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Enfermidade, sofrimento, depressão

Cap. 17 do livro Living by Revealed Truth: The Life and Pastoral Theology of Charles Haddon Spurgeon, de Tom Nettles

Sei que vocês me dirão que o ouro precisa ser lançado no fogo, que os crentes têm de passar por muita tribulação. Respondo: Verdadeiramente tem de ser assim, mas, quando o ouro sabe por que e para que está no fogo, quando entende quem o colocou ali, quem o vigia enquanto está entre as brasas, quem jurou tirá-lo de lá sem dano, e em que pureza incomparável em breve aparecerá, o ouro, se de fato for ouro, agradecerá ao Refinador por tê-lo posto no crisol, e encontrará doce satisfação até mesmo nas chamas.1

Em certa ocasião, em meio a um severo período de enfermidade e angústia mental, Spurgeon comentou sobre onze mortes ocorridas entre os membros do Tabernáculo em um único mês. “Muitas vezes nos admiramos”, refletiu ele, “da pequenez do número de nossas mortes, muito abaixo da média das tábuas de mortalidade.” Em seguida, observou que “a piedade, trazendo consigo temperança, paz e pureza, tende a produzir longa vida.” Às vezes, porém, uma combinação de outras circunstâncias serve para tornar miserável e abreviar a vida até mesmo do piedoso. Spurgeon entrou numa série de circunstâncias das quais não havia escape; cada uma contribuiu com sua parte para a tensão incessante que desafiou sua fé e sua saúde por mais de trinta e cinco anos. Enfermidade e aflição de um tipo palpável reapareceram com frequência durante os últimos vinte e dois anos de sua vida. Seu leal “escudeiro”, J. W. Harrald, estimou que, a partir dos trinta e cinco anos de idade, Spurgeon esteve afastado de seu púlpito por um terço do tempo, quer por dor, enfermidade, quer em convalescença.2

Uma teologia viva do sofrimento

Ele já sabia algo disso, contudo, quando tinha vinte e dois anos, pois em janeiro de 1856 pregou, aparentemente com mais do que especulação teórica: “Deus ensina seu povo todos os dias, pela enfermidade, pela aflição, pela depressão de espírito, pelos abandonos de Deus, pela perda do Espírito por algum tempo, pela falta das alegrias de sua presença, que ele é Deus, e que fora dele não há nenhum outro.” 3 Por mais reais que essas experiências fossem para Spurgeon aos vinte e dois anos, pouco a pouco elas se tornariam tão reais e tão constantes quanto a própria vida.

Vinte e cinco anos depois, ele ainda se apegava ao propósito divino no sofrimento. Em “The Sitting of the Refiner”, Spurgeon apontou para a Palavra, a comunhão com Cristo e a presença do Espírito Santo como meios de purificação. Deus está determinado a purificar seu povo, pois os elegeu para a santidade. Ninguém precisa queixar-se da eleição se não tem desejo de santidade. “Senhores”, repreendeu ele, “se vocês não desejam purificação e santidade, por que haveriam de contender com Deus porque Ele não lhes concede isso?” Também olhou para uma variedade de intervenções providenciais como a maneira de Deus sentar-se para refinar seus filhos de Levi. “Tão grande é a obstinação de nossa carne, que o Senhor usa como combustível em sua fornalha provações agudas e pesadas de diferentes espécies”, enfatizou Spurgeon, sem mudança de percepção ao longo de um quarto de século. “A adversidade assume muitas formas e, em cada uma e em todas as suas feições, o Senhor sabe como usá-la para o benefício de seu povo.” Prosseguiu:

Cristo senta-se como Refinador quando tira a prosperidade e reduz o rico à pobreza. Muitas vezes ele refina os homens pelas perdas que sofrem de amigos amados. O luto arde como o sopro de uma fornalha e, ah, quanto amor carnal foi consumido por ele! Temos conhecido pessoas grandemente purificadas pelo Espírito Santo ao passarem por depressão de espírito, tristeza interior e pesar da alma. A dor espiritual foi abençoada para alguns e a dor física para mais. 4

Spurgeon nunca duvidou de que sua dor requintada, suas frequentes enfermidades e até mesmo seu desânimo lhe eram dados por Deus para sua santificação, segundo um propósito sábio e santo. Depois de seis anos, a serem seguidos por mais dezesseis, de tal sofrimento, Spurgeon ofereceu seu pensamento pastoral sobre a questão num artigo intitulado “Laid Aside. Why?” Podemos fazer perguntas a Deus, cria Spurgeon, se o fizermos sem murmuração. Se um comandante de soldados, por sua própria vontade, tornasse incapazes de entrar na batalha aqueles que fossem seus combatentes mais zelosos, não ficaríamos perplexos em discernir seus motivos? “Felizmente para nós”, respondeu Spurgeon, “nossa felicidade não depende de entendermos a providência de Deus.” O cristão é capaz de crer mesmo quando não é capaz de explicar e se contenta em deixar tudo à sabedoria e bondade de seu Pai celestial. “A dolorosa enfermidade que põe o ministro cristão fora de combate quando ele é mais necessário no conflito é um bondoso mensageiro do Deus de Amor, e deve ser recebida como tal.” Isso, contudo, deixava Spurgeon perplexo e o levou a afirmar: “mas como isso pode ser assim não podemos dizer com precisão.” Procurou, porém, tanto pela experiência quanto pelo exemplo bíblico, lançar alguma luz sobre o assunto. Cada parágrafo é em si mesmo evidência de que Spurgeon escreveu no meio dos estertores de um acesso de severa dor e angústia mental. Ao final do artigo, confessou: “Justamente agora, quando a angústia enche o coração, e o espírito está esmagado por dor intensa e sofrimento, não é a melhor estação para formar um juízo imparcial sobre nossa própria condição, nem sobre qualquer outra coisa.” 5

Cheio de sentenças que eram unidades autocontidas de significado axiomático, Spurgeon construiu um argumento em favor da instrumentalidade do sofrimento para aumentar a fé de alguém, encorajar a humildade, desenvolver a paciência ao lado da eficácia no serviço, promover uma imitação mais profunda de Cristo pela participação em seus sofrimentos, proporcionar os benefícios de uma mudança de atmosfera espiritual na qual frutifique uma fragrante colheita espiritual, suscitar verdadeira simpatia e comunhão ao tratar as feridas dos quebrantados de coração, e exercer correção paternal para uma devoção mais pura à glória de Deus e à sua causa no mundo. Era cuidadoso neste último ponto para evitar a síndrome dos amigos de Jó. “Todavia, não é bom”, advertiu ele, “atribuir cada enfermidade e provação a alguma falta real, como se estivéssemos debaixo da lei, ou pudéssemos ser punidos novamente por aqueles pecados que Jesus levou em seu próprio corpo no madeiro.” Quão indecoroso seria julgar o maior sofredor como o maior pecador; igualmente insensato seria aplicar “regra tão errônea a nós mesmos, e condenar-nos morbidamente quando Deus não condena.” 6

Uma imagem muito impressionante, cheia de farpas penetrantes, ilustrou o entendimento de Spurgeon acerca da detestação do Senhor pelo orgulho e de seu uso do sofrimento para obliterá-lo. “A consciência de nossa própria importância é uma ilusão odiosa, mas uma na qual caímos tão naturalmente quanto as ervas daninhas crescem sobre um monte de esterco.” Sua discussão do sofrimento como oportunidade para o aumento da fé fornece um exemplo da doçura e do poder condensado do tratamento que Spurgeon dava ao tema:

Consideremos um pouco. Não nos é bom ficar desconcertados e perplexos, e assim ser forçados a exercitar a fé? Seria bom para nós que todas as coisas fossem ordenadas de tal maneira que nós mesmos pudéssemos ver a razão de cada dispensação? Poderia o plano do amor divino ser de fato supremamente, infinitamente, sábio se pudéssemos medi-lo com a curta linha de nossa razão? Não permaneceríamos nós mesmos tão tolos e presunçosos quanto crianças mimadas e aduladas, se todas as coisas fossem arranjadas segundo nosso juízo acerca do que seria adequado e conveniente? Ah, é bom sermos lançados fora de nossa profundidade e obrigados a nadar nas doces águas do amor poderoso! Sabemos que é supremamente bendito sermos compelidos a cessar de nós mesmos, a render tanto o desejo quanto o juízo, e a jazer passivos nas mãos de Deus. 7

Essa teologia fora verificada, purificada e temperada em seu coração até 1890. Ao pregar sobre Cristo como “Nosso Compassivo Sumo Sacerdote”, Spurgeon refletiu: “Eu não poderia prosseguir sem aqueles leitos de enfermidade, e aquelas dores amargas, e aquelas noites cansativas sem dormir.” A bem-aventurança vem por meio da dor, se quisermos ser ajudadores do povo de Deus. O cristão deve gloriar-se em suas enfermidades e doenças, pois elas serão tornadas úteis “para o consolo do povo enfermo de Deus”. Não menos do que isso, Spurgeon se gloriava em sua depressão, pois aí se sentia muito próximo de Cristo, porque em toda a nossa aflição ele mesmo também foi afligido. Assim também será com o ministro:

Nossas depressões também podem tender à nossa frutificação. Um coração curvado sob o desespero é coisa terrível. “Espírito ferido, quem o pode suportar?” Mas, se você nunca teve tal experiência, meu querido irmão, você não valerá um alfinete como pregador. Você não pode ajudar outros que estão deprimidos, a menos que você mesmo tenha descido às profundezas. Você não pode levantar outros do desalento e da depressão, a menos que você mesmo por vezes tenha precisado ser levantado de semelhantes experiências. Você deve também, por vezes, estar cercado por essa enfermidade, a fim de ter compaixão daqueles que se acham em caso semelhante. 8

Desastre do Surrey Music Hall

Devido ao grande crescimento da congregação em New Park Street, a igreja decidiu que realizaria seus cultos matutinos na Capela e os cultos vespertinos em Exeter Hall, a fim de acomodar com mais facilidade as grandes multidões que desejavam ouvir Spurgeon. De 8 de junho até 24 de agosto de 1856, a congregação reuniu-se em Exeter Hall, mas considerou o arranjo muito inconveniente, e os proprietários do Salão passaram a crer que sua predominância por uma única denominação não era apropriada. Spurgeon concordou. 9

Ainda necessitando de um grande espaço para atender à demanda do público e cumprir um mandato e oportunidade evangelísticos, a igreja, após livre discussão e objeções de alguns que o chamavam de “Casa do Diabo”, decidiu alugar o Music Hall dos Royal Surrey Gardens por um mês, começando no terceiro domingo de outubro, mostrando disposição para ir até mesmo à casa do Diabo para ganhar almas para Cristo. O recinto, amplamente conhecido pelos divertimentos e pela pompa que ali eram regularmente promovidos, serviria por pouco mais de três anos como local de pregação para o pregador mais popular da Inglaterra. Na manhã anterior àquele primeiro culto vespertino, esperanças e temores estavam em alta. Spurgeon pediu à congregação que “provasse o Senhor” por sua coragem e compromisso para com empreendimento tão ousado, tão insensato como muitos insistiam, confiando num Deus cujo poder se mostra em sua fraqueza, cuja sabedoria vence sua insensatez, e cujo propósito supera suas vacilações. Ainda que ele, assim pregou Spurgeon, tivesse de permanecer onde “se formam nuvens de trovão, onde brilham relâmpagos, e onde rugem ventos tempestuosos”, fora, não obstante, nascido para provar o poder e a majestade de Deus. Os acontecimentos daquela noite fizeram-no “passar pela maior provação de [sua] vida”. 10

Um dos alunos de Spurgeon, William Williams, recordou a reação visceral que Spurgeon tinha quando algum acontecimento ou conversa lhe trazia à lembrança, de modo vívido, aquele terrível evento. Spurgeon perguntou a Williams qual era seu texto para um sermão, e Williams respondeu: “A maldição do Senhor está na casa do ímpio, mas ele abençoa a habitação dos justos.” Spurgeon soltou um profundo suspiro, seu semblante caiu e ele gemeu: “Ai de mim!” Quando lhe perguntaram o que o afligia, respondeu: “Você não sabe? Esse é o texto que eu tinha naquela terrível noite do acidente no Surrey Music Hall.” Williams não o sabia e resolveu nunca mais mencionar a ele nem o texto nem o acontecimento. “Não posso deixar de pensar”, escreveu ele, “pelo que vi, que sua morte comparativamente prematura pode, em certa medida, ter sido devida à fornalha de sofrimento mental que ele suportou naquela e depois daquela noite pavorosa.” 11

Após vinte anos de sermões impressos, Spurgeon relembrou muitos dos eventos decisivos pelos quais a circulação de seus sermões aumentou para audiências cada vez mais amplas. Entre esses fatores, mencionou a mudança para o grande salão em Surrey Gardens, onde pregou por mais de três anos. Esse salão, acreditava Spurgeon, fora preparado por uma maravilhosa providência para precisamente tal ocasião, “pois seu principal uso e benefício para qualquer pessoa, em qualquer sentido, até que foi transformado em hospital, esteve ligado à nossa ocupação dele”. A grande providência incluiu, porém, esse acontecimento. Embora ousasse mencioná-lo, hesitava, “mesmo a esta distância no tempo”, em confiar a si mesmo “a escrever sobre o horror mortal que passou sobre minha alma durante o calamitoso pânico que pôs rápido fim ao primeiro culto naquele lugar”. Reconhecia, contudo, que “Deus maravilhosamente dirigiu o triste evento para sua própria glória, levando vastos números de todas as classes a cercarem o edifício e a enchê-lo continuamente”. Para os sermões impressos, esses acontecimentos “abriram uma porta muito mais ampla do que antes”. 12

Robert Shindler, que conhecia Spurgeon desde 1855, após seu estabelecimento em Londres, e escrevia frequentemente para The Sword and the Trowel, recordou o efeito que a calamidade do Surrey Music Hall teve sobre Spurgeon. Na reunião da União Batista em 1881, vinte e cinco anos depois do acontecimento, anunciou-se que Spurgeon pregaria em Portsmouth. Muito antes da hora do culto, o recinto estava lotado e centenas de outras pessoas faziam pressão para entrar. Isso criou certa confusão justamente quando Spurgeon se dirigia à plataforma para tomar seu lugar. A confusão o perturbou de tal modo que “ele pareceu inteiramente desfeito, e ficou parado na passagem, apoiando-se na mão”. Ele disse a Shindler que a semelhança daquela cena com a do Music Hall era tão vívida que sentia-se totalmente incapaz de pregar. Ele pregou, e, segundo Shindler, pregou bem. O próprio Spurgeon referiu-se a esse acontecimento em The Sword and the Trowel. Ele acreditava que a “vasta audiência tivera um livramento notável de um perigo iminente”. Um jornal havia observado que Spurgeon parecia nervoso, e ele respondeu: “Quem poderia evitá-lo em meio àquela multidão densa, num edifício frágil, com interrupções constantes?” Sua reminiscência pública das cenas que causavam sua propensão ao medo foi expressa em linguagem forte: “O horror de grande escuridão que passou sobre a alma do pregador, poucos podem compreender, senão aqueles que uma vez já viram uma multidão fugir em pânico, e pessoas serem pisoteadas até a morte no tumulto.” 13

A pressão do labor incessante

Durante um episódio de dor particularmente aguda no outono de 1869, Spurgeon teve de explicar por que sua contribuição para o Sword estava abaixo de seu volume habitual. “A dolorosa indisposição do Editor o obriga a abrir mão de suas costumeiras notas mensais, e também da Exposição do Salmo.” Então observou, com uma honesta percepção de si mesmo que permeava toda a sua comunicação: “Pressão excessiva de trabalho produziu um distúrbio cuja raiz é mais mental do que física.” Para ele, a combinação de “dor fatigante, somada à aflição relativa e à responsabilidade sempre crescente”, constituía “um fardo sob cujo peso a força mortal desassistida necessariamente sucumbirá”. Como nada em sua situação temporal lhe trazia alívio ou perspectiva de prazer, confessou: “Um Deus todo-suficiente é a nossa alegria e o nosso regozijo.” 14 Spurgeon às vezes parecia saber melhor como lidar com dor, adversidade e oposição do que com amizade e elogio. Quando um pequeno livro apareceu em 1869 com elevado apreço por seu “Trabalho, e sucesso”, Spurgeon escreveu: “Quando amigos cristãos escrevem em nossa honra, sentimos grande vergonha por tão pouco merecermos seu louvor, e dolorosa prostração de espírito por ter sido dita alguma palavra em nosso favor.” Certamente as opiniões do escritor se deviam mais a “afeição agradecida do que a juízo sereno”. 15 A aprovação pública lhe causava dor, pois cada aclamação parecia produzir o maior estresse de expectativas exaltadas. As crescentes responsabilidades de que falava, incluindo as exigências dos ministérios beneficentes, vinham sobre ele sem cessar e com insistência cada vez mais estridente. O ministério da pregação e da publicação fazia parte desse aumento.

Spurgeon deu vários nomes à sua aflição ao longo dos anos — gota, reumatismo, neurite — combinados com excesso de trabalho, depressão, estresse constante e culpa por sentir estresse. Parecia saber instintivamente que a gota não era a resposta simples para tudo o que lhe percorria o corpo e a mente. Hannah Wycoll observou que sua “condição foi diagnosticada como Doença de Bright, ou nefrite crônica, uma enfermidade dos rins, causando severa dor e inchaço devido ao acúmulo de líquido, o que pode distender o corpo inteiro e restringir gravemente a respiração”. 16 O histórico de gota em sua família torna possível que, em certos momentos, sua queixa corporal proviesse dessa fonte, mas provavelmente a severidade dela se explica em termos do grave agravamento da dor nas articulações pelos sintomas peculiares da Doença de Bright. Os termos e a percepção de Spurgeon governarão a narrativa, mas entenderemos que ele provavelmente tinha mais razões para sua dor do que até ele mesmo sabia.

