“Embora não esteja longe de cada um de nós.” — Atos 17.27
Quando o homem desobedeceu ao seu Deus, morreu espiritualmente, e essa morte consistiu na separação de sua alma de Deus. Desde aquele momento, o homem passou a pensar que Deus estava distante, e isso tem sido, desde então, a sua religião em todas as épocas. Ou ele disse: “Não há Deus”; ou creu que a criação visível fosse Deus, o que é praticamente o mesmo que não ter Deus algum; ou então imaginou Deus como um Ser distante, misterioso, que não toma conhecimento do homem. Mesmo depois de alcançar uma concepção melhor de Deus, ainda assim o considerou difícil de encontrar e difícil de ser invocado. Porque o seu próprio coração está longe de Deus, ele imagina que o coração de Deus está longe dele. Mas não é assim. O Deus vivo não está longe de nenhum de nós; pois “nele vivemos, e nos movemos, e existimos”.
A proximidade de Deus para com o homem é um ensino da revelação. Voltemos ao relato do jardim do Éden e vejamos ali uma evidência primeva dessa proximidade de Deus para com o homem. Adão, tendo transgredido, escondeu-se entre as árvores do jardim; mas, em seu esconderijo, Deus o procurou, e a voz do Senhor Deus foi ouvida, andando entre as árvores do jardim e dizendo: “Adão, onde estás?” O homem não busca a Deus, mas Deus busca o homem. Embora a voz do homem não seja: “Onde está o meu Deus?”, a voz de Deus é: “Adão, onde estás?” Ao longo de toda a história, Deus tem mantido familiaridade com o homem. Ele lhe falou de muitas maneiras, mas principalmente por meio de homens escolhidos. Um após outro, levantou profetas e, por meio de suas vozes de advertência, pleiteou com os homens e os convidou a buscar a sua face. A sua própria voz poderia causar espanto e distância, e por isso ele tem usado vozes humanas, para que pudesse aproximar-se mais do coração. Toda a história do povo escolhido, como a lemos no Antigo Testamento, revela a proximidade de Jeová; qualquer que seja o trecho que lemos, sabemos que, dentro dele, acima dele ou por trás dele, o Senhor está próximo, mesmo quando parece ter-se ocultado. Nestes últimos dias, o Senhor aproximou-se ainda mais de nós, pois nos falou por meio de seu Filho. O Filho de Deus tornou-se o Amigo dos pecadores: poderia ele aproximar-se mais do que isso? O Verbo se fez carne e habitou entre os homens, e os homens contemplaram a sua glória. Osso dos nossos ossos e carne da nossa carne é o Cristo, e ainda assim ele é verdadeiro Deus de verdadeiro Deus. Nele, Deus se torna parente próximo do homem, e a humanidade é trazida para perto do trono eterno. Cristo Jesus é Deus e homem em uma só pessoa, e assim se estabelece a mais estreita união entre Deus e o homem. Em verdade, em verdade, o Senhor Deus não está longe de cada um de nós em seu próprio e amado Filho.
Hoje, embora Jesus tenha subido ao alto, o Espírito de Deus permanece no meio da igreja, e assim, mais uma vez, o Senhor está perto. O Consolador continua em ação; o Convencedor ainda pressiona a consciência do homem quanto ao pecado, à justiça e ao juízo vindouro. Ainda opera o Espírito Santo juntamente com a Palavra de Deus, dirigindo os seus ministros a falarem de tal modo que seus ouvintes percebam uma personalidade e uma precisão na palavra proclamada. Ó vós que ouvis o evangelho, estai certos disto: que o reino de Deus se aproximou de vós em sentido muito especial! Posso dizer a vosso respeito, com ênfase: “Ele não está longe de nenhum de vós, e vós não estais longe do reino.”
Que Deus está perto por sua onipresença e por seus graciosos tratos com os homens é o claro ensino do volume inspirado. Para a mente esclarecida, Deus é evidentemente visto como estando próximo nas obras da natureza. De quem era a voz que ouvimos na noite passada, trovejando sobre nossas cabeças? Quem formou as gotas de chuva que refrescaram os campos? Quem soprou a brisa suave que refrescou e animou as flores murchas? Quem nos concedeu este dia tão límpido, tão sereno, tão brilhante, “o enlace nupcial da terra e do céu”? Quem está produzindo para nós as nossas colheitas e preparando alimento para o homem e para o animal? É Deus quem faz tudo isso, fazendo-o por meios que estão além da nossa compreensão, e, no entanto, realizando-o diante dos nossos olhos. Não há outra força no universo senão aquela que é derivada de Deus. Não há outra vida, exceto a vida que brotou da eterna autoexistência. Deus está em tudo. Acima de nós, nas estrelas, ele resplandece; mas também opera na relva sob os nossos pés. Cada gota de orvalho reflete a sua glória, e cada grão de pó traz o seu selo. Ele está dentro de nós, mantendo nossos corações em movimento; e ao nosso redor, conferindo ao ar que respiramos o poder de sustentar a vida.
