, 331.<\/p>\n\n\n\n<p>121 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>122 S&amp;T, August 1883, 461.<\/p>\n\n\n\n<p>123 S&amp;T, September 1883, 514.<\/p>\n\n\n\n<p>124 S&amp;T, March 1884, 103.<\/p>\n\n\n\n<p>125 S&amp;T, February 1885, 91-93.<\/p>\n\n\n\n<p>126 Ibid..<\/p>\n\n\n\n<p>127 MTP, 1885. 96.<\/p>\n\n\n\n<p>128 S&amp;T, April 1885 194.<\/p>\n\n\n\n<p>129 S&amp;T, May 1885, 244.<\/p>\n\n\n\n<p>130 Ibid.<\/p>\n\n\n\n<p>131 S&amp;T, October 1885, 558.<\/p>\n\n\n\n<p>132 S&amp;T, December 1885, 645.<\/p>\n\n\n\n<p>133 S&amp;T, 1885, Preface.<\/p>\n\n\n\n<p>134 S&amp;T, January 1886, 42.<\/p>\n\n\n\n<p>135 S&amp;T, June 1886, 253.<\/p>\n\n\n\n<p>136 S&amp;T, July 1886, 343.<\/p>\n\n\n\n<p>137 S&amp;T, June 1886, 294.<\/p>\n\n\n\n<p>138 Susannah Spurgeon, Ten Years After (London: Passmore &amp; Alabaster, 1895), 26.<\/p>\n\n\n\n<p>139 S&amp;T, July 1888, 384.<\/p>\n\n\n\n<p>140 Archives of SBTS in the Snell folder, probably mistaken attribution.<\/p>\n\n\n\n<p>141 C. H. Spurgeon, \u201cThe Minister\u2019s Fainting Fits,\u201d Lectures to My Students, 4 vols in 1 (Pasadena, TX: Pilgrim Press, 1990), 1:168f.<\/p>\n\n\n\n<p>142 S&amp;T, June 1886, 295.<\/p>\n\n\n\n<p>143 MTP, 1886, 350.<\/p>\n\n\n\n<p>144 S&amp;T, October 1887, 513. \u201cThe Case Proved.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>145&nbsp; S&amp;T, February 1890, 93.<\/p>\n\n\n\n<p>146 A. C. Underwood, <em>A<\/em> <em>History of the English Baptists <\/em>(London: The Baptist Union of Great Britain and Ireland, 1947), 231.<\/p>\n\n\n\n<p>147 S&amp;T, September 1887, 462. Veja tamb\u00e9m Lewis Drummond, Spurgeon: Prince of Preachers (Grand Rapids, MI: Kregel, 1992), 824. Drummond inclui v\u00e1rios artigos sobre o Downgrade que apareceram em <em>Sword and Trowel<\/em>, de mar\u00e7o a outubro, como ap\u00eandices \u00e0 sua biografia de Spurgeon, 802-34.<\/p>\n\n\n\n<p>148 SS, 4:333-34. NPSP, 1857, 453.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cap. 17 do livro Living by Revealed Truth: The Life and Pastoral Theology of Charles Haddon Spurgeon, de Tom Nettles Sei que voc\u00eas me dir\u00e3o que o ouro precisa ser lan\u00e7ado no fogo, que os crentes t\u00eam de passar por muita tribula\u00e7\u00e3o. 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