Mesmo ao celebrar um ministério de vinte anos publicando sermões em 1875, Spurgeon imprimiu uma advertência franca ao sentimento de exultação que tal sucesso lhe trazia. Revisou a história de vinte anos de sermões publicados consecutivamente e admitiu o “desgaste mental envolvido em imprimir um sermão por semana”, e, embora a Escritura seja uma pedreira inesgotável, “a seleção do próximo bloco, e a consideração de como dar-lhe forma, não são assuntos tão fáceis quanto alguns pensam”. Mês após mês, as preparações para o púlpito não são coisas leves, especialmente quando se considera quão fortemente se sente o que está em jogo. 17

O labor implacável tinha um efeito duplo, cujo resultado era um dilema insolúvel. Tendia a aumentar a carga de trabalho exponencialmente e arruinava a condição física, de tal modo que o trabalho se tornava impossível. Refletindo claramente sobre sua experiência pessoal, Spurgeon disse a seus alunos e egressos do colégio: “A chama consagrada, talvez, consumirá vocês, queimando a saúde do corpo com demasiado ardor da alma, assim como uma espada afiada desgasta a bainha, mas que importa? O zelo da casa de Deus consumiu nosso Mestre, e é coisa pequena se consumir seus servos. Se por labor excessivo morrermos antes de alcançar a idade média do homem, gastos no serviço do Mestre, então, glória a Deus. Teremos tido tanto menos da terra e tanto mais do céu.” 18

No fim de 1869, em meados de novembro, Spurgeon foi subitamente posto de lado por um ataque de varíola, que ele chamou de “aquela terrível doença”. Ela o atingiu justamente quando havia enchido tanto sua agenda que precisava estar “em mil lugares”. Orou fervorosamente para que nada da obra sofresse, especialmente o orfanato e o colégio. Spurgeon observou que, em apenas poucas horas, sem saber da indisposição de Spurgeon, um amigo chamou e deixou £500 para o orfanato. “Quão condescendentemente o Senhor assim aliviou a mente de seu pobre servo! Sentimos doce paz e santa alegria ao deixar todo o resto de nossa obra nas mesmas mãos.” Em apenas poucos dias, chegou outro donativo de £1000. Outra vez Spurgeon reconheceu que toda provisão vinha de Deus e com alegria “pusemos nosso selo em que Deus é verdadeiro”. “Temos muitas outras fontes de ansiedade, como a carne as chamaria, mas os graciosos tratos de nosso Deus nos constrangem a chamá-las fontes de alegria, já que nos dão motivo para apelar à sua generosidade.” Ele imprimiu a carta e deixou o doador saber que sua doação encorajava os administradores a receber mais 50 meninos no orfanato e a completar o número de 200 o quanto antes. 19

Em meados de 1871, as dores e a aflição de Spurgeon voltaram com força e com um ataque mais prolongado do que até então experimentara. Reconhecendo que estivera relativamente livre de dificuldades desde o Natal de 1869, escreveu: “No último dia da Conferência anual fomos prostrados por um ataque de nossa mui dolorosa enfermidade. Receamos que ela será nossa cruz até a morte.” O ataque veio sobre ele “como um homem armado, e grande tem sido nossa angústia corporal sob seus golpes.” Teve de suspender seu trabalho pessoal e, por isso, escreveu poucas notas para o Sword mensal. Deu graças a seu irmão e a outros por sua fidelidade e capacidade de “conduzir tão bem os assuntos em nossa ausência. Louvado seja o nome do Senhor.” 20

No mês seguinte apareceu um artigo intitulado “A enfermidade do pastor”, escrito por George Rogers. A natureza debilitante do surto de 1871 de Spurgeon em seu perene encontro aflitivo foi acentuada quando Rogers explicou com franqueza sua totalidade. Spurgeon não podia levantar-se para escrever palavras de “conselho e encorajamento” por causa da “inquietação e dor de sua aflição corporal”. Embora tão abatido de saúde, disse Rogers, ele era “sustentado e animado” pelos relatos da boa frequência no Tabernáculo, da recepção dada aos pregadores e das ofertas feitas para sustentar o colégio e as “várias agências, instituídas por ele como auxiliares de suas ministrações”. A evidente preocupação e as orações de seu povo muito o encorajavam. Ninguém deveria achar estranho, escreveu Rogers, que ministros sejam postos de lado justamente quando parece que sua presença é mais necessária. Eles também estão sujeitos à soberana providência de Deus e devem dizer: “Se o Senhor quiser.” A Escritura e a história confirmam essa realidade, e isso não deve trazer surpresa nem desânimo quando ocorre. O cancelamento de compromissos de pregação deve suscitar oração e compreensão da parte daqueles tão desapontados, e a restrição de quaisquer convites para o futuro certamente deve ser vista como necessária. 21

Rogers tinha sua própria explicação para o que provocara essa crise de forças e de saúde. Ele cria que a agitação da recente conferência do colégio agravara as dificuldades de um estado já quase exaurido e necessitado de férias. A intensa excitação de tantos jovens brilhantes, úteis, valorosos e “valentes soldados da cruz, que haviam bebido de seu espírito e sido treinados por meio de sua instrumentalidade”, submeteu suas fortes sensibilidades à mais severa prova. A inteligência e a devoção, bem como os múltiplos dons e operações da mente evidentes na apresentação dos trabalhos, intensificaram o efeito daquela semana altamente emocional e, ao passo que, em circunstâncias normais, tais operações fortaleceriam e animariam, um corpo e uma mente já esgotados foram levados a um ponto de crise por suas emoções sobrecarregadas. 22

Spurgeon pretendia fazer sua viagem ao Continente para descansar, mas não pôde sequer viajar. Três meses de dor e fraqueza foram tornados mais insuportáveis por uma ausência de treze semanas do púlpito do Tabernáculo. Esperava retomar seu ministério em julho. Apesar das grandes dificuldades enfrentadas, Spurgeon relatou, como dever e também como prazer, a bondade de Deus no acontecimento. “Meu amado povo transbordou de amor por mim. Todos têm sido bondosos. A oração tem sido fervorosa. Nossas várias obras para o Senhor têm sido bem sustentadas. As congregações têm sido excelentes, e as reuniões de oração especialmente numerosas.” Informou a todos os seus leitores que não lhe pedissem que pregasse para eles nos próximos meses, “pois não posso atender a seus pedidos sem incorrer em nova enfermidade.” Quando um amigo sugeriu que ele evangelizasse alguns meses de cada ano e editasse um jornal semanal, reconheceu a bondade da confiança, mas suspirou: “Por que não esperar que eu rivalize com Atlas e carregue o mundo, ou seja o sucessor de Hércules com o dobro de seus labores? Uma nota de cinco libras para o orfanato tem mais valor do que as mais sábias invenções de novas tarefas para um homem sobrecarregado de trabalho.” 23

Uma experiência crônica de graus variáveis

Qualquer ganho de forças encorajava Spurgeon. Amigos começaram a sugerir toda sorte de remédios para suas dificuldades recorrentes. Ele lhes disse que, de fato, estava melhor, embora ainda fraco. Havia realizado um culto em cada domingo durante um mês. “Embora muito pressionados a descansar, a viajar, a fazer uma viagem à Austrália, a ir a uma Instituição Hidropática, a fazer uma viagem à América, a visitar a Suíça, a ficar na Escócia, a experimentar Buxton, Bournemouth, Scarborough, etc. etc., sentimos ser nosso dever começar a trabalhar gentil e prudentemente, pouco a pouco, mas ainda assim começar.” Deu graças a todos aqueles amigos tão preocupados a ponto de sugerirem meios de melhora, mas, embora soubesse estar “sobrecarregado de trabalho”, não encontrava meio de escapar às pressões que seu próprio zelo criara, e recusava-se a seguir qualquer coisa que não fosse o dever. 24

Em setembro, descreveu-se como “inteiramente recuperado”, mas “ainda fraco e incapaz de trabalhar até o seu nível habitual”. Mais uma vez pediu que não lhe fossem feitos convites para pregar, pois apenas teria de recusá-los. Tomar nota disso, portanto, “poupará tanto a eles como a nós o tempo ocupado em escrever cartas desnecessárias”. 25 Em dezembro, finalmente cedeu e informou sua igreja e amigos: “Temos sido capacitados a continuar nosso ministério e outros labores sob considerável dificuldade por causa de saúde frágil, e agora, a fim de obter descanso e escapar aos nevoeiros que encerram o ano, sentimos ser nosso dever fazer uma breve permanência no clima mais quente do sul da França.” 26

Spurgeon recapitulou a experiência com a dor que tanto dominou 1871 no prefácio ao volume encadernado daquele ano de The Sword and the Trowel. A despeito das dificuldades agravantes e debilitantes, assegurou a seus leitores que “misericórdia sem mistura” permeou toda a experiência. A luta lhe ensinou “a contar suas enfermidades dolorosas como suas mais escolhidas bênçãos”. Embora não negasse aos outros esse direito, ele não conseguia “cantar de misericórdia e de juízos”, pois sua música era somente de amor. Spurgeon nunca gostou de puro sentimentalismo nem de espiritualidade irreal e afetada, mas não permitiria que seus leitores pensassem que essa linguagem fosse apenas “sentimento superfino, ou entusiasmo elevado”. Não, escreveu ele “sobriamente e com serena sinceridade”. Havia achado “a aflição doce, e a cruz tão ricamente proveitosa, que é por simples justiça considerá-la uma bênção ricamente paternal”. Sempre pronto com analogias oriundas de suas observações da natureza, comparou o doloroso assalto à sua saúde a uma pá que revolve a terra ao redor de uma árvore e “põe as raízes em liberdade para sorver a gordura do solo”. Se ele pudesse reclamar, então bem poderia “a relva ceifada murmurar contra as nuvens que renovam seu verdor”. Não tinha inclinação alguma para deixar seu “coração proferir uma palavra injuriosa contra a dor e a depressão, que operam em nós os confortáveis frutos da justiça”. Foi tão longe, na verdade, a ponto de “não desejar a nossos leitores bênção mais rica do que a santificação de cada providência para o mais alto bem de suas almas”. 27

Em 1874, Spurgeon suportou as mesmas ondulações de dor e de dor ainda maior. Em março, começou suas “notas” com a confissão de ter uma “mente fatigada”, causada por “dores reumáticas”. 28 Escreveu seu relatório da conferência do colégio de um “lugar deserto”, para onde havia “fugido para recuperar-se do desgaste desta semana excitante”. 29 Em julho, um clérigo anglicano lhe escreveu dizendo que sua gota lhe fora enviada como juízo de Deus por causa de sua oposição à Igreja da Inglaterra. Spurgeon se perguntou, à luz dessa teologia, o que significava a morte do bispo de Oxford por causa de um pescoço quebrado. 30 Em novembro, informou a seus leitores que a maior parte de outubro o viu incapaz de funcionar porque a mudança de estação “trouxe uma afecção reumática, muito dolorosa, porém muito menos severa do que em qualquer ocasião anterior”. Talvez lembrando-se de sua antiga exuberância invencível, refletiu: “Deve ser alto privilégio estar sempre apto a trabalhar para o Mestre com vigor.” 31

Novamente, em 1875, Spurgeon viu-se emboscado pela dor e pela aflição. Tão indisposto estava que nem sequer pôde fazer sua planejada viagem a Mentone, o que o tornou prisioneiro em casa. A dor o havia acometido como um homem armado, tornando suas mãos e pés bons para nada senão sofrer. “Tínhamos muito a fazer, — demais”, queixou-se ele, “e, para nossa tristeza, não podíamos sequer pensar em todas as boas coisas que havíamos planejado.” Tanto seu cirurgião quanto seu médico, com base em anos de observação de Spurgeon, aconselharam-no de que a “doença brota de causas mentais, e pode ser tão seguramente calculada, quando ocorre pressão extra de cuidado ou trabalho, quanto as marés podem ser calculadas pela lua”. Ele teria de descansar e, quando revigorado, estaria novamente em atividade. “É muito triste ser assim detido em plena corrida”, lamentou, “quando há bem a ser feito e tanto dele está diante de nós.” 32

Quando Spurgeon retornou à saúde, sentiu que precisava reservar suas forças para as exigências de cuidar dos ministérios do Tabernáculo. Ao longo de abril e maio de 1876 permaneceu em seu aposento e, quando finalmente foi capaz de pregar no “Dia do Senhor”, informou a seus leitores que seria assim por alguns meses ainda. “Todos os compromissos para pregar fora devem permanecer adiados ou cancelados, e nenhum novo trabalho de espécie alguma pode ser assumido.” 33

Esse apelo parece não ter tido efeito universal, pois no mês seguinte ele rogou aos amigos que “não o pressionassem tão importunamente a pregar todos os dias e em toda parte”. Aos “suplicantes ansiosos” que pediam “apenas um dia em nosso aniversário!”, ele apelava para que “tivessem alguma misericórdia”. Se respondessem ao seu “não” com outro convite explicando por que o convite deles deveria ser uma exceção, ele pedia que incluíssem um selo para que ele não tivesse de perder um penny, bem como o tempo, para dizer não outra vez. “Poderia algum de nossos leitores imaginar quanto custa a correspondência de um homem público?” reafirmou ele. “Façam-na um penny menos, deixando de pedir-lhe que pregue quando ele não está bem.” 34

No início de 1877, Spurgeon novamente foi para Mentone, mas encontrou em Marselha um vento frio que provocou um ataque de reumatismo e “nos causou intensa dor e fraqueza”. Seus amigos lhe enviaram liberalmente seus remédios infalíveis, pelos quais Spurgeon lhes agradeceu profusamente e pediu que tivessem a bondade de “não nos enviar mais remédios: conhecemos pelo menos 50 curas infalíveis, e estamos embaraçados com riquezas médicas que, como o avarento, acumulamos para benefício de outros”. 35 Admitiu que uma das recomendações mais extraordinárias, embora igualmente inútil, era a de que mantivesse um par de rolas ou dois pombos jovens no quarto. No sul da Alemanha, as pombas eram chamadas de “pombas da gota”. A única relação que Spurgeon conseguia ver entre as aves e o reumatismo era que o barulho que faziam acabaria com os breves períodos de alívio que tinha e assim apressaria o fim final de toda angústia.

Preocupação com Thomas

Dada a dor crônica e a enfermidade de Spurgeon, a fragilidade de seu filho Tom deve ter sido uma preocupação constante para os Spurgeon. Charles e Tom foram ambos batizados em 20 de setembro de 1874, aos dezoito anos de idade, por seu pai. Logo se envolveram na pregação em Bolingbroke, numa casa particular. As multidões cresceram e levaram à construção da Capela de Bolingbroke em 1877. Quando ficou claro que Thomas era prejudicado pelo clima inglês, sua mãe aconselhou uma viagem marítima. Seu pai concordou e lhe escreveu: “Você há de pregar, estou certo, mas sem bom preparo não poderá ocupar a posição que quero que você ocupe.” Sem dúvida, o pai tinha em mente uma posição no Metropolitan Tabernacle. “Teologia não deve ser aprendida em sua amplitude e precisão por alguém destinado a ser um instrutor público sem estudá-la a fundo e dominar seus termos e detalhes.” Spurgeon, mais uma vez, ainda que incidentalmente, revelou quão central a teologia era para toda a sua compreensão do ministério pastoral. “Talvez uma viagem dê tônus ao seu organismo”, isto é, possa fortalecê-lo fisicamente para que pudesse suportar os rigores de “dois anos de aplicação constante”. 36 Thomas partiu para a Austrália em 15 de junho de 1877. Spurgeon anunciou isso brevemente no Sword, escrevendo: “Aqui, talvez, nos seja permitido notificar nossos amigos australianos de que nosso filho, Thomas Spurgeon, deixou-nos para Melbourne, em 15 de junho, fazendo uma viagem na Lady Jocelyn por causa de sua saúde. Ficaremos agradecidos a quaisquer amigos que lhe estendam bondade. Ele estará disposto a pregar conforme a oportunidade se apresentar.” 37

A viagem mostrou-se um estímulo para sua saúde. Ele desembarcou na Austrália em 28 de agosto. Logo depois que Thomas chegou, Christopher Bunning entrou em contato com ele e fez com que fosse cordialissimamente recebido por todos. Thomas falou a uma multidão de mais de 4.000 pessoas no Melbourne Town Hall, “com muito proveito para seus ouvintes e crédito para si mesmo”. 38 Bunning descreveu uma viagem que fez com Thomas pelo interior, durante a qual conseguiram realizar várias pregações. Depois de um dia vagueando por milhas de arbustos sem trilha, realizaram um culto num depósito de lenha, onde Thomas, “com habilidade divinamente concedida, combateu desculpas de toda espécie”, enquanto Bunning pregava sobre o Senhor abrindo o coração dos primeiros convertidos da Europa. Outros compromissos de pregação, eventos sociais e oportunidades de testemunho santificaram essa excursão de várias semanas pelo interior. Isso não poderia deixar de ajudar imensamente o espírito de CHS quando Bunning encerrou a carta com elevado elogio a ambos os seus filhos:

Deus fez dele instrumento de muita bênção para muitos, mas acima de tudo, penso eu, para mim e os meus. Creio que o trabalho precedente e outras atividades que Thomas possa realizar nas Colônias, se o Senhor quiser, poderão ser ajuda não pequena para prepará-lo para o que eu oro seja uma vida gloriosamente útil. Preciso alegrar-me com o senhor, amado senhor, pelo fato de que ambos os seus filhos são chamados tão inequivocamente para o ministério do evangelho. Embora talvez não seja lembrado por Charles, agora no colégio, desejo enviar-lhe afetuosa saudação cristã. Ao senhor, honrado Presidente, devo permanecer para sempre, Seu muito agradecido ex-aluno, Wm. Christopher Bunning. 39

Enquanto Thomas encontrava tempo para se refazer, admirava o zelo incansável de um amigo, o Sr. Varley, que pregava todos os dias. Thomas encontrou algumas oportunidades para pregar na Austrália, mas aceitou o tempo de descanso como preparação para maior utilidade futura. Sua mãe resumia suas cartas para casa a fim de publicá-las em The Sword and the Trowel, e seu pai lhe escrevia com a concisão exigida por sua agenda, mas com expressões de esperança para o futuro. “Quando eu tiver você e Char ao meu lado para pregar as mesmas grandes verdades, pela graça de Deus faremos a Inglaterra conhecer mais do poder do Evangelho.” Essas palavras encorajaram Thomas a orar por “plena consagração e por aquele zelo consumidor com que Deus tem ajudado o senhor”. 40 Charles estava “trabalhando bem no Colégio e, espero, sairá dele plenamente equipado”, escreveu seu pai. “Quando você voltar para casa, espero que sua prática na Austrália diminua sua necessidade de formação no colégio, de modo que um ano talvez seja suficiente. Ainda assim, todo homem lamenta, quando já está no campo, não ter-se preparado melhor antes de entrar nele. Veremos.” 41

Em 26 de agosto de 1878, Thomas recebeu o cabo: “Mamãe pior, volte.” Pôde partir em 12 de setembro e chegou em casa perto do fim de outubro. Em novembro, seu pai estava enfermo, e Thomas foi chamado a pregar cinco vezes no Tabernáculo. Essas mensagens foram publicadas sob o título The Gospel of the Grace of God. Seu pai disse que elas eram “cheias da verdade do evangelho, e de viva sinceridade. O estilo está todo em chama, faiscando de metáforas, aquecido de afeto, ardendo de zelo.” Também admitiu que provavelmente estava inclinado em favor do jovem. 42

Em meados de janeiro, Thomas acompanhou seu pai a Mentone, onde seguiu um regime de estudos sob a direção de CHS. Em 13 de abril, já estavam novamente em casa. Thomas entrou no Colégio de Pastores, mas “a saúde frágil interrompia frequentemente sua frequência”. 43 Partiu outra vez em outubro de 1879 para a Nova Zelândia. Esse foi um acontecimento triste para o velho Spurgeon, e ele pregou naquela noite no culto de meio de semana: “Não, senhor meu, eu sou uma mulher angustiada de espírito.” Até a morte de seu pai, Thomas permaneceu na Nova Zelândia e na Tasmânia, com exceção de cinco meses em uma viagem de arrecadação de fundos pela Inglaterra. The Sword and the Trowel, porém, sempre manteve o nome de Thomas Spurgeon diante de seus leitores, em artigos humorísticos, relatos de viagem, sermões e notícias de sucesso evangelístico em tempo integral. Seu pai trabalhou zelosamente entre os amigos apoiadores das capelas e dos labores missionários, para levantar fundos para a construção do Tabernáculo de Thomas em Auckland, Nova Zelândia. Uma efusiva carta de agradecimento de Thomas no Sword foi seguida pela observação de seu pai: “Não temos dúvida de que, quando recebermos um desenho da capela proposta, e a obra tiver começado, os amigos darão ampla ajuda ao nosso filho.” 44

Outra carta e relatório vindos de Auckland levaram Spurgeon a expressar algo de seus temores pelo filho excessivamente sobrecarregado. Thomas tinha “uma pesada tarefa diante de si”, e Spurgeon orava para que, em seus esforços para levantar fundos, “não viesse a sucumbir sob a pressão que isso deve trazer sobre ele”. As cidades da Austrália estavam muito distantes umas das outras, e assim havia o “trabalho e cansaço de uma viagem de coleta para um jovem que não é forte”. 45 A perda da companhia adulta de Thomas, mesmo com o conhecimento de sua fidelidade evangélica nas terras do sul, lançava uma atmosfera de melancolia sobre o espírito de C. H. Spurgeon, pois temia que o excesso de trabalho pudesse produzir luta crônica semelhante com depressão e fadiga.