Assim também o Senhor está muito próximo na providência. Embora esta era ímpia procure banir a Deus, ainda assim ele está presente nas transações de cada dia. Todas as coisas procedem dele, tanto as pequenas quanto as grandes. Ele ordena, e governa, ou domina sobre tudo. Pestilência e fome, terremoto e furacão, são os seus passos mais pesados; e os dias e as noites, as colheitas e as primaveras, são as suas pegadas mais suaves. Os acontecimentos da história, quer em grande quer em pequena escala, revelam um desígnio e uma ordenação evidentes. Todas as coisas cooperam, com singular exatidão e pontualidade, para cumprir um elevado propósito. É moda, hoje em dia, dizer que essas coisas são coincidências. É uma bela palavra para meninos brincarem. Alguns de nós observamos as providências de Deus, e nunca estamos sem uma providência a observar. Vemos a mão de Deus na vida cotidiana, e nos alegramos em fazê-lo, ainda que sejamos ridicularizados como pobres tolos. Aqueles que podem ver bem podem contentar-se em suportar as zombarias dos cegos. Em minha própria experiência pessoal, encontrei numerosos sinais singulares e especiais da atuação de Deus na providência, alguns dos quais dificilmente ousaria contar, pois poderiam parecer inacreditáveis. Lembro-me de pregar em Halifax, em um enorme edifício de madeira que fora erigido para esse propósito. Durante o dia anterior, a neve caiu intensamente, e acumulou-se em grande quantidade sobre o chão. Ainda assim, o povo veio em milhares e encheu aquele vasto edifício; e com gratidão recordo como se retiraram para suas casas em segurança. Mal haviam eles saído completamente do edifício, quando este desabou em uma ruína gigantesca. Por que não caiu quando as multidões estavam lá dentro? Em minha alegria por ninguém ter sido ferido, pensei que Deus estava ali, e louvei o seu santo nome. Foi isso uma peça de superstição?
Tomai outro exemplo. Certa vez eu estava em grande perplexidade a respeito de um assunto de grande importância para a causa de Deus. Coloquei-o diante de Deus em oração, mas ainda assim não via o caminho: não conseguia obter direção nem orientação. Tendo de pregar no norte de Londres, um amigo bondosamente me levou até o local, e depois pedi que me conduzisse à casa de um dos nossos irmãos a quem eu desejava ver. Mal reparei no caminho, até que, por fim, me vi numa rua que me era desconhecida. Então disse: “Certamente você está indo pelo caminho errado.” “Não”, respondeu ele, “estou perfeitamente certo.” Ele se dirigia à residência particular da pessoa que eu havia mencionado, mas eu sabia que, naquele horário, ele estaria em seu escritório na City, e eu tinha a intenção de ir até lá depois dele. Estávamos no caminho errado, e assim a cabeça do cavalo foi virada para uma rua lateral que eu não conhecia; e, ao passarmos por ela, vi o único homem em todo o mundo que poderia ajudar-me a sair da minha dificuldade. Como ele veio a estar ali, não posso dizer; como eu vim a estar ali, já vos contei. De maneira estranha o Senhor me guiara, e a informação conduziu o assunto a um desfecho feliz. Deus estava perto de mim. Mera coincidência, dizem-me! Mera coincidência! Permiti-me contar uma história verdadeira. Outro dia deparei-me com uma série de semelhantes “meras coincidências”. Parti de trem para certa cidade, e o trem seguiu até chegarmos a uma junção, onde me foi dito que eu deveria trocar. Por uma estranha coincidência, outro trem havia acabado de chegar e seguia na direção que eu desejava. Tive apenas tempo de atravessar a plataforma e tomar meu lugar, e ele partiu. Alguns quilômetros adiante, ouvi novamente uma voz, dizendo: “Troque aqui!” Troquei pela segunda vez, e, por outra coincidência, um trem estava justamente partindo para o meu destino. Quando cheguei ao fim da minha viagem de trem, outra coincidência me aguardava, pois um amigo bem conhecido estava ali com sua carruagem, e ele me levou à sua casa, onde, por mais uma coincidência, um jantar estava pronto. À mesa havia um prato preparado para uma pessoa que não podia comer carne. Não foi esta uma coincidência especial para mim? Fui à capela para pregar, e a encontrei cheia de pessoas ansiosas por ouvir: outra coincidência, sem dúvida! Alguém exclama: “Você fala tolices; tudo isso foi arranjado.” Confesso que também pensei assim. Alegra-me que reconheçais a mão que arranja; mas, perdoai-me, eu também vi uma mão que arranja nos outros casos, e penso que ela era tão evidente neles quanto neste. Para a história da minha viagem encontrais uma explicação num arranjo prévio; e, na história das nações e na narrativa de cada vida humana, também encontro uma explicação na presença de uma mente divina que ordena todas as coisas. Quando o arranjo humano explica uma série de acontecimentos, vós o admitis sem questionar; por que não admitir o arranjo divino, visto que ele explica igualmente bem os grandes acontecimentos da história? Hesitais? Temo que seja porque estais resolvidos a não crer em um caso, enquanto no outro, não tendo teoria a sustentar, seguis o vosso bom senso natural.