Depressão e franqueza

Em julho de 1877, Spurgeon teve de cancelar compromissos em Liverpool, Norwich e Maze Pond por causa de dor e enfermidade. Manteve sua agenda em casa, mas pediu aos amigos que não lhe solicitassem que saísse para falar. Se se esforçasse para fazer mais do que isso, sabia que seria “posto de lado com bastante frequência por depressão de espírito e dor no corpo;” preferia, portanto, o relativo recolhimento de prosseguir firmemente com os deveres domésticos, pois a quietude comparativa poderia renovar suas forças para empreendimentos futuros. 46 No início de 1881, estivera doente por cinco semanas e “durante esse tempo fui lançado em águas profundas de depressão mental,” mas ao mesmo tempo tivera mais “quietude de coração do que antes.” 47

Elizabeth Skoglund apontou Spurgeon como um mestre para compreender os mecanismos internos da depressão nos servos fiéis de Deus. Ele também tinha aguda percepção de suas origens mentais e físicas, e ofereceu profundas interpretações teológicas dela. Não analisava a depressão como tendo, sem exceção, suas raízes no pecado. Essa origem era possível e, às vezes, era a explicação mais clara, mas frequentemente a explicação para seu assalto ao espírito estava muito distante de uma disposição pecaminosa, e seu remédio muitas vezes era algo diverso do arrependimento. “Spurgeon estava muito à frente de seu tempo ao perceber essa importante relação entre as emoções e o corpo”, observou Skoglund, percepção que ele adquiriu por causa da conexão que experimentava de modo consistente entre seus males crônicos e sua depressão sempre recorrente. 48 Ao compartilhar abertamente sua dor, de corpo e de espírito, Spurgeon tornou-se grande fonte de consolo e conselho para outros. Sua própria vulnerabilidade a essa condição e as críticas que recebia por causa dela tornaram-no agudamente sensível à experiência de outros e permitiram-lhe encontrar exemplos escriturísticos e teológicos para explicar essa condição humana tão comum, embora nem por isso menos aflitiva. Skoglund observou com acerto que “as nuvens negras da depressão nunca deixaram permanentemente a vida de Spurgeon até que ele foi estar com seu Salvador.” 49

Skoglund também recorreu a alguns sermões de Spurgeon para mostrar que o próprio Cristo sentiu depressão, obviamente não de modo pecaminoso, mas como resultado do impacto de seu conhecimento de que misericórdias antes sustentadoras agora lhe estavam sendo retiradas. Ele começou a entristecer-se profundamente, como nos dizem os Evangelistas, e, se quisermos ter alguma espécie de simpatia com ele em sua tristeza, “às vezes até para nós os gafanhotos precisam ser um fardo, para que em todas as coisas sejamos semelhantes à nossa cabeça.” 50 Sua pesquisa do progresso de Spurgeon desde o início de seu ministério até sua morte convenceu Skoglund de que “Apesar de, e muito provavelmente por causa de, a depressão na vida de Spurgeon, ele se tornou um gigante espiritual para Deus.” Skoglund encontrou na experiência de Spurgeon e em sua capacidade de analisá-la cuidadosamente um auxílio profundo no aconselhamento de cristãos que caminham sob as sombras de uma peregrinação nublada.

O aluno e biógrafo de Spurgeon, J. C. Carlile, viu em Spurgeon esse mesmo elemento de edificação por meio da maneira como suportava a dor constante. Carlile observou que a maior parte da carreira de Spurgeon “foi vivida em comunhão com a dor física.” Ao suportá-la ele próprio com resignação animosa, o sofrimento contribuía “para o consolo e fortalecimento de outros.” Nos anos posteriores, ao sentar-se desconfortável e pesadamente na cadeira em seu aposento particular, conversar era difícil, pois a respiração lhe vinha apenas com dor e, mesmo sentado, apoiava-se fortemente em sua bengala. “Hoje o inimigo me pegou,” disse certa vez, “em ambos os joelhos. Receio que não poderei caminhar até a plataforma.” Começou a árdua caminhada endireitando-se, apertando os lábios, e ficou de pé com a ajuda de sua bengala de um lado e de um braço que o amparava do outro. Ao longo do corredor ele lutava para seguir, e então entrava na sala do Colégio, onde, como recordou Carlile, “as vigas ressoavam com as boas-vindas de cento e vinte homens.” Endireitou-se ainda mais, alcançou a plataforma e sentou-se. “Então o inimigo lhe deu outra pontada; seu rosto se contraiu por um momento, mas, quando levantou os olhos com nova luz no olhar, disse: ‘Deus dá a alguns um talento para sofrer.’” Refletindo seu próprio juízo e as conversas que teve com os homens presentes, Carlile observou: “Naquela tarde muitos homens sentiram vergonha de alguma vez terem falado de suas mesquinhas dores e pequenas indisposições. Tinham visto uma grande alma em agonia física.” 51

Os anos difíceis de 1878 e 1879

Quando chegou o tempo de concluir o trabalho editorial de The Sword and the Trowel em dezembro de 1877 para a revista de janeiro de 1878, a primeira entrada nas notas declarava: “O Sr. Spurgeon está completamente afastado e em uma condição de dor que o impede de fazer qualquer coisa.” 52 Em janeiro, “exausto pelo cansaço do cérebro”, Spurgeon partiu para um período de descanso. A cada ano, certos sintomas apareciam com “dolorosa força” e indicavam que “a tensão sobre a mente precisava ser afrouxada ou os períodos de descanso prolongados.” A tensão do ministério de uma congregação tão grande, combinada com as crescentes responsabilidades das obras beneficentes, tornava necessário tomar providências para “transferir parte do fardo para outros ombros.” 53

No que dizia respeito à própria congregação, Spurgeon sentia um peso crescente por causa das estatísticas de aumento e diminuição. Quando 1877 produziu um aumento bruto de 437, desligamentos de vários tipos de 337, resultando em um aumento líquido de 100, Spurgeon suspirou: “É notável quão grande um aumento bruto é necessário para produzir qualquer aumento claro. À medida que uma igreja envelhece, essa dificuldade aumenta, e grande obra precisa ser feita para pouco resultado estatístico.” A questão importante, contudo, era que “almas são salvas e, quer outras igrejas na terra ou as hostes triunfantes no alto sejam as beneficiadas, é igualmente motivo de regozijo.” 54

Os diáconos sugeriram que ele tirasse algumas semanas extras de folga. Um deles, de fato, sugeriu doze, pois às vezes mesmo sete ou oito semanas não bastam para uma recuperação completa. O diácono tinha um cavalo que era “tão boa peça quanto já viveu, mas livre demais (muito parecido com o senhor), e se excessaria se tivesse oportunidade, e por fim ficou estranho das pernas e tonto da cabeça.” O cavalo precisou de três meses em bom pasto para recobrar as forças e o equilíbrio e, “sendo vendido, alcançou o preço original.” 55 Spurgeon não tinha desejo de ser vendido a preço algum, mas sorriu com a comparação congenial. Parecia melhorar “a cada cinco minutos”, disse ele, e via Mentone como um “retiro encantador, sem rival por seu calor, sol e paisagem.” 56 Não apenas o clima e a paisagem eram um tônico para Spurgeon, mas ele achava a comunhão notavelmente encorajadora, pois ministros tanto da Igreja quanto dos Dissidentes formavam uma “Aliança Evangélica prática.” O ministro e evangelista da Igreja Francesa eram muito atenciosos tanto com os visitantes quanto com os mentoneses.

Em julho de 1878, Spurgeon não pôde cumprir um compromisso de pregar em Witney, “pois o tempo severo nos confinou ao leito.” O pai de Spurgeon foi em seu lugar e o substituiu bem. Spurgeon deixou claro que temia assumir compromissos, “pois tão frequentemente somos postos de lado da maneira mais dolorosa, e o resultado é desapontamento.” Quando se soube que ele estava indo à Escócia para descansar, os pedidos de sermões ao longo do caminho começaram a se acumular. Spurgeon ficou perplexo com isso, não sabendo bem como processar tamanha bondade severa. Não perdeu seu senso de humor e ironia ao descrever sua perplexidade. Convites vinham de “grande número de cidades escocesas, e de lugares em cada uma das três linhas férreas, mas fomos suplicados a fazer apenas uma breve parada de algumas horas e pregar no norte do País de Gales, bem como na costa de Cumberland, que, como todos sabem, também ficam no caminho da Escócia, se a pessoa assim quiser.” Ele não conseguia calcular quantos pennies havia sido multado na forma de selos postais por fornecer respostas negativas a todos esses pedidos. Apenas uma parada de duas horas e pegar o próximo trem, multiplicado por doze, tornava duvidoso que algum dia chegasse à Escócia. “E isso quando um homem está saindo de férias!” Para Spurgeon, a coisa não era tão simples quanto apenas dizer: “Não”, pois ele preferiria ser açoitado a recusar um convite para pregar. Como sucedeu, a saúde de Spurgeon, ou a falta dela, causou o adiamento das férias. 57 Ninguém precisava, portanto, ofender-se, pois Spurgeon não se aproximou das cidades que o haviam convidado, mas encontrou seu repouso num leito doloroso.

Logo ele já pôde viajar, e foi para a Escócia. Um amigo, o Sr. Duncan, tinha um iate, e os dias eram passados “cruzando mares ensolarados, e geralmente ancorando à noite em baías solitárias”. Ali as distrações não vinham do ronco do tráfego nem do ruído incessante da vida urbana, mas do “grito das aves marinhas, o clamor da foca, e o salpicar dos peixes que saltavam”. Ali ele experimentou um banho de descanso, intenso deleite e repouso, pelo qual expressou gratidão, algo que nenhuma “exibição, recreação artificial, ou preparação médica pode proporcionar”. 58 Contudo, ele não apenas observava, mas pescava, e achava o tempo estimulante. Ao usar sua pescaria como ilustração para o evangelismo, descreveu o que deve ter sido uma experiência vívida a bordo do iate. “É muito encorajador sentir que alguma grande criatura de algum tipo está puxando do outro lado da linha. Tragam-no logo para cima! Melhor ainda é ter dois anzóis e puxar dois peixes de uma vez, como um de nossos amigos fez. Fazer isso duas vezes por minuto, ou tão depressa quanto se possa lançar a linha, é melhor de tudo. Que excitação! Ninguém se cansa, e o dia mal é longo o bastante. Puxem-nos para cima, recolham as linhas! O quê, outra mordida? Rápido! Rápido! … Isto é boa pescaria.” 59

Em 10 de novembro de 1878, Spurgeon adoeceu e chamou seus filhos para pregarem em seu lugar. “O filho Tom” entrou na brecha, assumindo o culto da noite, que havia sido especialmente planejado para “visitantes”, a ocasião trimestral em que os ouvintes habituais de Spurgeon ficavam em casa para permitir que outros assistissem. Tom pregou cinco vezes, e Charles uma. Spurgeon escreveu: “Tem sido um deleite nada comum para ambos os pais enfermos ouvir por toda parte os juízos altamente favoráveis do povo de Deus quanto à utilidade presente e à futura eminência de seus filhos.” 60

Spurgeon pregou uma vez em dezembro e, em meados de janeiro, foi para seu retiro na França, em Mentone. Segundo Fullerton, esse lugar, “de todos os pontos da Riviera Francesa, era o retiro escolhido durante o último quartel do século dezenove por aqueles que buscavam sol de inverno longe das frivolidades da moda”. 61 Thomas Spurgeon o acompanhou nessa viagem. Spurgeon quis dar alguma atenção especial às leituras do filho e lhe designou French Revolution de Carlyle e Outlines of Theology, de A. A. Hodge. Durante essa estadia, o jovem Spurgeon conheceu George Muller, Hudson Taylor e John Bost.

Durante a permanência em Mentone, ele escreveu à sua congregação.

Aos ouvintes no Tabernáculo e em outros lugares

Amados amigos

Pela terna bondade de Deus, a viagem até aqui foi feita sem fadiga excessiva, e agora espero que o clima ameno traga consigo rápida restauração. Este lugar participou do clima rigoroso. Ele varreu o continente, de modo que, neste momento, sinto falta do sol brilhante ao qual antes estava acostumado; contudo, é comparativamente quente e, até onde vai, é benéfico para um inválido. O descanso é a principal coisa, e espero descobrir que poderei voltar a vocês fortalecido para o serviço sagrado.

É a pedido de muitos que escrevo estas poucas linhas; de outro modo, eu estaria mais contente em nada dizer acerca de mim mesmo. Cambaleando hoje sobre meu cajado em fraqueza, olho esperançosamente para o tempo em que estarei entre vocês em plenitude de vigor. Deus conceda que me sejam dadas força mental e, acima de tudo, força espiritual para a pregação da palavra em vosso meio, de modo que minha longa aflição corporal ajude para esse fim. Confio que não serei esquecido em vossas orações quando tudo estiver bem convosco; espero também que os vários empreendimentos, tais como o Colégio e o Orfanato, não sejam deixados definhar porque o Presidente está enfermo. Paz seja com todos vocês.

Muito cordialmente vosso,

C. H. Spurgeon

No Prefácio ao volume de 1879 de The Sword and the Trowel (escrito provavelmente em dezembro ou no fim de novembro de 1879), Spurgeon resumiu a dolorosa luta com enfermidade e depressão experimentada durante o ano. “Suas primeiras horas viram o Pastor prisioneiro, incapaz de levantar-se do leito de dor.” Isso o levou a tirar uma “licença de três meses, durante a qual cessou sua dor corporal, seu ânimo reviveu, e sua mente se recuperou de uma pressão que de algum modo a havia sobrepujado.” As exigências sobre cabeça e coração geradas por ministrar a uma congregação tão grande, bem como por superintender tantas formas de trabalho cristão, Spurgeon achava impossível descrever a quaisquer, exceto àqueles que as haviam sentido por si mesmos. “Não é de admirar que às vezes a tensão seja grande demais, e mente e espírito afundem em dolorosa depressão”, confessou Spurgeon, “da qual não há recuperação senão pelo descanso.” 62 Essa licença de três meses foi precedida por dois meses de tal debilidade que Spurgeon teve de pedir a outros que ocupassem seu púlpito de 10 de novembro até sua partida em janeiro. Durante esse tempo, escreveu que desejava “que zelo e fervor não fossem restringidos e embaraçados por estarem jungidos a dolorosas enfermidades da carne.” Queria que seu povo e todos os seus amigos soubessem que certamente faria mais “se não fôssemos prostrados justamente no momento em que nosso trabalho requer nossa presença.” Comprometeu-se a que cada intervalo de alívio seria “empregado em seu serviço.” Como foi mencionado acima, seus filhos estavam entre aqueles que o supriram, tendo Thomas preenchido cinco dos cultos. 63

Nos estertores desse assalto, Spurgeon tentou responder à necessidade de escrever alguma peça memorial relativa à celebração de vinte e cinco anos na igreja. Spurgeon escreveu: “Nossa má saúde neste momento mal nos permite segurar uma pena ou ditar palavras a outrem; devemos, portanto, deixar para outra ocasião tais expressões de gratidão quanto a plenitude de nosso coração permitir.” Ele havia experimentado muitas bênçãos comuns pelas quais era agradecido, mas os abundantes e extraordinários favores que lhe foram concedidos no relacionamento com seu povo ao longo desse semijubileu não podiam ser “devidamente reconhecidos com línguas de homens ou de anjos, a menos que uma feliz inspiração levasse o agradecido para além de si mesmo.” 64

Ao escrever as “Notas” para janeiro, sua enfermidade debilitante de novo veio ao primeiro plano. “Se houver erros nas notas, ou no reconhecimento dos bens, ou em qualquer outra coisa, espera-se e crê-se que a má saúde do editor será desculpa suficiente. Fizemos o melhor que pudemos; mas, com um cérebro dolorido e cansado, que é a raiz de nossa enfermidade, não podemos deixar de falhar de muitas maneiras.” Embora a celebração do mês fosse sobre seu ministério, ele se manteve o mais afastado possível da agitação. Pediu que os amigos o compreendessem e desculpassem se continuasse a fazê-lo, “pois nossa cabeça não o suporta.” Ao mesmo tempo em que era pressionado ao limite em dor e aflição, relatou que “a Sra. Spurgeon tem passado por um tempo muito penoso de dor e fraqueza.” Ela se sentia incapaz da tarefa de escrever um relatório sobre o fundo para livros. Seu marido a teria ajudado, mas ele também havia sido posto de lado, “revirando-se de um lado para outro em dor.” 65

No mês seguinte esse estado prostrado continuou, com um correspondente senso de misericórdia. “Durante as últimas semanas, longas semanas de fato, fomos postos de lado por enfermidade. Houve intervalos de capacidade para escrever, como nossos leitores verão pelos artigos nesta e na revista do mês passado, mas na maior parte do tempo fomos um prisioneiro, sob restrições para cessar o trabalho.” Spurgeon representava seu caso como um de felicidade e favor, cheio de misericórdia, mas com dores agudas necessárias e labores excessivos para que a alegria não saísse de seus limites. Esses fenômenos contrastantes da vida destinavam-se a equilibrar-se mutuamente. Em meio a tudo isso, disse Spurgeon, “Estamos agora recuperando forças e, antes que esta folha encontre o olhar do leitor, esperamos estar fora dos frios e das umidades, no sul da França.” Estava cercado de amigos íntimos e “o amor flutua na atmosfera que respiramos.” Mais uma vez, Susannah não poderia acompanhá-lo. Recomendou-a aos seus amigos, para que não a esquecessem em sua ausência. Os oficiais da igreja haviam feito um apelo sincero para que ele tomasse tempo suficiente de descanso para o bem mais duradouro de seu ministério entre eles. “Nós o imprimimos”, observou Spurgeon, “porque interessará a alguns de nossos amigos.” 66

Caro Pastor,

É com muita sinceridade e amor que nós, seus oficiais da igreja, desejamos apresentar-lhe este nosso apelo unânime.

Consideramos ser o caminho da sabedoria que o senhor ponha de lado por três meses seus deveres públicos em nosso meio, a fim de obter o descanso completo de que tanto necessita. Seus muitos labores, em tempo e fora de tempo, nos quais nos alegramos de todo o coração, levaram-nos à conclusão de que, a menos que o senhor renove suas forças por meio de uma longa interrupção do trabalho ativo, será impedido de continuá-lo no futuro. Nossos corações têm se entristecido profundamente pelo sofrimento e fraqueza que o têm acometido com tanta frequência ultimamente, e, portanto, julgamos imperativo que o senhor experimente o efeito de uma mudança completa de cenário por três meses. Faremos quaisquer arranjos que o senhor desejar para a condução de seu trabalho enquanto estiver ausente, mas, mui afetuosamente e ainda assim firmemente, insistimos em nosso juízo unânime para sua consideração. Sentiremos muito sua falta e saudaremos com alegria seu retorno aos seus amados e prósperos labores; ainda assim, não podemos deixar de ver que o senhor está se desgastando em seu posto e deve poupar-se para o futuro bem-estar e serviço, não apenas de nossa própria amada igreja, mas de todo o mundo cristão.

Os oficiais não apenas enviaram esta carta, mas providenciaram que tudo fosse devidamente cuidado durante a ausência do pastor. Quando se tratava de cuidar de seu pastor, não faziam nada pela metade.

Em meados de março, na companhia de muitos amigos, Spurgeon podia dizer que estava melhor, “embora fraco dos joelhos, e sujeito a agudas dores reumáticas a cada mudança de tempo.” Esperava voltar para pregar no segundo domingo de abril. As condições em Mentone sempre o ajudavam. O ar de Mentone era seco, o tempo geralmente bom, e o Hotel de la Paix, bem ordenado em todos os aspectos, lhe proporcionava todo conforto e hospitalidade concebíveis. Estava cercado de “amigos da mais excelente espécie, que parecem vir e partir em sucessão, como que por arranjo.” O Dr. Bennet, seu médico, como de costume, “exercia sua melhor habilidade para nossa recuperação.” 67

Ele viu Hudson Taylor, bem como George Muller. Ambos eram amigos de Spurgeon, e ele os admirava grandemente. Nesta ocasião, a respeito de Muller, escreveu: “Contamos como alegria extraordinária ter-nos sido concedido estar com este homem de Deus. Sua pregação é muito espiritual e fortalecedora; mas em particular ele nos impressiona ainda mais. Sua evidente felicidade e santa serenidade leem uma bendita lição para alguém que é por demais propenso a abater-se.” Prometeu escrever algo sobre alguns de seus visitantes “se nossa mente estiver em condição apropriada.” Cumpriu essa promessa para a edição de maio. Enquanto isso, prosseguiu, dizendo: “Estamos revigorados em espírito, e fortalecidos nos nervos, embora um tanto perplexos com o relatório da Sociedade de Colportagem, o qual desejamos levar perante o Senhor em oração, ao mesmo tempo que usamos os meios, informando o povo.” Spurgeon confessou a necessidade de uma grande medida de fé e, com sua habitual e adequada simplicidade, sentia-se confiante de que o Senhor supriria as necessidades de sua própria obra. “Não podemos nos dar ao luxo de ficar ansiosos, pois isso nem honraria o Senhor nem beneficiaria nossa saúde mental ou física.” Mais tarde, descreveu a necessidade imediata que o ministério de colportagem tinha de uma injeção de £1.000. 68

Dor e benevolência

Aquela nota concernente ao ministério de colportagem apontava para a realidade de que as benevolências que floresciam sob sua superintendência também desgastavam suas reservas emocionais. Sua relação com elas gerava uma manifestação crescente de confiança, bem como uma fonte cada vez mais profunda de aflição. Esse processo havia começado anos antes.

A urgência saturava suas palavras em 1870 quando escreveu: “Perdoar-nos-ão os amigos por lembrá-los de que a maior bondade que podem fazer-nos é impedir toda tentação à ansiedade de espírito de nossa parte, suprindo com regularidade de liberalidade as necessidades do Colégio, do Orfanato e da Colportagem.” 69 Dois anos depois, continuou a expressar essa urgência por meio de seu apreço pelas maneiras criativas com que os doadores de pequenas ofertas procuravam ampliar seu impacto para o bem. Spurgeon fez menção especial a “várias pequenas quantias de homens trabalhadores que foram levados a ajudar o orfanato por meio da leitura de John Ploughman’s Almanack”, elogiando suas sugestões para aumentar as receitas. Um desses leitores “quer que exortemos algumas centenas de trabalhadores a enviar 2s. 6d. cada um, como ele fez, e assim aumentar a renda”. Spurgeon lhe agradeceu por sua liberalidade espontânea, esperou que outros o imitassem por amor aos órfãos, e recomendou tal generosidade exclamando: “Quanto mais, melhor.” Quando outro leitor enviou meia coroa, reconhecendo que o Almanack a valia, “John Ploughman tira o chapéu àquele amigo”. Outro leitor de John Ploughman predisse grande venda para o livro e anexou quatro guinéus, como “equivalente por 1.000 exemplares, para os Fundos do Orfanato de Stockwell, confiando que muitos de seus leitores sigam o exemplo”. 70

A combinação de “astuto bom senso inglês” e oração foi exibida plenamente numa fala em reunião de oração em agosto de 1881. As viagens de verão muitas vezes faziam as pessoas esquecerem-se das necessidades constantes lá em Londres e, assim, confessou Spurgeon, causavam “provação da minha fé”. “Vejo as águas baixando, e às vezes os topos das rochas ficam descobertos, e posso ver as algas e a lama, e não aprecio nada essa visão.” Ele preferiria ver bastante água navegável “para a frota da caridade”. Embora agradecido por nunca terem estado realmente em dívida, também esperava mais regularidade nas contribuições. Com a recente adição do orfanato para meninas, confessou uma provação da mente: “Digo a mim mesmo: ‘Não vejo mais pessoas tomando parte na obra’, e surge a pergunta: ‘Como, afinal, você as sustentará?’” Sua resposta era que ele não sabia, mas Deus sabia e podia encontrar os meios. Ele não lançará fora uma “boa obra que é empreendida por amor dele”. Assim, exortou os 1.500 presentes na reunião de oração: “orem sobre isso, para que não seja verdade que não temos porque não pedimos.” Falou com urgência, rogando oração por todas as agências igualmente úteis, não porque “eu tenha alguma ansiedade incrédula, mas porque o Senhor disse: ‘Ainda por isto serei consultado pela casa de Israel, para lho fazer.’” 71 Cada nova benevolência, cada nova sociedade, cada fundação de uma igreja numa área necessitada acrescentava ao fardo mental de Spurgeon, aumentava a urgência de seu apelo aos amigos contribuintes, e dava novo impulso à oração importuna diante do trono da graça.

Às vezes, Spurgeon parecia usar sua saúde como alavanca para obter apoio financeiro. Em 1871, pediu a seus ouvintes que, “se são beneficiados pela palavra que prego, e desejam mostrar sua gratidão”, lhe fizessem uma bondade pessoal contribuindo para o Orfanato de Stockwell. “Não estou suficientemente bem para suportar ansiedade”, informou-lhes, “e espero que aqueles por quem tenho trabalhado me preservem dela pela constância de seu apoio a esta e às minhas outras Instituições.” Se o apoio fosse constante e suficiente, isso o guardaria contra “depressão de espírito, e me alegraria no serviço de meu Senhor.” 72

Antes de partir em 1874, informou seu povo de que havia orado por “alguma pequena reserva em caixa para durar enquanto estivéssemos ausentes.” Tal provisão o livraria da “tentação de preocupar-se com finanças enquanto busca descanso.” Sua oração havia sido ouvida “em certa medida”, e os fundos aumentaram. “Nunca tivemos tantos sinais de amor de nossos amigos como justamente agora. A todos agradecemos e tomamos ânimo.” 73

Um ano depois, quando uma dolorosa crise o acometeu em janeiro, Spurgeon mencionou brincando todas as prescrições que os amigos lhe haviam dado para curar a gota, as quais certamente o teriam matado se as houvesse tomado. No início da vida, antes que sua própria aflição se tornasse evidente, o próprio Spurgeon havia sido humorístico ao sugerir uma cura para a gota de seu avô, supondo que ele devia ter gota na mão, já que não respondera às suas cartas. “Se ele está vivo”, gracejou Spurgeon, “e não foi para além-mar, faça o favor de dar-lhe meu afetuoso amor na primeira vez que o encontrar, e diga-lhe que suponho que ele deva ter gota nas mãos, de modo que não pode escrever.” Se assim fosse, sugeriu Spurgeon, “mantenha todos os vinhos e bebidas fortes longe dele, pois são coisas ruins para pessoas gotosas; e tenha a bondade de fomentar-lhe as mãos com água morna fervida com cabeças de papoula. Com esse tratamento, o inchaço diminuirá.” Nesse ponto, Spurgeon sugeriu que o amigo fictício a quem compunha essa missiva colocasse seu avô diante de uma mesa, pusesse uma pena em sua mão, fizesse com que escrevesse seu nome e a colocasse no correio. “Ah, é coisa triste”, observou o saudável Spurgeon de dezenove anos, “as pessoas ficarem gotosas!” 74

Spurgeon havia ficado gotoso e agora não tinha remédios a sugerir senão um. O melhor remédio para ele, se os amigos realmente estavam preocupados com sua melhora, seria “liberdade de qualquer ansiedade acerca do Colégio, do Orfanato, ou da Colportagem enquanto estivermos ausentes. Se os fundos se mantiverem, e as obras forem levadas adiante por aqueles nelas engajados, e especialmente se o Senhor abençoar os empreendimentos, isso nos será melhor do que todas as loções, linimentos, específicos e elixires juntos, com vinte espécies de magnetismo acrescentadas.” 75

Mais uma vez, em 1879, vemos quão de perto Spurgeon cria que sua saúde estava ligada aos níveis de ansiedade provocados pela segurança ou insegurança do apoio financeiro às benevolências. Ao preparar-se para deixar a Inglaterra em novembro e dezembro a fim de escapar aos nevoeiros, para evitar a enfermidade que regularmente o atacava nesses meses, com a esperança de saúde e forças melhores para o restante do inverno, pensou imediatamente no estado financeiro da obra de caridade. “Nossa única dificuldade é que durante nossa ausência os fundos diminuem”, lembrou Spurgeon aos amigos leitores, “e, portanto, seria grande alívio se os depósitos estivessem bem reabastecidos antes de sairmos de casa. Isso tornaria nosso feriado duplamente repousante.” 76

Seus leitores acostumaram-se a esses apelos por fundos para garantir-lhe a saúde e respondiam imediatamente ao ouvir falar de seus planos de ir ao Continente. Isso também se tornou certa alavanca em suas mãos. Quando partiu em novembro de 1881, conduziu seu apelo nessa linha. “Os amigos que se interessam por nossa obra aliviarão grandemente nossa mente se enviarem ajuda especialmente abundante para todas as instituições enquanto estivermos ausentes”, lembrou ele a seus leitores, e então acrescentou: “Tivemos outrora amigos vigilantes que prontamente enviavam auxílio generoso sempre que viam que o pastor estava enfermo, pois pensavam que isso seria ministrar à sua saúde se mantivessem toda obra em bom funcionamento.” Então veio a suave aplicação para tal sensibilidade continuada: “Alguns desses amigos ainda sobrevivem, e o Senhor está preparando mais, pois sua obra não deve vacilar.” 77

O sustento dessas benevolências estava constantemente em sua mente. A perspectiva de preocupar-se, preocupava-o. O espectro do medo o fitava de tal maneira que ele precisava de evidência de bênção para cobrar ânimo. Com o aumento da responsabilidade nos anos vindouros, o preço emocional e mental cobrado da saúde de Spurgeon se multiplicaria. Antes do bazar em janeiro de 1882 para completar o financiamento do orfanato das meninas, Spurgeon sentiu um de seus velhos inimigos insinuando-se de novo em seu corpo. Uma mobilização maciça de amigos por toda a Inglaterra estava em andamento, reunindo bens e pessoas suficientes para uma extraordinária arrecadação de renda. “Seria um grande conforto”, disse a seus leitores, “receber apenas uma linha assegurando-nos de que nossa confiança está bem fundamentada.” Então disse ao leitor que “os nevoeiros estão vindo sobre nós, e o Pastor se encontra em temor diário de uma volta do reumatismo; em cujo caso terá de deixar de imediato esta terra de umidades.” Mas como poderia ele ir embora com tamanha pressão por sua presença neste estágio crítico do desenvolvimento dos planos e da publicidade? “Contribuiria para a saúde”, informou, “ver a boa obra avançando com vigor.” 78 A preparação do bazar precisava continuar em sua ausência e certamente seria bem-sucedida se “cada membro da igreja, cada leitor de sermões, e cada assinante da revista” enviasse alguma coisa. “Lembrem-se”, instou ele, “isto é para as meninas, e os pequeninos pleiteiam por si mesmos.” 79

As alturas de alegria geradas pelos brilhantes êxitos de cada respectivo afluxo caritativo exigiam uma correspondente efusão de mente e coração de Spurgeon de um modo que nenhum outro mortal podia entender, e nenhum outro mortal podia suportar. Embora se cercasse de administradores capazes, de igual pensamento quanto à doutrina e à preocupação, nenhum podia tomar seu lugar no apelo público gerado por cada empreendimento. Era o Tabernáculo de Spurgeon, o Colégio de Spurgeon, o Orfanato de Spurgeon, os pregadores de Spurgeon, os colportores de Spurgeon, os asilos de Spurgeon, e os órfãos de Spurgeon. Ele não conseguia empurrar nada disso para fora de seus ombros; sabia que seu apelo, sua presença, seus relatórios, sua ambiência especial de justificação para cada ministério garantiam o êxito. Nem um minuto de qualquer dia estava livre de uma exigência sempre crescente sobre suas habilidades de apelo, sua facilidade de explicação, seu rosto como monumento de confiabilidade, e seu ministério como fonte de “ofertas de gratidão” para o investimento do povo. Para onde poderia ir, sem que essa responsabilidade o seguisse; o que poderia fazer para ausentar-se sequer por um momento do cuidado de tantas pessoas, do pagamento de tantos salários, e da manutenção de tanta propriedade? Isso exigia, ademais, não apenas gênio administrativo e investimento incessante de juízo sábio e experimentado, mas a suposição de contínua bênção espiritual sobre sua vida e ministério. E se isso cessasse?

Spurgeon fez questão de que ninguém pudesse duvidar de seu compromisso com o financiamento das agências e de que ele pessoalmente se sacrificava pelo bem-estar delas. O começo da celebração dos vinte e cinco anos viu a liderança do Tabernáculo propor que um presente, um testemunho, fosse dado ao pastor. Spurgeon aprovou o levantamento da oferta comemorativa, mas recusou-se resolutamente a receber qualquer parte dela como presente pessoal. Embora um presente a um pastor por longo serviço fosse um gesto digno, e em muitos outros casos fosse correto que pastores assim honrados recebessem alegremente a oferta para reservá-la para suas famílias, “em nosso próprio caso não nos pareceu de modo algum apropriado que a oferta viesse para a nossa própria bolsa”. Embora não fosse pecado recebê-la, sua consciência e seu coração se revoltavam contra a ideia. Ele não queria monopolizar uma honra que, na realidade, pertencia à igreja inteira. Propôs que a oferta fosse levantada, mas destinada ao auxílio dos pobres da igreja. “Ajudar a igreja em seu santo dever de lembrar-se dos pobres, que é a aproximação mais próxima de lembrar-se do próprio Cristo, pareceu-nos ser o uso mais elevado do dinheiro.” 80

Ele começara a preparar isso um ano antes, quando se aproximava do fim de vinte e cinco anos de ministério na congregação. Em janeiro de 1878, disse aos diáconos que o “fardo mais pesado eram os Asilos”. Tinham um fundo escassamente dotado, suficiente para seis viúvas, mas agora sustentavam dezessete. Isso, somado às dádivas aos pobres, incluindo os membros pobres, excedia £1.000 de despesa a cada ano. Pediu, portanto, que se fizesse um esforço para levantar uma dotação de £5.000, e “essa parte da obra da igreja ficaria em ordem adequada”. Consideraria isso uma maneira apropriada de celebrar seu jubileu de prata de ministério. Embora ele próprio pudesse suportar o fardo, não gostaria de deixar tal carga para seu sucessor, caso viesse a ser chamado em breve. Sua administração não seria bênção alguma se a igreja viesse a descobrir que possuía instalações em que as viúvas poderiam morrer de fome, mas nenhuma provisão para seu pão diário. Quando chegou a ocasião, portanto, o cuidado pelas viúvas foi aumentado, e o leito de dor que ele ocupava foi suavizado. “Durante todo o tempo em que estivemos revolvendo-nos de um lado para outro em dor”, contextualizou pessoalmente Spurgeon, “o dinheiro para os vários objetivos tem afluído numa proporção raramente experimentada antes. Parece como se o Senhor tivesse ordenado aos seus mordomos que cuidassem em dobro de nossa obra enquanto sofríamos. A Deus seja o primeiro louvor, e então a cada doador nossa gratidão pessoal.” 81

À medida que as entradas para o Memorial continuavam a chegar, Spurgeon comentou novamente sobre a relação entre a generosidade deles e sua saúde. Contemplando uma viagem a Mentone, observou: “Este descanso se torna ainda mais verdadeiramente repousante pelo fato de nossos assinantes terem sido duplamente generosos para com os vários fundos, e assim nos fazerem sentir que nenhuma obra sofrerá enquanto estivermos ausentes.” Mesmo com a possibilidade de tal aumento na dotação, Spurgeon não podia permitir que alguém esquecesse que “a despesa com os vários empreendimentos continua”. Sentia alívio, contudo, na presente segurança, tanto terrena quanto celestial, de “um bom saldo em caixa em todas as contas, e a certeza de que corações bondosos não se esquecerão de manter todas as necessidades supridas, e acima disso, a confiança de que nosso Deus suprirá todas as nossas necessidades”. 82 As doações haviam alcançado £2.300, com a promessa de mais £1.000. Ele continuou firme em sua determinação, apesar dos esforços para convencê-lo do contrário, de que nenhuma porção seria mantida para si mesmo, mas que dividiria a quantia entre as várias instituições. O comitê insistiu, contudo, em marcar o acontecimento com uma placa na sala de aula do Asilo e em dar alguma lembrança da ocasião à casa dos Spurgeon — “algum bronze substancial, ou peça de mobiliário, com uma inscrição apropriada” 83 Ao fim do ano, quando Spurgeon escreveu o prefácio para o Trowel de 1879, relatou um total final da dádiva memorial de testemunho, dada por “nosso amado povo”, de £6.223 10s 5d. Spurgeon teve o prazer de entregar tudo aos administradores para a obra do Senhor. Sentiu grande alívio ao saber que “nossos Asilos estão agora dotados, de modo que o sustento das irmãs idosas nunca se tornará um fardo para a igreja”. 84 Em 1882, Spurgeon constatou que “a quantia provida pela dotação do Pastor” não era suficiente para as velhinhas viverem. “Algumas poucas centenas mais”, relatou, “colocariam esta instituição além da necessidade.” 85

Quando voltou de Mentone em 1879, depois do refrigério do descanso e da grande vitória do Memorial, relatou: “Estamos revigorados em espírito e fortalecidos nos nervos, embora um tanto perplexos com o relatório da Sociedade de Colportagem.” Como de costume, queria levar a necessidade diante do Senhor em oração, “ao mesmo tempo em que usamos os meios, informando o povo”. Precisava de fé para que provisão suficiente viesse a suprir as exigências da Sociedade e a manter o equilíbrio em sua própria saúde. “Não podemos dar-nos ao luxo de ficar ansiosos, pois isso nem honraria o Senhor nem beneficiaria nossa saúde mental ou física.” 86 Em seguida, passou a descrever uma situação em que os fundos da Sociedade de Colportagem estavam perigosamente baixos e apelou por um ingresso de £1.000. “Agora há 82 colportores, e o estoque está baixo demais para continuarmos pagando à vista. Qualquer outra forma de agir é difícil na prática e insustentável em princípio.” Por causa da obra do Reino, o labor dos colportores na pregação do evangelho, na temperança, em palestras, na distribuição de folhetos e na visitação aos enfermos precisava continuar. Nada menos que 75.000 famílias estavam sendo visitadas mensalmente. Tudo isso, do ponto de vista humano, estava em perigo, e Spurgeon olhava “para Deus em busca de socorro imediato”. Não podia pensar que Deus quisesse “que interrompêssemos este santo serviço, que ele está tão grandemente abençoando”. Toda a prata e o ouro pertenciam ao Senhor, e ele podia provê-los por meio de um único doador ou levantar muitos amigos para completar a quantia. 87

Tendo falado aos “irmãos e irmãs em Cristo” da necessidade urgente, assegurou a seus leitores que não faria “apelo abjeto, nem poria anúncios no jornal acerca de nossa aflição”. A provação viera quando ele não tinha reserva pessoal para suportá-la, “julgando segundo a fraqueza de nossa carne”. Resolveu, não obstante, “regozijar-se nela em espírito, e bendizer o Senhor, que suprirá a necessidade tão certamente quanto põe o fardo sobre nós”. Apenas para insistir um pouco mais intencionalmente junto aos doadores regulares, Spurgeon queria que entendessem que a colportagem não era de importância secundária em relação ao colégio e ao orfanato. Embora Spurgeon não pudesse esconder de ninguém seu deleite instintivo no colégio, seu compromisso com a contínua urgência da obra prática da colportagem precisava ser abraçado por seus apoiadores. “Ela está realizando uma grande obra para o Senhor em distritos entenebrecidos, e nós de modo algum a amamos menos do que qualquer outra de nossas instituições.” Reconhecia que falhara em interessar os outros por ela com suficiente urgência, mas agora, “vendo que somos impotentes na questão, e estreitamente encerrados por urgente necessidade, lançamos todo o assunto sobre o Senhor, esperando ver sua mão libertadora”. Spurgeon sentia o desconforto do momento — logo após tão grandes doações ao Testimonial, e pouco antes da reunião anual do colégio — e percebia que um simples apelo ao público cristão dificilmente prevaleceria. Um apelo, contudo, “ao Senhor nunca é inoportuno, nem ele se acha limitado. A confiança do salmista deve ser a sua: ‘Ó minha alma, espera somente em Deus; porque dele vem a minha expectativa.’” 88

As necessidades nunca tinham fim, e a pressão era incessante, de modo que Spurgeon precisava encontrar meios de continuar os apelos. O sucesso continuava a apertar a manivela do torno que encerrava sua mente e sua consciência. Concluída a compra do terreno para o Orfanato das Meninas em 1879, Spurgeon divulgou um método para obter contribuições regulares para a manutenção dos orfanatos. Primeiro, o mobiliário da casa exigiria doações, e depois “maior ajuda para alimentar todos os meninos e meninas”. Amigos especiais poderiam ajudar-nos muito se permitissem que Spurgeon lhes enviasse cadernos de coleta. Ele queria formar uma “pequena banda de ajudadores que se correspondessem conosco pessoalmente, e nos ajudassem regularmente coletando em diferentes cidades e aldeias entre seus amigos”. 89 Spurgeon não precisava de mais bocas para alimentar nem de mais propriedades para manter, e seus amigos não precisavam de mais uma fonte de apelos constantes. Sua própria saúde não podia suportar a pressão da responsabilidade aumentada, mas tampouco podia ele dar as costas à providência que tornara possível a nova misericórdia ou à necessidade evidente de uma instituição de cuidado em que meninas desamparadas pudessem florescer.