Deus está tão perto de nós que ouve as orações do seu povo e ordena os acontecimentos em correspondência com essas orações. Duvidais disso? Dizeis-me que as muitas respostas à oração que narramos com alegria são meras coincidências? Mal tenho paciência para vos responder. Contudo, permiti-me contar-vos alguns incidentes curiosos que me aconteceram ontem. Pela manhã, quando entrei em meu gabinete, necessitava quebrar o jejum. Mal o desejei, e já o meu desjejum estava sobre a mesa. Durante o dia, desejei um copo de água. Em poucos momentos, ele estava ao meu lado. Precisei de alguém para levar um telegrama ao correio por mim. Ora! Num instante, apareceu um mensageiro adequado. Foi isto magia? Chegou a noite, e eu desejei que as lâmpadas fossem acesas e as cortinas fechadas. Em poucos segundos, o meu desejo foi atendido. Foram essas coisas “meras coincidências”? “Não”, exclama alguém, “você tocou a campainha.” Agora que penso nisso, alguém realmente puxou uma alavanca; mas eu não vi campainha alguma. Ainda assim, assegurais-me que o toque de uma campainha explica tudo. Não discutirei convosco esse ponto. Apenas, quando eu vos concedo isso, quero que também me concedais quando vos digo que oramos ao Senhor nosso Deus e que recebemos respostas às nossas orações. A nossa experiência diária é que a oração é respondida pelo Senhor nosso Deus, pois ele está perto para cumprir as suas promessas e para conceder as petições daqueles que nele confiam. Vós credes no poder da campainha, e nós cremos no poder da oração. O nosso falar com o Deus vivo é para nós tão fato e tão realidade quanto o tocar de uma campainha é para vós; por que, então, derramais desprezo sobre nós? Por que nos quereis silenciar com o vosso grande discurso sobre coincidências? Zombai quanto quiserdes! Não oraremos menos enquanto, em nossa experiência, encontrarmos o Senhor tão pronto a ouvir, tão abundante em abençoar. O tolo diz em seu coração: “Não há Deus”; mas nem mesmo ele é tão tolo quanto aquele que, crendo que há um Deus, não admite que ele esteja suficientemente perto para ouvir e responder à oração. Oh, que os meus ouvintes que duvidam da proximidade de Deus clamem a ele e vejam se não se deixará achar por eles!
Amados, o fato é que Deus está em toda parte. Ele está tão presente em todos os lugares que está especialmente perto de cada pessoa. Sua circunferência não está em parte alguma, mas o seu centro está em toda parte. Deus está tão contigo como se não houvesse outra pessoa no mundo. O fato de ele estar perto de ti não o torna distante de outro. Esta verdade é elevada, e não podemos alcançá-la, mas nem por isso deixa de ser certa. Deus está perto de cada um de nós, observando-nos com exatidão, percebendo os intentos secretos de nossos corações. Ele está perto de nós, compadecendo-se de nós e pensando em nós. Ele está perto de nós em energia ativa, pronto a interpor-se e socorrer-nos. Ele está perto de nós em todos os lugares e em todos os tempos. De noite e de dia ele nos cerca. Neste momento, “certamente Deus está neste lugar.” Sabei-o e enchei-vos de temor reverente. Rogo que, antes que este culto termine, venhais a sabê-lo ao sentir o poder de sua graça. Em resposta à oração, esteja a presença e o poder do Senhor com as palavras que procurarei falar-vos, embora eu fale com grande fraqueza.