Em 1881, quando lembrou a seus apoiadores que o colégio educava 100 homens em preparo para o ministério e também ensinava 200 homens à noite para aperfeiçoar sua “pregação ao ar livre, ensino de escola dominical, e outras graciosas obras”, também os informou de que as despesas excediam as doações em £1.500 por ano. Legados consideráveis haviam permitido que a obra prosseguisse sem impedimento. Se esse apoio poderia continuar dessa forma no futuro, confessou Spurgeon não saber, mas estava convencido de que Deus faria o que é certo. Naquele tempo, mais de 500 ministros do evangelho já haviam sido treinados. Embora amasse o orfanato e se alegrasse com a resposta entusiástica de todos às necessidades daquela obra, apontou que “muitos darão a um orfanato por compaixão natural, que não contribuirão para um colégio por zelo pela verdade”. Todas as necessidades haviam sido supridas, “nem jamais nos veremos desamparados, pois a obra é do Senhor”. Os doadores precisavam estar cientes, contudo, de que a continuidade de longo prazo de toda a obra dependia da manutenção do colégio. “Enquanto desvios da ortodoxia nos assombram de todos os lados, seria indigno dos amantes do evangelho à moda antiga retirar seu auxílio de uma instituição que se mantém nas linhas doutrinárias puritanas, e não tem ambição de ser tida em conta por ‘ideias progressistas’ e ‘pensamento avançado’.” 90

Wayland Hoyt achava Spurgeon sereno sob o peso de tantas responsabilidades. Hoyt olhou para os ministérios de Spurgeon e calculou o que devia ser necessário para sustentá-los. “Eu estava pensando nos órfãos que ele precisava alimentar, nas velhas mulheres cristãs de quem precisava cuidar, nos salários dos professores de seu Colégio de Pastores que precisava pagar, nos alunos a quem precisava prover ensino, muitos deles também com pão e roupa, visto que eram pobres demais para comprar essas coisas por si mesmos.” Perdido na aparente impossibilidade de tudo isso, Hoyt perguntou: “Como o senhor pode estar tão tranquilo? Essas responsabilidades não vêm sobre o senhor, às vezes, com uma espécie de peso esmagador?” Spurgeon olhou para Hoyt “com uma espécie de santo espanto, e respondeu: ‘O Senhor é um bom banqueiro, eu confio nele. Ele nunca me faltou. Por que eu haveria de andar ansioso?’” 91

Spurgeon de fato sentia a ponderosa imensidão da situação humana e declarava com franqueza sua suscetibilidade à fraqueza física e espiritual; nunca muito atrás, contudo, estava o consciente testemunho de confiança em Deus para cuidar de sua própria obra no mundo. A delicada interseção, tão sempre presente na teologia de Spurgeon, entre a responsabilidade humana ser apenas um elemento da administração soberana de Deus sobre o mundo fazia com que ele nunca perdesse a perspectiva, mesmo sob a pressão mais opressiva. Quando, em 1880, relatou que por seis meses o Senhor o havia provado “com dores agudas”, também afirmou que o Senhor havia removido “toda causa de séria preocupação quanto às necessidades financeiras de minhas muitas instituições”. Vemos aqui não apenas o reconhecimento franco de que as instituições eram suas, e ele sentia a responsabilidade mais do que qualquer pessoa sobre a terra, mas também que a “provação de recursos escassos” fora afastada do servo sofredor. Deus proveu, embora a enfermidade enfraquecesse não apenas os esforços físicos, mas o fervor da oração. “Eu apenas confio e oro debilmente”, queixou-se Spurgeon, mas, por pura graça, “Deus responde mui ricamente; e quando, em horas de esmagadora agonia, tanto a súplica quanto a confiança parecem exigir um esforço além da força da mente torturada, o Senhor trata comigo segundo o seu próprio modo gracioso, ‘infinitamente mais do que tudo quanto pedimos, ou até pensamos.’” 92

As receitas eram relatadas todos os meses em The Sword and the Trowel para todas as benevolências, sendo cada contribuinte listado pelo nome. As ofertas semanais no Tabernáculo eram recolhidas para o colégio. A Associação dos Evangelistas recebia fundos de doadores, bem como das igrejas servidas pelos evangelistas. Spurgeon expressou pelo menos leve preocupação em 1881, quando não havia “recebido recentemente quantias das localidades visitadas pelos evangelistas”, embora estivesse certo de que os resultados espirituais da obra de Fullerton e Smith em Sheffield seriam “seguidos por uma correspondente oferta de gratidão”. Além disso, a Associação de Yorkshire estava “esperando até o encerramento dos compromissos do Sr. Burnham para repassar de uma só vez as quantias recebidas das igrejas às quais ele ajudou”. Dada a lentidão das ofertas de gratidão, Spurgeon observou que “subscrições gerais serão cordialmente bem-vindas para esta obra, que o Senhor tem tão assinaladamente possuído para a salvação de almas, e para a edificação e consolação dos crentes”. Da mesma maneira, embora a Sociedade de Colportagem florescesse no benefício espiritual que promovia, “o fundo geral está muito baixo, e ajuda tem sido recebida em medida muito limitada durante os últimos seis meses”. Por isso, Spurgeon olharia “em oração para o Senhor, por meio de seu povo, para suprir nossa necessidade”. 93

Spurgeon nunca entrou em pânico, nunca indicou nada menos que plena confiança na provisão de Deus, mas sentia intensamente a responsabilidade pessoal de lembrar ao povo que eles são mordomos. Na maioria dos casos, fazia isso com gentileza e gratidão. No final de 1884, sua luta contra a dor lhe custou caro, mas ele pôde dizer: “Durante nossa extrema fraqueza, fomos preservados de toda ansiedade quanto a fundos para a obra do Senhor pela contínua consideração dos amigos.” O Senhor recompensaria aqueles que ministravam às necessidades dos estudantes, dos órfãos e dos evangelistas. “Certamente somos favorecidos acima da maioria dos outros servos de nosso Mestre, por vivermos no coração de tantas pessoas graciosas.” Sua gratidão era “profunda e inexprimível”. 94

Até o fim, Spurgeon via enfermidade, dívida e doação como inextricavelmente recíprocas em poder. Antes da inauguração do Memorial de Surrey Gardens, Spurgeon encontrou o fundo £272 abaixo do necessário. “Nunca abrimos qualquer de nossos edifícios domésticos com dívida”, lembrou ele ao povo. “Haveremos de fazê-lo agora?” Desceremos nesta hora ao nível comum e nos apartaremos de nosso curso anterior tão honroso? Absolutamente não. Bem, então o lugar ficará fechado por falta de recursos? “Queridos irmãos”, rogou Spurgeon, “vosso velho amigo não está bem, e o médico diz que ele não deve ser afligido; portanto, por favor, eliminem esta coisa má.” Eliminem a tensão e nunca permitam que a palavra “dívida” manche um memorial de gratidão. Então, com marcado senso tanto de urgência quanto de autoridade, encerrou o apelo: “Que a quantia inteira esteja em ‘Westwood’ antes que o sol se levante no dia 2 de junho.” 95

A enfermidade de Spurgeon atrasou a abertura do novo edifício para as Escolas de Carter Street de 2 de junho até 23 de junho, mas “o restante do dinheiro requerido para a compra do terreno e a construção dos edifícios” havia sido contribuído, de modo que tomaram posse das instalações “sem a sombra de uma dívida pairando sobre elas.” 96

Interesse público na dor pessoal

Spurgeon, em razão do interesse popular, informou aos leitores que, dali em diante, suas notas incluiriam uma seção de notas “pessoais”. Essas notas pessoais consistiriam principalmente em cartas que ele recebera acerca do impacto de seus sermões publicados para a salvação de seus leitores. Ao voltar da França na primavera de 1879, acompanhado por Tom, sentiu-se encorajado por ter sido “calorosamente recebido no Tabernáculo em 13 de abril”. 97 Fullerton acrescentou detalhes: “Quando pai e filho apareceram juntos no púlpito do Tabernáculo no dia treze daquele mês, a congregação, feliz por saudar ambos, levantou-se espontaneamente e cantou a doxologia.” 98 Spurgeon estava preocupado com o baixo nível dos fundos destinados às obras beneficentes, mas estava convencido de que, pela “bênção divina”, em breve tudo estaria “em boa ordem de navegação”. Agradeceu àqueles amigos que o haviam instado a tomar um período mais longo de descanso. Isso, porém, não podia ser feito, pois várias coisas precisavam de sua atenção pessoal. Lembrou aos leitores que “o Pastor não está em condições de assumir qualquer trabalho além daquele que lhe cabe em casa, e será inútil insistir com ele para que o faça”. 99

Em outubro de 1879, Spurgeon voltou a ver a necessidade de descanso e de escapar do inverno inglês com sua névoa e umidade. “Nesta época, ou um pouco mais tarde”, lembrou Spurgeon a seus leitores, “temos estado enfermos por vários anos sucessivos, e somos aconselhados a partir antes que a enfermidade venha, na esperança de ganhar forças para atravessar o restante do inverno.” Pretendia seguir o conselho de seus médicos, mas sentia a dificuldade que isso apresentava para as obras beneficentes. “Nossos fundos diminuem”, lamentou, “e, portanto, seria um grande alívio se os depósitos estivessem bem reabastecidos antes de partirmos de casa. Isso tornaria nosso descanso duplamente repousante.” 100

O ano de 1880 não concedeu a Spurgeon alívio da enfermidade, nem das ausências, nem da dependência da graça e da contínua provisão de uma congregação leal e dedicada. Enviou uma palavra de profunda gratidão à sua congregação por meio do prefácio do Sword and Trowel de 1880, por sua constância mesmo com um “ministro aleijado, que esteve ausente de seu púlpito por mais de três meses dos doze”. 101 Essa dolorosa admissão refletia a triste realidade de que sua recente mudança de casa não beneficiara materialmente sua saúde. Em agosto de 1880, ele e Susannah mudaram-se para “Westwood”, em Beulah Hill, Upper Norwood. O terreno tinha nascentes que supostamente eram saudáveis, e a altitude mais elevada foi considerada apta a diminuir os efeitos da névoa e do frio no inverno. “No topo da Colina Deleitável, confiamos que as brisas frescas possam tender a dar saúde e prolongar a vida.” 102 Como se poderia saber se isso aconteceu ou não?

Spurgeon tratou do tema do sofrimento em 1881 por meio de uma resenha de livro. Sir Emilius Bayley forneceu a ocasião em um livro intitulado Deep Unto Deep: An Enquiry into some of the deeper experiences of the Christian Life; Spurgeon identificou vários fatores de sofrimento aos quais um ministro do evangelho deve ser sensível. Recomendou o livro aos jovens ministros, “pois estamos persuadidos de que há muito mais necessidade de estudar a patologia da alma cristã do que muitos deles imaginam”. Apertos severos e profundezas de angústia constituem a experiência de muitos santos e têm legítima reivindicação à “simpatia e ao conhecimento de todo fiel ministro do evangelho”. Falando obviamente a partir de sua experiência como pastor, mas igualmente a partir de suas próprias lutas, Spurgeon observou: “Enfermidades físicas e perdas sociais, por exemplo, podem parecer aflições muito comuns, embora lancem a alma em profunda tristeza, mas a influência que produzem sobre mentes sensíveis é muitas vezes tão peculiar que cada caso requer atenção específica.” Pecados antigos se levantam para torturar e assombrar a memória dos santos mesmo após a profunda experiência do perdão, e as tentações de Satanás assaltam outros com horrores espirituais — essas coisas “não devem ser levianamente consideradas por aqueles a quem Cristo confiou a supervisão de qualquer igreja ou congregação”. Além de Bayley, Spurgeon apontou para outros autores, mais antigos, que haviam sido “muito lançados de um lado para outro no mar tempestuoso” e, assim, sabiam “como cuidar de almas mareadas em cada estágio de suas tristes queixas, quer cambaleando de um lado para outro, quer reduzidas ao extremo de sua razão”. Tais homens eram Agostinho, Lutero, Bunyan, Gilpin, Brainerd, Edwards, e ele até acrescentou “William Huntingdon”. Spurgeon sem dúvida teria incluído a si mesmo entre esses curadores sofredores, pois experimentara em primeira mão a “patologia da alma cristã”, provocada por angústia física, esmagamento emocional e perdas sociais. Finalmente, porém, isso não era uma questão estritamente à mercê da experiência humana. Qualquer ajuda vinda de outras paragens era bem-vinda, e Spurgeon acreditava que a “familiaridade com a descoberta moderna” de Bayley o ajudara a encontrar ilustrações para um problema que é levantado e resolvido nas Sagradas Escrituras. 103

Em março de 1881, Spurgeon forneceu poucas notas para a revista por causa da enfermidade incapacitante do fim do inverno. “Dias mais penosos nos foram designados, mas ainda assim o Senhor tem sido muito gracioso, e temos boa esperança de recuperação permanente quando as geadas e as umidades se tornarem menos frequentes.” Os membros da igreja haviam insistido com ele para que saísse por um mês de descanso. Sentia uma gratidão transbordante por sua bondade e desejava dar a maior deferência ao juízo deles, mas não sentia qualquer liberação de seu posto. Onde poderia encontrar alívio significativo nesta “terra de umidade”, enquanto ainda repousava sobre ele a incumbência que constituía seu fardo? “Apenas perderíamos os confortos do lar”, supôs Spurgeon, “e, como um caracol, carregaríamos nossa carga nas costas por onde quer que rastejássemos.” O trabalho apenas se acumularia e, “enquanto ele estiver por fazer, onde poderíamos descansar?” Ainda que encontrasse o Jardim do Éden, a “Serpente estaria sobre nós até que nossos atrasos fossem eliminados, e até que víssemos a obra do Senhor prosseguir de novo com seu vigor costumeiro”. 104 Quando se realizou a Reunião Anual da Igreja, Spurgeon estava “incapacitado em ambos os braços”. Observou que o “caloroso amor de seu dedicado povo animou-lhe o coração e, embora outra estação de sofrimento o aguardasse, foi um oásis ensolarado no deserto da dor”. 105

Dificuldades não diminuídas o afligiram durante todo o mês de março, de modo que sua nota no Sword de abril repetiu um refrão familiar. “A aflição pessoal continuou durante o mês de março, e foi com dificuldade que os sermões semanais e a revista mensal foram preparados.” Reconheceu a providência divina ao conceder-lhe “intervalos de esforço possível”, quando “toda vela foi desfraldada, de modo que não somos compelidos a ficar encalhados, altos e secos, na praia”. Uma oração exclamativa e sincera expressou tanto sua frustração quanto sua esperança: “Ó, por saúde e força!” Sentia que, se as tivesse, poderia realizar uma grande quantidade de trabalho. Recusou-se a permitir que um espírito questionador e desgostoso deixasse a última impressão, e por isso acrescentou: “contudo, pode ser coisa maior e melhor inclinar a cabeça em silêncio e dizer: ‘É o Senhor; faça ele o que bem lhe parecer.’” 106

Spurgeon conseguiu estar presente durante toda a conferência do colégio em maio de 1881, mas “no sábado foi acometido por uma afecção reumática no calcanhar, que o impediu de conseguir ficar em pé”. Por causa da dor, deixou de pregar naquele domingo. Naquele ano, de fato, declarou no “Relatório Anual do Colégio de Pastores” que estivera “muito enfermo durante a maior parte do último ano [1880-81], e por isso não pude prestar muito serviço pessoal ao Colégio”. Foi uma dura provação, e a folga criada por sua enfermidade foi suprida por seu irmão J. A. Spurgeon. Ele também mencionou que se alegrava pelo fato de poucos terem precisado ser desligados da escola, pois a “frequente depressão de espírito tornou indesejável ter muito trabalho penoso a fazer”. 107

Embora alguns o pressionassem a tirar algum tempo de descanso no fim do verão de 1881, Spurgeon insistiu que isso não ajudaria e que suas obrigações no ministério simplesmente o proibiam. “Muitos domingos passados no quarto de enfermo vedam qualquer nova ausência de casa.” Estava, na verdade, contente por poder relatar melhora na saúde e capacidade para preparar os sermões semanais, editar a revista, escrever livros e falar em público. Como amostra do trabalho que era normal por semana, Spurgeon procurou animar seus leitores, mostrando que sua força, no momento, era suficiente para um dispêndio constante de trabalho. Havia pregado cinco sermões, superintendendo três reuniões de oração, contribuindo com suas habituais e breves homilias extemporâneas, presidido duas reuniões públicas, feito um discurso em uma terceira, oficiado uma ceia, e conseguido dedicar uma tarde no colégio a duas horas de preleção. Algumas dessas atividades consumiam muito mais tempo na preparação do que na execução. Estava grato por poder trabalhar e desejava ter forças para fazer mais. 108

Em outubro, porém, sentiu a aproximação do reumatismo e, apesar de ter muito trabalho a fazer para o orfanato das meninas, entregou as tarefas a outros e partiu para a França na primeira semana de novembro. Na noite anterior à sua partida, presidiu a reunião anual do Colégio de Pastores. Despediu-se do grupo reunido por algumas semanas e, em seguida, fez uma leitura no personagem de John Ploughman, acompanhada por uma exibição de gravuras de John Ploughman’s Pictures. J. A. Spurgeon expressou o desejo de todos os presentes de que seu irmão fosse grandemente beneficiado por seu período de descanso. Spurgeon havia providenciado pregadores para os períodos de sua ausência, incluindo seu irmão, seu filho Charles, e um domingo entregue aos evangelistas D. L. Moody e Ira Sankey. 109

No sábado, 5 de novembro, embarcou para Mentone e chegou em segurança ao Grand Hotel. “O calor do ar, o brilho da luz e a secura de tudo” aumentavam grandemente suas chances de uma recuperação rápida. “Se o reumatismo não partir em um clima tão ameno”, disse Spurgeon com leveza, “deve ser, de fato, difícil desalojá-lo.” Chegara com fortes dores lombares, mas elas desapareceram em uma noite. Tão grande foi o alívio que Mentone lhe proporcionou que instou aqueles de seus leitores que não estavam “presos à terra de névoa e geada” a experimentar a hospitalidade de seu anfitrião, M. Georgi, “que há anos tem se empenhado em me proporcionar conforto”. 110

Perto do fim dessa visita, Spurgeon escreveu: “Temos estado em uma terra onde os primeiros raios do sol chamam você a abrir a janela e deixar entrar o ar balsâmico; onde, em pleno inverno, as flores que existem em nossas estufas estão viçosas e florescendo no jardim aberto.” Somava-se a essa alegria o prazer de que o povo não falava inglês, não o conhecia por reputação, e ele podia caminhar pelas ruas sem o empecilho de que cada terceira pessoa estivesse ou mendigando ou propondo perguntas. Embora soasse bastante eremítico, ainda assim tinha visitantes suficientes “para impedir que o dia estagnasse”. Mesmo assim, não se deve subestimar o valor do tempo a sós para Spurgeon. Ele o considerava “uma bênção nada pequena”. Na ausência das pessoas — ausência bendita para seu propósito — havia “olivais e bosques, e aqui pode-se estar perdido para todo olhar humano”. Essa combinação de virtual anonimato, um número limitado de visitantes corteses e respeitosos, encontros agradáveis com a natureza, e anfitriões judiciosamente atentos fazia desse o repouso mais perfeito que se podia ter na terra. Teve cinco semanas disso, e estava agradecido. 111

Mentone proporcionava não apenas uma atmosfera salubre na qual Spurgeon sentia que podia curar-se e florescer, mas também uma comunidade evangélica próxima para encorajamento, culto, edificação e calorosa comunhão. Além disso, a própria geografia do lugar convidava à contemplação da presença de Cristo. A praia, as videiras, as oliveiras e as palmeiras levavam Spurgeon a exclamar: “Tua terra, ó Emanuel!” “Enquanto estou neste Mentone, muitas vezes imagino que estou contemplando o lago de Genesaré, ou caminhando ao pé do Monte das Oliveiras, ou perscrutando a misteriosa escuridão do Jardim do Getsêmani.” As ruas estreitas da cidade velha eram do tipo por que Jesus transitava nas aldeias da Galileia. Esse lugar levava Spurgeon a esperar a presença de Cristo e a transformar todos os seus dias em sábados, suas refeições em sacramentos, e a terra em céu. 112 Spurgeon voltou para pregar no dia de Natal e, no dia seguinte, teve o prazer de passar o Natal no orfanato, onde “tudo correu alegre como um sino de casamento”. 113

A recuperação completa ainda lhe escapava. Nos últimos dias de março de 1882, quando chegou o momento de produzir o Sword, Spurgeon escreveu: “A revista é exigida, e o Editor mal consegue pensar dois pensamentos consecutivos.” Se alguma ideia surgia, logo escapava ao alcance como a borboleta de um menino, ou, se capturada, logo ficava tão mutilada que não valia a pena tê-la. Os leitores precisavam perdoar e empregar esforço extra para tirar algo de bom da revista, compensando assim a enfermidade do editor, tanto da mão como da cabeça. “Não pudemos adiar a aflição, ou teríamos tido primeiro a revista, e depois a gota; mas a enfermidade nos armou uma emboscada e nos deteve justamente quando a hora do trabalho havia chegado.” Se apenas as pernas e os braços estivessem afetados, ele suportaria a dor varonilmente e prosseguiria; “mas a essência do nosso mal é o cérebro e, com o inimigo penetrando no quartel-general, não é fácil levar adiante a guerra.” Esperava que os leitores fossem tão bondosos quanto seu Mestre e não esperassem mais do que ele podia dar. Lembrou-lhes que Deus os alimentou de sua pequena sacola quando ele ainda era menino, e agora que está mais velho, com força mal suficiente para levantar a cesta de café da manhã dos dias mais jovens, “vocês hão de orar para que o Mestre não restrinja o banquete porque enfraquece o servo”. 114

Renovou seu pedido, tantas vezes publicado, de que cessassem todos os convites para compromissos fora. Mal conseguia acompanhar as exigências do trabalho em casa. Nada adicional poderia ser tentado, a menos que quisesse chegar a uma condição em que pudesse “nada fazer senão jazer e sofrer dor excessiva, com sua consequente fraqueza do corpo e depressão de espírito”. Apesar de sua insistência em contrário, ele ainda recebia pedidos por carta e, às vezes, até delegações, forçando uma entrevista pessoal, para expor a urgente necessidade que alguns lugares tinham dele. Era interceptado em cantos imprevistos e em horas inconvenientes por aqueles “que nos importunavam com vinte pedidos para fazer a mesma coisa, quando lhes dissemos que isso não era possível”. Ainda assim, ele lhes concedia a “mais rica bênção pela correção que só eles nos trouxeram”. 115

Em abril, ele prosseguia penosamente em meio a dores debilitantes e parece ter feito seu discurso inaugural anual na conferência da Associação do Colégio de Pastores. Disse ao afetuoso grupo que se reunira: “Após minha severa enfermidade, estou tremendo como uma criança que está apenas começando a usar os pés.” Mal conseguia sustentar-se em pé e perguntou em voz alta o que um grupo poderia esperar de um homem que mal podia ficar de pé. Durante seis semanas, ao considerar o que diria, achou sua mente desajustada e sua memória como os baldes furados das filhas de Dânao, e seus labores tão vãos quanto a façanha de Sísifo ao rolar a pedra. Seu cérebro estivera tão ocupado com “simpatia para com o pobre corpo que não tem podido alçar-se com a águia, nem sequer emplumar as asas para o voo mais baixo” que era sua tarefa naquela manhã. Apropriadamente, pregou sobre o texto: “Quando sou fraco, então é que sou forte” e orou para que pudesse transmitir algum encorajamento que lhe havia chegado, como os antigos santos costumavam dizer, “experimentalmente”. 116 Ainda insistia com seus homens para que sentissem sinceramente todo o peso da responsabilidade imposta sobre eles em virtude de sua posição como arautos do evangelho.

Sua contemplação da fraqueza, porém, levou-o a um devaneio raramente indulgido por Spurgeon. Ele considerou a fraqueza produzida por “Um opressivo senso de responsabilidade”. Ninguém deve levar seu senso de responsabilidade tão longe a ponto de já não poder sustentá-lo; “isso pode aleijar nossa alegria e fazer de nós escravos”. Ninguém deve forçar-se além de sua força física e mental. Fidelidade nem sempre equivale a sucesso visível. Você pode ensinar, mas não pode fazer as pessoas aprenderem; pode tornar as coisas claras, mas não pode fazer o homem carnal ter interesse espiritual. “Não somos o Pai, nem o Salvador, nem o Consolador, da Igreja.” Por um senso excessivamente severo de responsabilidade pessoal, Spurgeon poderia ter transformado sua preocupação com o sul de Londres em prejuízo para si mesmo como pastor de seu rebanho. “Ficamos nos esforçando como se a salvação do mundo dependesse de nos esgotarmos até à morte.” Não cultive a indiferença, mas lembre-se de que “você não é Deus, e não está no lugar de Deus; não é governante da providência, e não foi eleito gerente exclusivo do pacto da graça; portanto, não aja como se fosse”. 117 Sábias palavras de conselho, estas, mas ainda mais intrigantes vindas da boca de um Spurgeon cansado, ferido e enfermo, que se impusera fraqueza perpétua por seus empreendimentos de salvar o mundo em seu ministério inicial e ainda buscava sustentar mais do que sua mente podia suportar.

Ao preparar seu retorno a Londres, vindo do descanso, no fim de 1882, relatou que aquele fora um tempo de repouso do corpo, da mente e do coração e que, esperava, o havia preparado para “um bom e longo período de trabalho”. Insistiu, porém, que seus amigos não o sobrecarregassem com convites para coisas extras, como haviam feito no ano anterior, com o resultado de que sua força renovada fora gasta em suportar dor em vez de ser empregada no ministério público. “Nosso próprio trabalho exige de nossas forças até o limite máximo”, lembrou a todos os seus exuberantes amigos, “e rogamos que nos perdoem se não pudermos aceder nem mesmo a pedidos urgentes.” 118

Spurgeon não poderia ter antecipado a tempestade de provação que o aguardava. Chegou a Londres em 19 de dezembro e, na véspera de Natal, morreu a esposa de seu muito estimado secretário J. W. Harrald, deixando-o viúvo com quatro filhos. O reumatismo atacou Spurgeon com fúria e, embora tenha pregado no domingo, dia 24, não pôde levantar-se do sofá no dia de Natal. Diante do luto de Harrald, Spurgeon viu-se incapacitado e sem poder sequer comparecer à tradicional celebração natalina no orfanato. O amado e antigo diácono William Higgs também morreu no Natal, e, por ocasião de seu sepultamento, William Mills, outro diácono, sofreu uma paralisia da qual nunca se recuperou, vindo a falecer em 12 de janeiro de 1883. Spurgeon mancou por cultos, compromissos, reuniões de sociedades e outros engajamentos ligados ao Tabernáculo por mais algumas semanas, mas em abril estava tão prostrado que, pela primeira vez, não pôde comparecer à conferência da Associação do Colégio de Pastores.

Na tarde de segunda-feira da conferência da Associação, ele e a Sra. Spurgeon compareceram ao chá após a reunião de oração da tarde, mas nada mais puderam fazer. Ele não pôde sequer proferir seu discurso inaugural nem apresentar o relatório na ceia dos assinantes. Escreveu na manhã de terça-feira: “Depois de uma noite de dor extrema, vejo-me incapaz de deixar meu leito hoje.” Submeteu-se à providência divina, orou pelas bênçãos do Espírito sobre todos os trabalhos, prometeu que, se em algum momento se sentisse capaz, se apressaria para a conferência, mas teria de entregar tudo a seu irmão. Esperava que a intensidade do ataque significasse que ele não duraria muito, mas, nesse meio-tempo, “neste exato momento ele está furiosamente sobre mim”. 119

Os homens da conferência expressaram sua profunda decepção por sua ausência, mas deram comovente testemunho de sua preocupação com sua recuperação e se alegraram porque receberam grande bênção de Deus mesmo com a ausência do presidente. Logo após a conferência, Spurgeon teve de emitir sua recorrente recusa a todos os convites para labores externos. “Nosso próprio trabalho legítimo cresceu tão enormemente que é o máximo que podemos realizar sem sermos postos de lado, e ultimamente provamos uma vez mais que são os serviços extras, externos, que trazem colapsos tão tristes quanto aquele que recentemente experimentamos.” Se algum leitor, portanto, estivesse contemplando um bazar, uma reunião de chá, um aniversário, a quitação de uma dívida, a construção de uma escola, ou uma missão da fita azul, e fosse tentado a formular a pergunta: “Devemos convidar o Sr. Spurgeon?”, deveria imediatamente dar sua própria resposta: “Não.” Por mais que desejasse ajudar, nada poderia resultar de tais convites, pois aceitá-los significaria apenas uma cessação completa dos labores necessários em casa. “É grande tristeza estar encerrado a isto”, fez careta Spurgeon, “mas que mais podemos fazer?” 120 Durante maio, até mesmo as reuniões realizadas no Tabernáculo Spurgeon foi forçado a perder. Durante aqueles encontros festivos e alegres, ele esteve “obrigado a permanecer em casa, sofrendo dor no corpo e depressão de espírito”. 121

Julho trouxe outro acesso de incapacidade para pregar, e por dois domingos ele teve de fazer outros ocuparem seu púlpito. Os jornais noticiaram isso como um ataque de gota reumática. Spurgeon caracterizou os jornais como um rebanho de ovelhas seguindo sem razão, quando, na verdade, respondeu: “Essas enfermidades frequentes são incidentais ao nosso trabalho, e devemos aceitá-las como parte do preço do nosso serviço.” Ilustrou isso referindo-se a uma carta de Guiness Rogers, que havia pregado por Spurgeon com apenas algumas horas de aviso, na qual ele chegou “mais perto da causa de nossas enfermidades do que a maioria das pessoas tem conseguido chegar”. A carta isolava a dificuldade que só Spurgeon tinha de suportar, e ele a publicou na esperança de obter um juízo mais exato acerca de seu caso.

Spurgeon não estava desesperado, mas sentia que Guiness Rogers oferecia uma oportunidade para permitir que outro ajudasse todos os observadores, simpáticos e cínicos igualmente, a terem uma visão mais profunda de seu constante estado de dilema. Rogers podia ver claramente que a fonte constante das frequentes enfermidades e debilidade de Spurgeon não era mera fraqueza física e enfermidade corporal, mas a agravação de qualquer tal tendência pela implacável tensão mental e emocional sobre suas faculdades. “Sua grande congregação é uma inspiração”, relatou Rogers, “mas é também uma responsabilidade esmagadora.” Não lhe parecia surpreendente que o labor contínuo sob essa responsabilidade afetasse Spurgeon de muitas maneiras, em algumas que até o próprio Spurgeon talvez não suspeitasse. O distanciamento emocional de tudo quanto estava em jogo na proclamação do evangelho a uma multidão assim poderia resolver o problema pessoal, mas ao fim prenunciaria um ministério fracassado. “Não invejo o homem que pode pregar ali sem ter toda a sua natureza levada ao máximo da tensão, e isso significa exaustão nervosa, de todas as coisas a mais difícil de combater”, observou Rogers, com genuíno sentimento pelo dilema. Só podia oferecer uma oração — “que o Senhor o poupe por muitos anos para realizar uma obra para a qual nem um em dez mil seria igual”. 122

Embora resistisse à terminologia dos jornais, em setembro o próprio Spurgeon referiu-se à sua dor constante como “cruel reumatismo”. Ela se agarrou a ele tenazmente durante uma visita à Escócia em agosto. A dor fora violenta, confessou ele, e tornada duplamente assim pela necessidade de responder a pedidos de ajuda com o bilhete: “Fraco demais para sair de casa.” 123 A tensão espiritual e a preocupação com coisas infinitamente importantes intensificavam a tensão física sob a qual Spurgeon trabalhava, mas o reumatismo, implacável, sinistro, súbito e severo, fazia de todos os seus labores uma tarefa hercúlea e consumia sua mente e sua alma.

A política de Spurgeon de publicar um sermão por semana desde o começo de seu ministério em Londres acrescentava pressão ao seu trabalho semanal. Ele havia se algemado pela distribuição maciça de textos de sermões, tornando cada produção inutilizável para o futuro. Embora se gloriasse na expansão desse ministério de pregação pela palavra impressa, não podia ir nem ao Tabernáculo nem a outros lugares e pregar sermões já impressos. “No meu próprio caso”, escreveu Spurgeon em 1884, considerando o que significava estar envelhecendo aos cinquenta anos, “o esforço inicial foi seguido por uma exigência contínua sobre as forças, mediante a impressão perpétua de tudo quanto tenho falado.” Com vinte e nove anos de sermões nas estantes, ainda precisava continuar falando, “seguindo penosamente, publicando mais, e ainda mais, os quais todos devem ser, em alguma medida, vivos e novos, ou o público logo dará a entender seu cansaço”. A perspectiva, a seus próprios olhos, confessou ele, não era animadora, mas tinha à disposição “outras lentes” e faria uso delas. 124

Sua viagem a Mentone no meio do inverno de 1884-85 foi adiada, pois Spurgeon foi “ferido” por um doloroso encontro com seu velho nêmesis. Foi tão severo que seus amigos temeram que, se não obtivesse um período prolongado de descanso, logo sofreria um colapso completo. Não pôde pregar no culto anual da vigília de Ano-Novo, de modo que W. Y. Fullerton e J. Manton Smith dirigiram os cultos. Em 5 de janeiro, Spurgeon faltou à reunião do ramo do sul de Londres da Aliança Evangélica. Sete jovens que estavam partindo sob os auspícios da Missão para o Interior da China estavam presentes e um deles, C. T. Studd, capitão dos “onze de Cambridge”, contou a história de sua conversão por meio da pregação de Moody e sua razão para realizar trabalho missionário na China. Todos os presentes, incluindo ministros anglicanos, wesleyanos, metodistas primitivos, congregacionais e batistas, oraram pela recuperação de Spurgeon. 125

Numa reunião extraordinária da igreja convocada em 12 de janeiro, a igreja insistiu para que Spurgeon tirasse uma licença de três meses. “Seus labores árduos e suas incessantes ansiedades excedem de tal modo a força média de sua constituição, que há uma exigência imperativa de que o senhor tire ocasiões mais longas e mais frequentes de retiro.” Queriam que ele o fizesse num momento em que ainda tivesse energia para desfrutá-lo, e não quando já tivesse consumido sua última onça de força. Spurgeon respondeu que a próxima conferência do colégio tornava impossível que tirasse três meses, mas prometeu que descansaria o máximo possível se “pudermos recuperar forças suficientes para viajar para fora desta névoa perpétua”. Para obter o maior descanso, precisava estar seguro de que os ministérios seriam bem sustentados e de que o povo oraria pela continuidade da colheita espiritual nos cultos do Tabernáculo. 126 Ele foi e, de Mentone, anexou uma carta datada de 16 de fevereiro a um sermão que havia preparado para publicação.

CAROS AMIGOS—

Que a paz de Deus permaneça com vocês. Com grande prazer cumpro o dever semanal de preparar o sermão e oro para que nosso Senhor o faça uma bênção a todos os meus leitores. A cada dia reúno certa medida de força. Meu caminhar é medido por passos, poucos e lentos, mas ainda assim posso andar, e esta é uma grande razão para gratidão por parte de alguém que não conseguia pôr o pé no chão sem dor. Estou me recuperando em todos os aspectos e sinto que uma quinzena neste lugar fez mais por mim do que meses de remédio teriam podido fazer. Àquele a quem adorei em meio à dor, sejam gratos louvores pela misericórdia restauradora. 127

No fim de março ele podia escrever que seu descanso havia “feito maravilhas pelo corpo gasto pela dor, e quase tanto pela mente cansada pelo labor. Se nada imprevisto ocorrer, esperamos estar em nosso próprio púlpito no segundo domingo de abril.” Queria ter um “longo período de testemunho ininterrupto para o Senhor.” 128

A efetiva reparação da mente e do corpo ficou aquém do que Spurgeon esperava. Ele chegara perto de alcançar o nível comum abaixo do qual havia caído tanto mental como fisicamente e, enquanto em outras ocasiões havia acumulado um reservatório de forças para uso futuro, “nesta ocasião elas foram consumidas de uma vez em reparos necessários.” Tudo o que podia afirmar era que “o homem interior está de algum modo renovado”. 129 Ele se alegrava com qualquer indício de que alguém pudesse compreender a grande tensão sob a qual trabalhava e que só podia intensificar-se com o passar dos anos, à medida que as despesas cresciam em cada instituição, e enquanto domingo sucedia a domingo e a necessidade de expressar algo novo se tornava cada vez mais difícil. Um amigo fez uma observação, e Spurgeon citou sua percepção como “boa demais e verdadeira demais para se perder”. O amigo considerava o descanso necessário para reabastecer a mente e permitir que suas energias criativas intrínsecas operassem por algum tempo sem tributação; perguntou ele: “Pergunto-me se é assim também com os sermões. O senhor deve saber, se alguém sabe; pois um sermão impresso semanalmente por trinta anos deve ser uma grande pressão sobre a capacidade produtiva da mente de um homem, se ele não ficar apenas repetindo a si mesmo.” 130

Breves momentos de restauração, de um dia sem dor acompanhado de uma exuberância há muito ausente, faziam Spurgeon ter mais confiança em sua resistência do que havia motivo para ter. Períodos anteriores de bem-estar haviam conduzido a esforço excessivo e a rápido declínio. O padrão não decepcionou. Em outubro de 1885, Spurgeon relatou que estava em vigorosa saúde e trabalhando em ritmo alucinante. Estava cumprindo compromissos de pregação havia muito adiados e esperava que seu próprio púlpito pudesse ter seu pregador por muitos dias. Atribuiu esse surto de bem-estar à abstinência de carne como alimento. Isso se revelou “um preservativo mais eficaz contra o reumatismo e a gota do que qualquer dos muitos sistemas até agora experimentados”. 131 Ao final de 1885, Spurgeon se encontrava em condição física e emocional mais angustiada do que em qualquer momento desde o desastre do Surrey Music Hall. Nas notas de dezembro, confessou que por fim precisava sucumbir. “A neuralgia marcou-nos como sendo dela já há algum tempo.” Seu cérebro estava tão cansado que se recusava a funcionar, e ele levava um dia inteiro para “produzir o tecido de pensamento que, em tempos melhores, era tecido em meia hora”. Se a rede não fosse remendada, ela se romperia. Dor miserável por dias a fio, e “horas douradas perdidas em miserável incompetência”, serviam para adverti-lo de que a maior eficiência “exige que até o mais disposto trabalhador tenha sua devida proporção de sábado”. 132