Primeiramente, dirigirei-me por um momento àqueles que apenas tateiam após ele, mas que ainda não o perceberam; e depois falarei àqueles que o encontraram e que sabem, por doce experiência, quão perto ele está dos seus escolhidos.
I. A VÓS QUE ANDAIS TATEANDO EM BUSCA DE DEUS, eu falo com profunda seriedade. Como homens cegos que apalpam a parede, estendeis as mãos para tatear após ele. Regozijai-vos, pois ele não está longe de vós!
Que diremos, então? Quão ímpio é o pecado quando visto sob esta luz! Vós transgredistes os mandamentos do grande Rei na presença do próprio Rei. Quando o blasfemastes, pouco caso fizestes dele; contudo, falastes ao seu ouvido. Quando ridicularizastes os seus caminhos e o seu povo, fizestes isso diante de sua face. Insultastes o vosso Criador enquanto os seus olhos estavam fixos em vós. Porventura imaginastes que estáveis nos confins do seu domínio, longe do seu trono? e que, portanto, tínheis liberdade para ofender? Ó senhor, estais enganado; rebelastes-vos em seus próprios átrios! Ele ouviu as vossas palavras malignas; ele registrou os vossos atos injustos. Pensai nisto, vós que jamais buscaste misericórdia de suas mãos; desde a vossa infância até agora tendes vivido sob sua constante observação. Talvez tenhais visto aquelas colmeias que permitem, por meio de um vidro, observar tudo o que as abelhas estão fazendo. Já as vistes ocupadas em seus favos. Todo o mundo é como uma colmeia desse tipo para a mente de Deus. Vós não poderíeis ler os desígnios e intentos das abelhas, mas o Senhor tem lido os vossos pensamentos e imaginações. Alguns de vós teriam pecado como pecaram, se tivessem percebido a presença divina? Teríeis ousado ir tão longe como fostes, se o tivésseis visto como ele vos tem visto? “Silêncio”, dizem eles, quando estão falando mal de alguém, “lá vem ele.” Por que não fizestes silêncio, visto que Deus estava ali? Servos que desperdiçaram o tempo de seu senhor apressam-se quando veem que ele está próximo: como é que vós não apenas vos demorastes, mas fizestes o mal enquanto o vosso Senhor estava olhando por sobre o vosso ombro? Quão ímpio é o pecado que se pratica apesar da presença e da observação de Deus!
Em seguida, notai quão profana é a indiferença! Ser indiferente a Deus quando Deus está perto na glória de sua majestade e nas riquezas de seu amor é sinal de grande dureza de coração. Deus está perto, suprindo-vos o fôlego, conservando-vos na vida, e ainda assim não vos importais! Homens santos têm tremido de reverência em sua presença, e vós haveis tratado isso com leviandade! Como pode ser isso? Se ele tivesse ido em viagem, e vós o tivésseis esquecido, poderia haver alguma pequena desculpa; mas, estando o Senhor tão próximo de vós, como pudestes ignorá-lo? Posso chamar isso de outra coisa senão pura profanação? Se um anjo, na presença do Altíssimo, recusasse adorar; se um espírito, diante de seu trono ardente, mantivesse um silêncio obstinado, consideraríamos isso como uma sedição evidente: que direi, então, do vosso caso? Que direi àqueles que, aqui, na presença de Deus, têm vivido dez, vinte, trinta, quarenta ou cinquenta anos, e ainda assim jamais deram ao seu Senhor um pensamento sério? Tendes tão pouca estima pelo vosso Criador? Não é ele digno de um pensamento? Não dobraríeis o joelho em homenagem, nem levantaríeis a voz em ação de graças? Ó homens e mulheres, por que agis assim de modo tão injusto, tão ingrato? Que fez Deus para que o desprezeis? Como podeis justificar-vos, vivendo e movendo-vos nele, e ainda assim não tendo mais cuidado por ele do que se tal ser não existisse?