“Estou completamente exaurido”, explicou ele ao dizer a seus leitores por que não deveriam esperar de sua pena nada muito cintilante no prefácio ao volume encadernado de The Sword and the Trowel, 1885. “Cada membro do meu corpo é atormentado de dor; há aproximadamente tanta dor em cada membro quanto qualquer um deles pode convenientemente suportar.” E não era assim apenas com o corpo, mas a unidade mente-corpo encontrava-se num estado de “inquietação, mal-estar difuso e depressão”. Se alguém pudesse ser acorrentado em seu lugar, ele de boa vontade cederia, mas, como ninguém está à mão, “precisamos puxar o remo mesmo que quebremos os ossos”. Após dois parágrafos, Spurgeon teve de largar a pena, pois foi interrompido por “um furacão, consistindo em investidas de dor, espasmos, e toda sorte de mortais apreensões”, e só continuou mais tarde, ditando a um amanuense. 133 Escrevendo na mesma época, mas para as notas do Sword de janeiro, relatou: “O cansaço cerebral levou o Pastor a tomar seu descanso costumeiro.” A demora em partir trouxe sobre ele o doloroso ataque, causado não tanto pela recorrência de sua enfermidade, mas por “cansaço geral”. Em 17 de dezembro, descreveu um “dia balsâmico de sol claro e calor de verão” em Mentone. Podia sentar-se do lado de fora o dia inteiro e absorver as influências curativas do sol, do mar e do ar. “Nada se compara a isso para um inválido, para quem o frio e a umidade são mortais.” Esperava em breve estar novamente de pé, com o cérebro revigorado e pronto outra vez para pleno trabalho. 134

Quando se dirigiu à conferência do colégio em maio de 1886, estava com grande dor e tivera de perder a maior parte da conferência. Durante seu discurso inaugural, a dor tornava difícil pensar e “quase impossível pensar de modo concatenado”. Quase tudo quanto havia preparado foi esquecido e “nenhuma nova nascente de pensamento conseguia abrir canais para si mesma enquanto a mente estava sufocada em sofrimento físico”. Hesitou em preparar a mensagem para publicação na revista, mas amigos o lembraram de que The Sword and the Trowel era largamente autobiográfica e certamente deveria aparecer como o testemunho de um homem que podia, “com dificuldade, conter as lágrimas em meio ao sofrimento agudo e ainda assim estava resolvido a tomar sua parte numa reunião que havia antecipado com solene interesse por meses a fio”. Spurgeon também queria que o leitor soubesse que a revisão foi realizada sob as mesmas dificuldades que marcaram sua entrega original. 135

Tal como saiu impresso, a mensagem continha leves referências à sua dor. A mensagem, “What We Would Be” [O que seríamos], estendia uma série de ternas admoestações a seus homens quanto à santidade, à sabedoria, ao entendimento e à mansidão para com os pecadores. Sua maturidade agora, após tantos anos, devia qualificá-los como Pais na igreja, não com o propósito de controlar e exigir honra, mas para serviço, abnegação e sábio conselho. Ele queria que ansiassem pelo crescimento de seu povo e que fossem prontos em perceber os pecadores que retornavam, para que pudessem tratá-los generosamente. Cerca de oito minutos antes de terminar, ao que parece, Spurgeon disse: “Não creio que eu possa dizer muito mais, estou tão grandemente vencido pela dor.” Então continuou: “Eu ia dizer que, assim como um pai terreno está no lugar de Deus para seus filhos, assim também nós o estamos em certa medida.” Encerrou com uma lamentação de humilde submissão à ordenação divina dos momentos individuais da vida; “Eu gostaria de ter-lhes falado com toda a minha força, mas pode ser que minha fraqueza seja usada por Deus para maior propósito. Meus pensamentos são poucos por causa da dor, que desordena minha cabeça, mas estão em fogo, pois meu coração permanece fiel ao Senhor, ao seu evangelho, e a vocês. Que ele use cada um de nós até o máximo de nossa capacidade de ser usado, e glorifique a si mesmo por nossa saúde e nossa doença, nossa vida e nossa morte! Amém.” 136

Ele localizou a causa desse retrocesso particular em ter despendido energia demais ao pregar o sermão anual para a Sociedade Missionária Wesleyana. Voltou para casa exausto e sofrendo agudamente. Por três domingos teve de deixar de pregar no Tabernáculo e, como foi mencionado, em boa parte da conferência do colégio, bem como em todas as reuniões da Sociedade de Colportagem. Muitos tiveram de sofrer por causa de sua enfermidade. “A pergunta surge continuamente”, revelou Spurgeon, “não será esse um preço alto demais a pagar pelo privilégio de prestar serviço ocasional a dignos objetos fora do nosso próprio círculo imediato?” 137

Como Susannah lidava com essas longas e frequentes ausências de seu marido? Ela tinha o fundo para livros a ocupar-lhe o tempo e, por isso, ajuda voluntária vinha frequentemente à casa, para empacotar os volumes solicitados, auxiliar na correspondência e averiguar a idoneidade daqueles que pediam livros para recebê-los. Especialmente quando os volumes precisavam ser enviados pelo correio, a casa tinha intensa atividade. Nada disso, porém, compensava plenamente a ausência daquele a quem ela amava chamar de “Tirshatha”. Quando a Sra. Spurgeon escreveu o relatório anual de seu fundo para livros, encerrou-o com uma lamentação por sua ausência em Mentone, condição que prevalecera por muitos anos. Em seu estilo poético vitoriano, escreveu sobre “O gabinete escuro e silencioso,—a cadeira vazia do Pastor,—as longas e austeras fileiras de livros sem uso,—o tinteiro fechado, no qual as próprias penas têm um porte desolado e pendente.” Somando-se ao silêncio, à solidão e ao profundo senso de ausência havia “a falta de papéis espalhados, e outros sinais de uma atarefada obra de toda uma vida”. Ela também tinha ansiedades que a oprimiam a cada dia a respeito dele, “meu amado”. Não somente ele estava enfermo, mas estava “a mil milhas da esposa e do lar!” Não fosse a graça concedida para entregar tudo nas mãos amorosas do Pai, e a fé dada para crer que “Ele fez bem todas as coisas”, ela não pensava que qualquer um dos dois pudesse suportar a separação. 138

Em meados de 1888, outra estação de sofrimento se abatera sobre o espírito e a mente de Spurgeon, mas não o debilitara a tal ponto que ele não pudesse desembainhar sua Espada. “Uma revista corre certo perigo de morte quando o editor está tão completamente prostrado que seu cérebro não pensa”, comentou Spurgeon, e observou também um fator complicador, “e sua mão direita não consegue segurar uma pena.” A parte particularmente pesada da aflição lhe sobreveio entre a produção de um número mensal e do seguinte, de modo que ele se viu, “por restauradora misericórdia, novamente capaz de lançar mão de nossa tarefa designada.” Sempre empenhado em manter a bondade divina diante de si com esforço consciencioso, Spurgeon reconheceu: “Há sempre alguma circunstância de graça na mais pesada provação. O espinheiro produz sua rosa. O Senhor nos deixa ver uma luz brilhante nas nuvens mesmo quando elas se ajuntam da maneira mais sombria.” 139 Tal era o equilíbrio quando escreveu a Fullerton, de Mentone, em janeiro de 1889. “Estive muito enfermo, mas agora me sinto convalescente. Tive — digamos — quatro dias de verdadeiro descanso: o restante pertence à rubrica de enfermidade e melhora. Não, tive uma boa semana no começo.” 140 Ele queria lembrar-se de cada bênção. Qualquer coisa aquém do inferno era misericórdia.

A má aplicação da dor

Spurgeon sofrera por tanto tempo e de tantas maneiras diferentes que isso naturalmente teve efeito sobre seus processos de pensamento e sua resiliência emocional. Admitia isso livremente, que estava entre aqueles que “eram mais propensos a esquecer o revestimento de prata”. Não dissera ele: “Quanto às enfermidades mentais, há algum homem inteiramente são?” 141 A escuridão frequentemente o acompanhava. Mas de que sua enfermidade alguma vez o tenha tornado paranoico ou irracional, e assim incapaz de analisar o pensamento com sua acuidade normal e formular uma resposta com clareza e relevância pontual, não há evidência alguma, e ele resistia vigorosamente a essa conclusão. Não seu fígado ou suas juntas inflamadas, mas seu coração e sua cabeça assumiam sua posição doutrinária constantemente expressa e emitiam advertências sombrias acerca dos efeitos corrosivos do pensamento liberal.

Spurgeon ressentia-se da bondade fingida com que seus críticos justificavam a si mesmos ao ignorarem seu sério alarme como melancolia constitucional agravada pela enfermidade. Essas tentativas de minimizar os poderes de discernimento de Spurgeon, ou de atribuir seu alarme teológico meramente a um espírito desalentado, vieram à tona em meados de 1886. Quando publicou o sermão número 1900 de The Metropolitan Tabernacle Pulpit, desafiou seus críticos: “Que aqueles que lerem esse sermão vejam se a gota nos torna mal-humorados, ou mesmo melancólicos. Contudo, esse discurso foi quase reescrito quando era uma tortura segurar uma pena.” 142

O sermão era uma exposição da admoestação “Regozijai-vos sempre”. A exuberância e a exultação do sermão desmentem qualquer tendência à amargura por causa da dor. Muitas passagens notáveis insistem sem cessar para que o cristão considere cada momento e cada situação como ocasião de regozijo. Há uma possível referência oblíqua ao seu estado presente de intensa dor em uma passagem, mas ela aparece apenas ao final de uma exortação a considerar como o evangelho transforma todas as experiências terrenas em ocasiões de alegria:

Creio, queridos amigos, que, se estivermos com a mente correta, toda doutrina do evangelho nos alegrará, toda promessa do evangelho nos alegrará, todo preceito do evangelho nos alegrará. Se vocês percorressem uma lista de todos os privilégios que pertencem ao povo de Deus, poderiam deter-se em cada um deles e dizer: eu poderia regozijar-me sempre nisto, ainda que nada mais tivesse. Se alguma vez vocês deixarem de se alegrar, permitam-me exortá-los a despertar cada uma das graças do Espírito para seu mais ativo exercício. Comecem com a primeira delas, a fé. Creiam, e, ao crerem nisto e naquilo dentre as dez mil bênçãos que Deus prometeu, a alegria brotará em sua alma. Vocês exerceram a fé? Então conduzam para diante a graça irmã da esperança. Comecem a esperar pela ressurreição, a esperar pela segunda vinda, a esperar pela glória que então será revelada. Que fontes de alegria são essas! Quando tiverem se entregado à esperança, prossigam então ao amor, e deixem que esta, a mais bela das irmãs celestiais, lhes mostre o caminho da alegria. Prossigam em amar mais e mais a Deus, e em amar seu povo, e em amar os pobres pecadores; e, à medida que amarem, não deixarão de se alegrar, pois a alegria nasce do amor! O amor tem na mão esquerda a tristeza pelos sofrimentos daqueles a quem ama, mas na mão direita uma santa alegria no próprio fato de amar seus semelhantes; pois aquele que ama faz uma coisa alegre. Se vocês não conseguem tirar alegria nem da esperança, nem da fé, nem do amor, então prossigam à paciência. Creio que uma das mais doces alegrias debaixo do céu brota do mais severo sofrimento quando a paciência é posta em ação. “Doce”, diz Toplady, “é jazer passivo em tua mão, e não conhecer vontade alguma senão a tua.” E é tão doce, tão inexprimivelmente doce, que, segundo minha experiência, a alegria que vem da paciência perfeita é, sob certos aspectos, a mais divina de todas as alegrias que os cristãos conhecem deste lado do céu. O abismo da agonia tem nele uma pérola que não se encontra no monte do deleite. Ponham a paciência em sua obra perfeita, e ela lhes trará o poder de regozijar-se sempre. 143

Seus detratores resistiam-lhe, não com argumento racional, mas fazendo dele objeto de ridículo e piedade. Quando reuniu evidências de que o declínio doutrinário era de fato real e percebido por outras pessoas verdadeiramente sãs, de mente e corpo, dispersas pelo mundo cristão, informou a seus detratores condescendentes que as ilustrações “bastam para mostrar que não é um dispéptico solitário que sozinho julga haver muito mal presente”. 144

The Sword and the Trowel, em fevereiro de 1890, noticiou que um jornal tentou confortar Spurgeon em seu “pior estágio de depressão acerca das dúvidas do dia” com a garantia de que a religião nunca poderia desaparecer. Outros batistas ingleses informaram a alguns inquiridores americanos que Spurgeon se conduzia de tal maneira porque “a enfermidade e a idade haviam enfraquecido seu intelecto”. 145 Um historiador recente dos batistas ingleses, A. C. Underwood, deu continuidade a esse ridículo de Spurgeon ao afirmar: “Homem enfermo, ele via com a mais profunda preocupação todo afastamento da teologia dos puritanos.” Underwood acrescentou insulto ao sugerir que Spurgeon era simplesmente intelectualmente incapaz de apreciar os avanços do pensamento moderno. 146

Quando um crítico sugeriu que as acusações de Spurgeon provinham de sua enfermidade, e não de sua acuidade teológica, ele mostrou todo o seu desgosto com essa esquiva das questões teológicas. “Nossos oponentes”, diz ele, “puseram-se a fazer alusões zombeteiras à nossa enfermidade.” Suas solenes observações sobre teologia são sugeridas por sua dor, segundo o crítico, e não por seu cérebro. Essa falta de cortesia cristã mostrava, no juízo de Spurgeon, que a nova teologia havia introduzido um novo tom e um novo espírito. A adesão à fé antiga determina que um homem deva ser um idiota e deva ser tratado “com aquela piedade desdenhosa que é a quintessência do ódio”. Se um cão de guarda teológico é conhecido também por estar enfermo, “imputem sua fé à sua doença, e finjam que seu fervor nada mais é do que petulância nascida de sua dor”. 147

Sofrimento pela verdade revelada

Foi bom que Spurgeon tivesse uma teologia do sofrimento muito antes de ter a experiência constante dele. A severidade disso em sua própria vida e o modo torpe como seus oponentes o exploravam em busca de proveito útil poderiam ter conduzido um homem mais instável a um desespero cínico. Em 1857, ele pregou “Os Amados Castigados”. Explorou em detalhe, a partir de exemplos bíblicos, por que o povo de Deus experimenta tantos e tão variados males nesta vida. Sempre buscando um fundamento bíblico, uma palavra da verdade revelada, Spurgeon afirmou: “À parte da revelação de Deus, os tratos de Jeová para com suas criaturas neste mundo parecem ser totalmente inexplicáveis.” As religiões dizem que Deus dá bem aos bons; o homem que prospera é favorecido pelos deuses. Ele dá mal aos maus; os que sofrem e não têm êxito são odiosos ao Altíssimo. O texto da Escritura desfaz o mistério; ouça, e “o enigma é desvendado”: “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê, pois, zeloso, e arrepende-te.” A recompensa do cristão não está nesta vida, e a punição do homem ímpio não está aqui.

Ele abate o cristão; ele dá as maiores aflições aos mais piedosos; talvez faça mais ondas de tribulação rolarem sobre o peito do cristão mais santificado do que sobre o coração de qualquer outro homem vivente. Assim, então, devemos lembrar que, visto que este mundo não é o lugar da punição, devemos esperar punição e recompensa no mundo por vir; e devemos crer que a única razão, pois, pela qual Deus aflige seu povo deve ser esta:

Em amor te corrijo, teu ouro a refinar,

Para ao fim, à minha imagem, fazer-te brilhar. 148

NOTAS:

1 S&T, March 1866, 100. “Bells for Horses.”

2  Autobiography, 2:194

3 SS, 1:10.

4 MTP, 1881, 4.

5 S&T, May 1876, 198.

6 Ibid.

7 Ibid., 196.

8 MTP, 1892, 180. This was a Thursday evening sermon on April 3, 1890, and was prepared for reading on the Lord’s Day, April 10, 1892.

9  Autobiography, 1:428.

10 Ibid., 1:431.

11 William Williams, Personal Reminiscences of Charles Haddon Spurgeon (London: The Religious Tract Society, 1895), 46.

12 S&T, January 1875, 5.

13 S&T, December 1881, 626.

14 S&T, October 1869, 479.

15 Ibid., 477.

16 Hannah Wyncoll, ed. The Suffering Letters of C. H. Spurgeon (London: Wakeman Trust, 2007), 10.

17 S&T, January 1875, 7.

18 S&T, May 1877, 211.

19 S&T, December 1869, 566.

20 S&T,May 1871, 237.

21 S&T, June 1871, 282.

22 Ibid.

23 S&T, July 1871, 333.

24 S&T, August 1871, 382.

25 S&T, September 1871, 430.

26 S&T, December 1871, 570.

27 S&T, 1871, Preface.

28 S&T, March 1874, 142.

29 S&T, May 1874, 241.

30 S&T, July 1874, 341.

31 S&T, November 1874, 542.

32 S&T, February 1875, 92.

33 S&T, June 1876, 284.

34 S&T, July 1876, 333.

35 S&T, April 1877, 189.

36 W. Y. Fullerton, Thomas Spurgeon: A Biography (London: Hodder & Stoughton, 1919), 49, 50.

37 S&T, July 1877, 334.

38 S&T, January 1878, 31.

39 Ibid., 40.

40 Fullerton, Thomas Spurgeon, 71.

41 Ibid.

42 S&T, November 1884, 598.

43 Fullerton Thomas Spurgeon, 87.

44 S&T, February 1883, 96.

45 S&T, March 1883, 149.

46 S&T, July 1877, 333.

47 S&T, February 1881, 92.

48 Elizabeth Skoglund, Found Faithful (Grand Rapids: Discovery House Publishers, 2003), 143.

49 Ibid., 150.

50 Ibid., she quoted The Saint and His Saviour, 135.

51 J. C. Carlile, Charles H. spurgeon: An Interpretative Biography (London: Religious Tract Society, 1933), 130f.

52 S&T, January 1878, 45.

53 S&T, February 1878, 91.

54 Ibid.

55 S&T, March 1878, 142.

56 Ibid.

57 S&T, August, 1878, 416.

58 S&T, September 1878, 421.

59 Ibid., 424. “Fishing.”

60 Fullerton, Thomas Spurgeon, 82.

61 Ibid., 83.

62 S&T, 1879, “Preface,” iii.

63 S&T, December 1878, 600.

64 S&T, January 1879, 3.

65 Ibid., 41.

66 S&T, February 1879, 86.

67 S&T, April 1879, 193.

68 Ibid., 193-94.

69 S&T Jan 1870, 47. “Memoranda.”

70 S&T, December 1871, 570.

71 S&T, October 1881, 498.

72 S&T, 1881, 485. Stockwell Orphanage Report.

73 S&T, February 1874, 92.

74 Spurgeon, Letters, “To His Aunt,” 1853.

75 S&T, February 1875, 92.

76 S&T, October 1879, 497.

77 S&T, November 1881, 583.

78 S&T, October 1881, 535.

79 S&T, November 1881, 583.

80 S&T, January 1879, 6.

81 Ibid., 41.

82 S&T, February 1879, 87.

83 Ibid.

84 S&T, 1879, Preface, iii.

85 S&T, March 1882, 150.

86 S&T, April 1879, 193.

87 Ibid.

88 Ibid., 194.

89 S&T, September 1879, 448.

90 S&T, March 1881, 133.

91 Wayland Hoyt, Walks and Talks with Charles H. Spurgeon (Philadelphia: American Baptist Publication Society, 1892), 10.

92 S&T, April 1881, 161.

93 S&T, July 1881 357.

94 S&T, January 1885, 42.

95 S&T, June 1891, 348.

96 S&T, July 1891, 417-18.

97 S&T, May 1879, 242.

98 Fullerton, Thomas Spurgeon, 85f.

99 S&T, May 1879, 242.

100 S&T, October 1879, 497.

101 S&T, 1880, Preface.

102 S&T, August 1880, 421.

103 S&T, February 1881, 84.

104 S&T, March 1881, 147.

105 Ibid.

106 S&T, April 1881. 194.

107 S&T, 1881, 304.

108 S&T, August 1881, 418.

109 S&T, December 1881, 626.

110 Ibid.

111 S&T, January 1882, 42.

112 S&T,. December 1886, 613.

113 S&T, February 1882, 97.

114 S&T, April 1882, 1.

115 Ibid., 200.

116 S&T, August 1882, 385.

117 S&T, September 1882, 461.

118 S&T, January 1883, 43.

119 S&T, May 1883, 248.

120 S&T, June 1883, 331.

121 Ibid.

122 S&T, August 1883, 461.

123 S&T, September 1883, 514.

124 S&T, March 1884, 103.

125 S&T, February 1885, 91-93.

126 Ibid..

127 MTP, 1885. 96.

128 S&T, April 1885 194.

129 S&T, May 1885, 244.

130 Ibid.

131 S&T, October 1885, 558.

132 S&T, December 1885, 645.

133 S&T, 1885, Preface.

134 S&T, January 1886, 42.

135 S&T, June 1886, 253.

136 S&T, July 1886, 343.

137 S&T, June 1886, 294.

138 Susannah Spurgeon, Ten Years After (London: Passmore & Alabaster, 1895), 26.

139 S&T, July 1888, 384.

140 Archives of SBTS in the Snell folder, probably mistaken attribution.

141 C. H. Spurgeon, “The Minister’s Fainting Fits,” Lectures to My Students, 4 vols in 1 (Pasadena, TX: Pilgrim Press, 1990), 1:168f.

142 S&T, June 1886, 295.

143 MTP, 1886, 350.

144 S&T, October 1887, 513. “The Case Proved.”

145  S&T, February 1890, 93.

146 A. C. Underwood, A History of the English Baptists (London: The Baptist Union of Great Britain and Ireland, 1947), 231.

147 S&T, September 1887, 462. Veja também Lewis Drummond, Spurgeon: Prince of Preachers (Grand Rapids, MI: Kregel, 1992), 824. Drummond inclui vários artigos sobre o Downgrade que apareceram em Sword and Trowel, de março a outubro, como apêndices à sua biografia de Spurgeon, 802-34.

148 SS, 4:333-34. NPSP, 1857, 453.

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24 de março (noite)

“Foi ouvido quanto ao que temia” (Hebreus 5.7, ARC).

Esse temor surgiu da sugestão infernal de que Jesus foi completamente abandonado? Pode haver provações mais severas do que esta, mas, sem dúvida, uma das mais severas é ser completamente abandonado.

“Veja”, disse-lhe Satanás, “você não tem amigo em lugar nenhum! Seu Pai fechou as entranhas de sua compaixão para você. Nenhum anjo da corte dEle estenderá a mão para ajudá-Lo. Todo o céu alienou-se de você, que foi deixado sozinho. Vê os companheiros com os quais tem conversado? De que valem eles? Filho de Maria, veja o seu irmão Tiago, o seu amado discípulo João e seu ousado apóstolo Pedro: como os covardes dormem, enquanto você está em sofrimentos! Nenhum amigo lhe foi deixado, quer no céu, quer na terra. Todo o inferno está contra você. Você agitou meu abismo infernal. Enviei cartas por todas as regiões, convocando os príncipes das trevas a se volverem contra você nesta noite. Não pouparemos flechas. Utilizaremos todo nosso poder para vencê-lo. O que você fará?” Talvez esta tenha sido a tentação. Eu creio que sim porque a aparência de um anjo (ver Lucas 22.43), próxima a Ele, encorajando-O, removeu aquele medo.

Jesus foi ouvido quanto ao que temia. Ele não ficou mais sozinho; o céu passou a estar com Ele. Talvez esta tenha sido a razão de seu retorno, três vezes, ao lugar onde seus discípulos estavam. Nas palavras de Hart: Por três vezes Ele foi e retornou, como se buscasse dos homens alguma ajuda. Ele veria, por si mesmo, que todos os homens verdadeiramente O abandonariam. Ele os encontrou dormindo, mas talvez conseguisse um pouco de conforto com o pensamento de que dormiam não por infidelidade, mas por tristeza. Seus espíritos desejavam vigiar, mas a carne era fraca (ver Mateus 26.41). De qualquer forma, Ele “foi ouvido quanto ao que temia”. Jesus foi ouvido em sua mais profunda agonia. Ó minha alma, tu também serás ouvida.

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24 de março (manhã)

“Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo” (Lucas 10.21).

O Salvador era um “homem de dores” (Isaías 53.3). Porém, no mais íntimo de sua alma, Ele levava um inexaurível tesouro de regozijo celestial. Nunca houve um homem que possuiu uma paz mais profunda, mais pura e mais permanente do que a do Senhor Jesus. Ele foi ungido com óleo de alegria, como a nenhum dos seus companheiros (Salmos 45.7). A sua vasta benevolência tinha de proporcionar-Lhe imenso deleite, visto que a benevolência produz alegria. Há poucos relatos de ocasiões em que este regozijo se expressou na vida de Jesus, enquanto Ele esteve na terra. “Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra” (Lucas 10.21).

Cristo tinhas as suas canções, embora as horas negras O cercassem. A sua face estava desfigurada, e seu rosto havia perdido o resplendor da felicidade terrena. Apesar disso, Ele irradiava uma satisfação incomparável, enquanto considerava a recompensa final de sua obra. No meio de sua congregação, Ele cantou seus louvores a Deus. Deste modo, o Senhor é uma figura bendita do que a sua Igreja deve ser no mundo. No presente, a Igreja espera andar bem próxima de seu Senhor, durante todo o caminho repleto de espinhos. Ela é chamada a levar a sua cruz, e ser desprezada pelos seus queridos é a sua porção. Contudo, a Igreja possui um poço profundo de alegria que susterá os santos de Deus. Assim como nosso Senhor, temos ocasiões de intenso deleite, pois “há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo” (Salmos 46.4). Embora no presente sejamos exilados, regozijamo-nos em nosso Rei.

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23 de março (noite)

“E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lucas 22.44).

A pressão mental exercida sobre nosso Senhor forçou sua constituição a uma agitação incomum. Seus poros jorraram gotas de sangue que caíram sobre a terra. Isto prova quão grande deve ter sido o peso do pecado. Isto demonstra o imenso poder do amor de nosso Senhor. De Isaac Ambrose, podemos citar uma apropriada afirmação: “A resina que pinga da árvore, sem que esta seja cortada é sempre melhor. Da preciosa canforeira sai um doce cheiro, quando é cortada com um chicote cheio de nós, ou quando é perfurada por um pedaço de madeira cheio de pregos; mas, veja, ela dá o melhor cheiro quando não há chicote, prego ou corte”. Isto mostra a natureza voluntária dos sofrimentos de Cristo, desde que sem lança, o sangue correu livremente. Não houve necessidade de sanguessugas ou facas; ele correu espontaneamente. Não houve necessidade de proclamarem os líderes: “Brota, ó poço!” (Números 21.17), ele jorrou em torrentes vermelhas. Se os homens sofrem uma grande angústia, aparentemente, o sangue corre ao coração com rapidez. As bochechas se tornam pálidas, e pode ocorrer um desmaio. O sangue se volveu ao íntimo do corpo, como que necessitando alimentar o homem interior, enquanto este passa por sua aflição.

No entanto, contemple o nosso Senhor em sua agonia. Ele está completamente absorto do “eu”, que, em vez de sua agonia impulsionar o sangue rumo ao coração, para nutrir seu homem interior, começou a dirigi-lo para fora. A agonia de Cristo, visto que ela O fez derramar-se no chão, retrata a plenitude da oferta que Ele realizou em benefício dos homens.

Não percebemos quão intensa deve ter sido a luta pela qual Ele passou? Não ouviremos a voz dessa luta falando conosco? “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue” (Hebreus 12.4). Olhe fixamente para o grande Sumo Sacerdote de nossa confissão, suando sangue, e resista ao grande tentador de sua alma.

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23 de março (manhã)

“Asseguro-vos que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas 19.40).

As pedras, realmente, poderiam clamar? Elas poderiam, se Aquele que fez os surdos falarem ordenasse que elas erguessem sua voz. Se elas tivessem a capacidade de falar, teriam muitas coisas a testemunhar em louvor Aquele que as criou pela palavra de seu poder. Nós falaremos bem sobre Aquele que nos tornou novas criaturas e das pedras fez surgir filhos de Abraão? Aquelas velhas pedras poderiam testificar sobre caos e harmonia. Elas poderiam descrever a obra-prima de Deus realizada nos sucessivos estágios do drama da Criação. Nós somos capazes de falar sobre os decretos de Deus, sobre a grande obra de Deus em tempos antigos e sobre tudo o que Ele realizou em favor de sua Igreja, nos dias da antiguidade. Se as pedras tivessem de falar, poderiam testemunhar a respeito dos pedreiros que as quebraram da rocha bruta e as tornaram apropriadas para aquele templo. Nosso glorioso Pedreiro quebrou nosso coração com o martelo de sua Palavra, a fim de nos edificar em seu templo.

Se as pedras clamassem, elas exaltariam o seu construtor, que as poliu e moldou, transformando-as em um palácio. Nosso Arquiteto e Construtor nos colocou em nosso lugar no templo do Deus vivo. Se as pedras pudessem clamar, elas teriam uma longa história para contar-nos como um memorial. Uma grande pedra tem sido frequentemente colocada diante do Senhor como um memorial. Também podemos testemunhar sobre as grandes coisas que o Senhor tem feito por nós. As pedras quebradas da Lei clamam contra nós, mas o próprio Senhor Jesus, que removeu a pedra da entrada do sepulcro, fala ao nosso favor. Não permitiremos que as pedras clamem. Irromperemos em cântico sagrado e glorificaremos para sempre Aquele que é o Pastor e a Pedra de Israel.

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22 de março (noite)

“Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando… Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice” (Mateus 26.39).

Existem vários elementos instrutivos na oração de nosso Salvador, em sua hora de provação. Esta foi uma oração proferida em solidão. Nosso Senhor se afastou até dos três discípulos mais favorecidos. Crente, permaneça por longo tempo em oração solitária, especialmente em tempos de provação. A oração familiar, a oração em grupo e a oração na igreja serão insuficientes. Esses tipos de oração são bastante preciosos, porém as melhores devoções são aquelas realizadas onde nenhum outro ouvido nos escuta, exceto o de Deus.

A oração do Salvador foi humilde. Lucas declara que Jesus se ajoelhou, mas outro evangelista diz que Ele “prostrou-se em terra”. Onde, então, deve ser seu lugar, humilde servo do grande Mestre? Quanta cinza e pó deveriam cobrir sua cabeça! A humildade nos dá segurança em oração. Não existe qualquer esperança de prevalecermos com Deus, exceto se nos humilharmos para que Ele nos exalte no devido tempo.

O Salvador fez a oração de um Filho — “Aba, Pai” (Marcos 14.36). Você descobrirá que reivindicar nossa adoção é uma fortaleza no dia da provação. Como um súdito, você não tem direitos, pois os perdeu, por conta da traição; mas nada pode confiscar de um filho o direito à proteção do pai. Diga: “Meu Pai, ouve o meu clamor”. Observe que a oração do Salvador foi também perseverante. Nosso Senhor orou três vezes. Seja como a viúva persistente, cuja vinda frequente obteve o que a primeira súplica não conseguiu. Finalmente, a oração do Salvador foi resignada. “Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lucas 22.42). Resigne-se, e Deus atenderá. Que tudo seja como Deus quer, e Ele determinará o que é melhor. Contente-se em deixar suas orações nas mãos dEle, que sabe quando, como e o que lhe dar, bem como o que não dar. Suplicando deste modo, com fervor, humildade e resignação, você prevalecerá.

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22 de março (manhã)

“Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste” (João 17.24).

Morte! Por que tu arrancas da terra os excelentes, em quem se encontra todo o nosso deleite? Oh! Cessa a tua obra e poupa os justos! A morte arrebata os mais queridos de nossos amigos. Os mais generosos, os mais dedicados à oração, os mais santos, os mais piedosos têm de morrer. Por quê? Jesus rogou ao Pai: “A minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste”. Esta súplica transporta os nossos queridos, em asas de águia, para o céu. Cada vez que um crente salta desta vida para o Paraíso, isto é uma resposta a esta súplica de Cristo. Um crente idoso afirmou: “Muitas vezes Jesus e seu povo lutam um contra o outro em oração. Você curva seus joelhos em oração e diz: ‘Pai, desejo que os crentes estejam comigo onde eu estou’. O Senhor Jesus suplica: ‘Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste’.” Assim, o discípulo está em oposição ao propósito de seu Senhor.

A alma não pode estar em ambos os lugares — o crente amado não pode estar com você e com Cristo, ao mesmo tempo. Ora, qual destas súplicas será respondida? Embora cause agonia intensa, estou certo de que você deveria dizer: “Senhor, não seja feita a minha vontade, e sim a tua”. Você deve desistir de sua súplica em favor de seu querido, se compreende que Cristo está orando em sentido contrário. Senhor, Tu terás os nossos queridos; pela fé, nós os deixaremos partir.

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21 de março (noite)

“Sereis dispersos, cada um para sua casa, e me deixareis só” (João 16.32).

Poucos se envolveram nas aflições do Getsêmani. A maioria dos discípulos não havia ainda crescido suficientemente na graça, para serem admitidos a contemplar os mistérios da “agonia”. Ocupados com a celebração da Páscoa em seus próprios lares, os discípulos representam os muitos que vivem de acordo com as Escrituras, mas são apenas bebês quanto ao espírito do evangelho. Somente onze homens tiveram o privilégio de entrar no Getsêmani e ver “essa grande maravilha” (Êxodo 3.3). E, dos onze, oito permaneceram distantes, eles tinham companheirismo mas, não daquele tipo íntimo ao qual homens grandemente amados são acolhidos. Somente três, altamente favorecidos, puderam se aproximar do véu do misterioso sofrimento de nosso Senhor. No outro lado daquele véu, mesmo esses três não puderam entrar. Uma determinada distância tinha de existir entre eles e o Senhor. Ele devia pisar sozinho o lagar (ver Isaías 63.3). Pedro e os dois filhos de Zebedeu representam os poucos, experientes e eminentes santos, aos quais nos referimos como “Patriarcas”. Tendo feito coisas grandiosas, em águas grandiosas, eles, em certa medida, podiam medir as enormes ondas da emoção de seu Redentor.

Alguns santos escolhidos por Deus receberam o privilégio de entrar no círculo íntimo de nosso Senhor e ouvir as súplicas do Sumo Sacerdote em agonia; isto para o bem de outros e o fortalecimento deles mesmos em futuros, especiais e terríveis conflitos. Tiveram comunhão com Ele em seus sofrimentos e se conformaram com Ele na sua morte (ver Filipenses 3.10). Apesar disso, mesmo esses santos privilegiados não puderam penetrar nos lugares secretos da aflição de nosso Senhor. “Teus desconhecidos sofrimentos” é a notável expressão usada na liturgia grega. Havia uma câmara interior na agonia de nosso Senhor, fechada ao conhecimento e à comunhão dos homens. Ali, Jesus foi deixado “só”. Ali, Jesus era, mais do que nunca, o “dom inefável” (ver 2 Coríntios 9.15).

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21 de março (manhã)

“Ou poderás tu atar as cadeias do Sete-Estrelo ou soltar os laços do Órion? (Jó 38.31).

Se temos a tendência de nos vangloriarmos de nossas habilidades, o esplendor da natureza logo nos mostra quão insignificantes nós somos. Não podemos mover a menor das estrelas cintilantes, nem mesmo apagar um dos raios do sol da manhã. Falamos a respeito de poder, mas os céus zombam de nós. Quando o Sete-Estrelo, o magnificente aglomerado de estrelas, brilha na primavera, não podemos restringir sua resplandecência. Quando o Órion reina nas alturas e o ano está preso no vigor do inverno, não podemos afrouxar os laços de gelo. As estações cumprem seus ciclos de acordo com a determinação divina. Toda a raça humana não pode mudar a escala de tempo das estações. Senhor, “que é o homem, que dele te lembres?” (Salmos 8.4).

Tanto no mundo natural quanto no espiritual, o poder do homem é limitado. Toda a esperteza e a malícia dos homens não podem fazer cessar o poder de outorgar vida do Consolador. Quando Ele se manifesta visitando e vivificando a Igreja, os inimigos mais antagonistas não podem resistir essa boa obra. Talvez eles zombem dessa obra; todavia, eles são incapazes de restringi-la, assim como são incapazes de reverter a manifestação da primavera, quando o Sete-Estrelo se encontra no céu. Deus deseja a primavera, e assim tem de ser. Somente Ele pode remover o inverno de morte espiritual de um indivíduo ou de uma igreja. Que bênção maravilhosa é o fato de que Deus pode fazer isso! Senhor, acabe com meu inverno e comece a minha primavera. Eu sou incapaz de ressuscitar minha alma de sua morte e de sua estagnação, mas para Ti todas as coisas são possíveis. Preciso de influências celestiais, o resplandecente fulgor de teu amor, a calor de tua graça e a luz de tua face. Estas constituem o Sete-Estrelo para mim. Sofro muito por causa do pecado e da tentação, que são os sinais de meu inverno, de meu terrível Órion. Senhor, realize maravilhas em mim e para mim.

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20 de março (noite)

“Meu amado” (Cântico dos Cânticos 2.8).

Este é um nome precioso que a Igreja do passado deu ao Ungido do Senhor. A Igreja cantou: “O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios” (Cântico dos Cânticos 2.16). Em seu cântico dos cânticos, ela sempre O chama por este nome deleitável — “meu Amado!” Mesmo durante o longo inverno, quando a idolatria mirrou o jardim do Senhor, os profetas da Igreja encontraram ocasião para deixar de lado, por algum tempo, o fardo do Senhor e cantar, como o fez Isaías: “Cantarei ao meu amado o cântico do meu amado a respeito da sua vinha” (Isaías 5.1).

Embora os santos nunca tivessem visto a face do Senhor, pois Ele ainda não se havia tornado carne e habitado entre nós, e apesar de nenhum homem ter contemplado a glória dEle, o Senhor foi “a consolação de Israel” (Lucas 2.25), a esperança e a alegria de todos os eleitos, o “amado” de todos os que eram justos diante do Altíssimo.

Nós, que estamos nos dias de verão da Igreja, desejamos falar sobre Cristo como o Amado de nossa alma e sentir que Ele é preciosíssimo, “o mais distinguido entre dez mil” (Cântico dos Cânticos 5.10) e “totalmente desejável” (Cântico dos Cânticos 5.16). O fato de que a Igreja ama o Senhor é tão verdadeiro, que o apóstolo ousou desafiar todo o universo a separá-la do amor de Cristo e declarou que nem perseguição, nem aflição, nem perigos, nem opressão, nem espada têm sido capazes de separá-la do amor de Cristo (ver Romanos 8.35). O apóstolo se orgulhou com alegria: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Romanos 8.37). Oh, que nós conheçamos mais de Ti, Senhor precioso.

Minha única possessão é o teu amor;
Embaixo, na terra, ou em cima, no céu;
Não tenho qualquer outro abrigo.
Com intenso fervor, eu oro, a cada dia,
Te peço, imploro: eu quero estar contigo!