Além disso, se Deus está tão perto, isso demonstra a evidente impossibilidade de enganá-lo. Deus não se deixa escarnecer. Pensas tu que, se fores à casa de Deus, isso te aproveitará, embora não vás a Deus? Imaginas que repetir certas palavras piedosas será suficiente, embora o teu coração vagueie pelos montes da vaidade? Pensaste que fazer uma profissão religiosa bastará? e que Deus será enganado a ponto de considerar-te seu servo e seu filho, se tomares sobre ti os nomes que pertencem a tais relações? Julgas que ele pode ser enganado quando está perto de ti, ao teu redor e dentro de ti? O teu coração está tão aberto diante dele como o teu livro está aberto diante de ti, e ele te lê como lês a mais clara impressão. Como, então, poderias enganá-lo? Acautelai-vos, rogo-vos, de ter quaisquer tratos com Deus que não sejam de absoluta sinceridade. Devemos ser verdadeiros até o âmago diante daquele que tudo vê. Uma mentira aos nossos semelhantes é baixeza, mas uma mentira a Deus é loucura. Que pretendes tu, ó fingidor de piedade, se o teu coração não é reto para com Deus? Julgas poder enganar o único Deus sábio? Poderás iludir aqueles olhos diante dos quais todas as coisas estão nuas e patentes? Ele te cerca por trás e pela frente e põe a mão sobre ti; ele possui os teus rins e sonda o teu coração: sê franco e sincero com ele, para que não te fira como feriu Ananias e Safira. Oh, que as palavras de Agar no deserto se levantassem de todo coração — “Tu, Deus, me vês”! Que Deus esteja tão perto de nós quanto nós estamos de nós mesmos deveria encher-nos de profunda vergonha, se de algum modo parecêssemos ser aquilo que, nas profundezas do nosso ser, não somos.
Mas, ouvi! isto nos mostra quão vã é toda esperança de escapar de Deus! E se um homem disser que não há Deus? Deus continua sendo Deus. E se um homem esquecer a Deus e, portanto, deixar de tremer? Há tanto motivo para tremer quanto sempre houve, e até mais. E se um homem for capaz, ao longo de toda a vida, de fechar os olhos para o seu estado perdido e, por fim, morrer sem angústias em sua morte — que importa isso? Ele não pode escapar do juízo, não pode fugir dos braços longínquos da justiça. A sentença imparcial do Senhor o alcançará, ainda que ele mergulhe nas profundezas das trevas ou faça a sua cama no inferno. Disse-se certa vez de todo o mundo que não passava de uma prisão para o homem que havia ofendido a César; e posso dizer do vasto universo, por mais amplo que seja, que não passa de uma estreita cela para o homem que ofendeu a Deus. Para onde poderás fugir, meu ouvinte? Onde poderás esconder-te? Nem montanhas nem abismos podem ocultar-te daqueles olhos de fogo! Se tivesses ao menos meio grão de bom senso, cairias aos pés daquele que te persegue e invocarias a sua misericórdia! Confessa a tua impiedade e suplica perdão. Abandona o teu pecado e reconcilia-te com o teu Juiz mediante a morte de seu Filho: então aqueles olhos serão para ti sóis de luz, enquanto agora são como chamas de fogo.
Este é o lado solene da questão, e confesso que é sombrio como a coluna de nuvem quando voltou a sua escuridão sobre os egípcios. Oh, este Deus! este Deus que não está longe de nós! Que faremos? Nós o provocamos! Ele se ira contra o ímpio todos os dias. A sua grande longanimidade retém os golpes de sua justiça; mas eles hão de vir um dia, pois de modo algum inocentará o culpado. Ó meu ouvinte ímpio, tu pecaste, e estás pecando na presença do teu Deus; rogo-te, considera isto! Tens sido indiferente, e ainda és indiferente, na presença daquele que, com um pensamento, pode fazer-te definhar, e com uma palavra pode enviar-te para onde a esperança jamais chega. Sê advertido, eu te suplico. Que Deus abençoe esta solene advertência para o despertar de tua alma!
Há um lado luminoso nesta grande verdade da proximidade divina. Se Deus não está longe de cada um de nós, quão cheia de esperança é a nossa busca por ele! Se eu busco a Deus, e ele não está longe de mim, certamente o encontrarei. Não preciso subir ao céu nem descer ao abismo, pois ele está perto! Oh, por fé que o perceba! Onde eu estiver, sentado ou em pé, posso achegar-me a ele. Se eu o busco, é certo que ele já me busca, pois, de outro modo, jamais o teria buscado. Quando o pecador busca a Deus e Deus busca o pecador, logo se encontrarão. Não está escrito: “Se o buscares, ele se deixará achar por ti”? “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto.” A onipresença traz grande consolação àqueles que anelam por seu Deus.
Quão perceptível deve ser o arrependimento! Se Deus está perto de ti, ele vê aquela lágrima que agora mesmo queimou a tua face. Ele nota esse suspiro; vê esse arquejar do peito; conhece essa perturbação da alma; enxerga essa inquietação. Quando me coloco ao lado de uma pessoa dominada pela emoção, não demoro a simpatizar com ela; não posso evitar: Deus é muito mais compassivo do que nós, e, como um pai se compadece de seus filhos, assim ele se compadece daqueles que o temem. Se o teu coração está se partindo, o teu Deus o percebe. Se estás lamentando o teu pecado, ele o ouve e clama: “Como te deixaria?” A visão das tuas lágrimas o comoveu, o som dos teus suspiros moveu a sua compaixão. Não duvides disto; não podes tê-lo tão perto e, ao mesmo tempo, tê-lo insensível, pois o seu nome é Amor. Ele te ouviu e se compadeceu de ti quando, ontem, em teu aposento, estavas em agonia de vergonha e temor. Ele te vê neste momento em tua solidão e profunda angústia. Fugitivo e errante podes ser, mas ainda assim o Senhor está perto.
Visto que o Senhor está perto de nós, quão prontamente ele perceberá a nossa fé! Se tu, nesta manhã, lançares um olhar para a cruz, o Senhor verá o teu olhar voltado para lá. Ele vê o fraco assim como o forte; se tens apenas um grão de fé como um grão de mostarda, ele imediatamente o discernirá. Quando o mensageiro da igreja não pode percebê-la, e antes que o ministro possa detectá-la, Deus já viu a fé. Crês tu que Jesus é o Cristo? Confias nele a tua própria alma? Deus já aceitou a tua fé e declarou: “Agora, pois, já nenhuma condenação há.” Se ele estivesse longe, a tua fé poderia passar despercebida; mas, estando tão perto, ele vê o primeiro lampejo de luz em tua mente. Ainda que a tua confiança seja da mais débil espécie, ele a aceita e a guarda.
Se Deus está tão perto de ti, pobre alma, quão prontamente ele pode revelar-se a ti! Sei quão tristemente és impelido ao desespero, e, contudo, antes que aquele relógio termine a meia hora, o teu desespero pode desaparecer. Nada há entre ti e o teu Salvador senão a tua incredulidade. Afasta a incredulidade, e verás a Jesus, para alegria do teu coração. Um prisioneiro foi levado para morrer, e, enquanto seguia no carro da morte, o seu coração estava pesado ao pensar na morte, e ninguém, dentre toda a multidão, podia animá-lo. A forca já estava à vista, e isso lhe ocultava o sol. Mas eis que o seu príncipe veio cavalgando com grande pressa, trazendo um perdão livre. Então o homem abriu os olhos e, como se tivesse ressuscitado dos mortos, voltou a uma feliz consciência. A visão do seu príncipe dissipara toda a escuridão. Ele declarou que jamais vira um semblante mais belo em todos os seus dias; e, quando leu o seu perdão, jurou que nenhuma poesia seria jamais mais cara ao seu coração do que aquelas poucas linhas de graça soberana. Amigos, lembro-me bem de quando eu estava naquele carro da morte, e Jesus veio a mim com perdão. A morte e o inferno estavam diante de mim; mas regozijei-me grandemente quando vi as marcas dos cravos em suas mãos e pés, e a ferida em seu lado. Quando ele disse: “Os teus pecados, que são muitos, todos te são perdoados”, pensei que nunca havia visto tal formosura, nem ouvido tal música em todos os meus dias. Não, não foi mero pensamento; estou certo de que o meu juízo estava correto. A própria eternidade jamais me revelará algo mais doce. O meu Senhor que perdoa não tem igual nem rival. Oh, que Cristo é este que se me manifestou, a mim, um pecador culpado e condenado, a caminho do inferno! Bendito seja o seu nome, ele levou no madeiro a minha maldição, a minha vergonha e a minha morte, e eu estou livre! Esta é a manifestação que desejo para cada um de vós; e, visto que Jesus está perto, quão prontamente ele pode conceder-vos tal dádiva!
Se o Senhor está perto, não há razão para que ele não conceda agora o perdão a todos vós que o buscais. Antes que as palavras que falo tenham chegado aos vossos ouvidos, Deus, na pessoa de seu Filho, pode manifestar-se a vós e fazer o vosso coração saltar de alegria. Faze-o, ó Senhor Jesus! Concede uma visão de ti mesmo, bom Senhor: concede-a agora, e terás o louvor. Deus frequentemente se revela por meio de homens aos homens: por que não haveria de falar convosco por meio deste meu sermão? Deus frequentemente se revela aos homens pelas Escrituras. Um precioso texto aplicado a um coração aflito logo lhe dará paz. Portanto, tem bom ânimo, meu ouvinte; Deus está perto de ti, e, portanto, a esperança está perto de ti. Crê em Jesus, e ele te dará descanso. Ele espera para ser gracioso; ele procura aqueles que são objetos de misericórdia. Tem bom ânimo, pois Jesus de Nazaré está passando. Mesmo agora ele está perto.
II. O tempo é breve demais; portanto, devo voltar-me imediatamente para o povo de Deus e falar àqueles de vós que encontrastes o Senhor. Irmãos, não necessitais que eu busque palavras escolhidas quando me dirijo a vós. Sois soldados, e precisais apenas de frases curtas, como aquelas que os capitães dirigem às fileiras. Digo-vos, vós que fostes redimidos por precioso sangue e tornados sensíveis ao Deus que tudo vos envolve, observai quão estritamente Deus nos observa! Andemos diante dele, vivamos em sua presença. Eu vos exorto: lembrai-vos de que o Senhor vosso Deus é Deus zeloso. Sob obrigações tão pesadas para com ele, e ligados a ele por vínculos tão maravilhosos de amor, vivei — vivei obedientemente, vivei intensamente, vivei com concentração de coração, de mente e de força; vivei inteiramente para ele. Estando sempre sob o seu olhar, colocai-o sempre diante de vós. Seja a vossa vida tal como deve ser à luz intensa que irradia ao redor do trono da Deidade. Oh, nossas pobres vidas! Nossas vidas vazias! Deus as encha e as eleve! Que ele nos ajude a levantar-nos de nosso estado morto por meio de um senso de sua presença viva. Se a proximidade de Deus não nos faz clamar a ele para que faça de nós verdadeiros homens, que o fará? Ó tu que estás tão divinamente perto, atrai a nossa vida para dentro da tua vida!
Se Deus não está longe de nós, vejamos quão prontamente ele ouve as nossas orações! Às vezes me surpreendo com o poder de uma oração débil em obter uma resposta rápida. “Surpreendo-me”, direis vós: por que me surpreendo? pois está escrito: “Antes que clamem, eu responderei; e, estando ainda falando, eu os ouvirei.” Sim, assim está escrito, mas nem sempre apreendemos esse fato. Quando a promessa se cumpre prontamente, nunca sentistes a vossa carne estremecer com solene reverência na presença de Deus, que de modo tão notável se aproximou à voz da oração? Desviais-vos de vossos negócios por um minuto e orais, e retornai calmos e serenos. Isto é o dedo de Deus. Não deixais o balcão, mas apenas lançais um olhar para o alto, e aquilo que buscais vos é concedido. Não é assim muitas vezes, meus amados? Vós sabeis que é. Não se explica facilmente pelo fato de que Deus está à vossa direita, pronto para ser gracioso? Não há necessidade, em todos os casos, de interromper a continuidade dos negócios e afastar-se das ocupações desta vida, pois o Senhor está na loja e no celeiro, assim como no aposento. Estais no meio de uma multidão de homens ímpios, mas Deus também está ali, se a sua providência vos chamou a tal companhia. A pressão de ocupações incessantes sobrecarrega a vossa mente, mas seria menor se sentísseis que Deus está ali para ajudar e guiar.
Quão simples é a comunhão com o Senhor quando sabemos que ele está perto de nós! Quando buscais quietude para meditação, julgais admirável que entreis rapidamente em comunhão com Deus? Não está ele à vossa espera? Se ides ao campo com Isaque, Deus está ali. Recorrei, portanto, à comunhão com Deus sem dúvida de obtê-la. Falai, pois ele ouve; escutai, pois ele fala. Orai sem cessar, porque Deus está perto sem cessar. Derramai diante dele o vosso coração, pois ele está sempre perto para observar os derramamentos do vosso coração. A vida torna-se coisa bendita quando nos lembramos de que a passamos com Deus. Nele habitamos. Não é como se fôssemos visitantes, que tivessem de fazer visitas a Deus de vez em quando; mas ele é a nossa habitação. Não precisamos buscá-lo como se ele tivesse se ocultado, pois ele é o sol cuja presença enche a nossa vida de força e de consolo. Ele está em nós e, portanto, conosco. Portanto, oremos, e louvemos, e mantenhamos doce comunhão com ele.
Além disso, queridos irmãos, se Deus está tão perto de nós, quão seguramente somos defendidos! Uma senhora cristã, não muito tempo atrás, teve um sonho que não era sonho, mas fato. Ela viu a si mesma cercada por Deus; envolvida acima, abaixo e ao redor, como por um resplendor de luz. Um brilho inconcebível formava para ela um pavilhão; e, enquanto permanecia no meio daquela glória, via todas as suas preocupações, e suas aflições, e suas tentações, e seus pecados, vagando ao redor do lado de fora daquele muro de luz, incapazes de alcançá-la. A menos que aquela própria luz se abrisse e lhes desse passagem, ela estava serenamente segura, embora pudesse ver os perigos que, de outra forma, a destruiriam. Não é o Senhor um muro de fogo ao nosso redor, e a glória no meio de nós? Não está escrito: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo descansará à sombra do Onipotente”? O mal não chegará perto daquele que está perto de Deus. Aonde quer que vamos, uma guarda mais que real nos cerca; pois o Senhor dos Exércitos está conosco. Olhos cegos, olhos cegos, não vedes o Protetor infinito! Se os nossos olhos fossem ungidos, veríamos o monte cheio de cavalos e carros de fogo ao nosso redor; não, melhor do que cavalos, embora sejam de fogo, veríamos o Deus onipotente ser o nosso escudo e broquel. Quero que vós, povo de Deus, sintais que nunca estais em verdadeiro perigo, porque nunca estais longe de Deus. Como pode estar em perigo aquele a quem o Senhor guarda dia e noite?
Ao Deus vivo recorremos para a vida quando somos ameaçados pelos poderes da morte. Tens um pequeno peixe em tua mão: ele logo morrerá se ali permanecer. Acaba de ser tirado do ribeiro; apressa-te em devolvê-lo ao seu elemento, e logo se restabelecerá. No rio encontrará tudo de que necessita; assim também, em Deus temos tudo de que precisamos. Em Deus habitamos em toda suficiência e em perfeita paz. Como a pomba no pombal, e o coelho nas rochas, e o pintinho sob as asas da galinha, assim habitamos em Deus. Quem é aquele que pode fazer-nos mal, visto que Deus está perto?
Se o Senhor está assim perto de nós, quão prontamente ele pode renovar as nossas graças! Ai de nós! as nossas almas com demasiada frequência necessitam de restauração; mas, bendito seja o seu nome, ele está à mão para renovar a nossa vida. Confesso, com vergonha, que tenho me sentido entorpecido, morto e pesado, e pensei que fosse o tempo, ou a fraqueza do meu corpo, ou alguma outra causa; mas, qualquer que fosse a causa, encontrei apenas um remédio. Num instante, mais rápido que um piscar de olhos, fui elevado à vida, ao amor, à luz e à energia: despertei durante a noite com todos os sinos da minha alma repicando louvores. Disse a mim mesmo: “Que criatura estranha eu sou! Agora posso alegrar-me no meu Deus; agora posso orar com santa eficácia; agora posso saltar como um cervo.” Então desejei correr ao púlpito e pregar imediatamente. Antes eu era todo morte, e o Senhor me tornou todo vida. Não é isso o que se deve esperar, visto que Deus está perto para ouvir as nossas lamentações? Ele fala, e tudo se faz. “A sua palavra corre velozmente.” Pelo exercício da fé, o Senhor nos capacita a vencer o corpo. Platão costumava dizer que, pelo pensamento, a alma podia sair do corpo. Não sou filósofo bastante para saber se isso é verdade ou não; na verdade, nunca tentei deixar o meu corpo, pois receio que talvez não encontrasse o caminho de volta; mas isto sei: pela vida espiritual, o espírito pode elevar-se acima do corpo. Alguma dor aguda, algum sofrimento intenso vos fez sentir como se não desejásseis viver, e, no entanto, um lampejo de santa alegria vos atravessou, e ristes da dor, e até fostes vivificados por ela. A dor é um cavalo áspero e sem sela que derruba todo cavaleiro comum; mas, quando chega aquele que é instruído pelo Espírito, ele salta sobre ela, monta-a e ultrapassa o vento. Quantos pensamentos sublimes têm sido filhos da dor. Ora, se Deus está conosco, vemos como tal coisa pode ser. Nunca desespereis enquanto o Deus vivo está perto. Crede no Vivente, e, tocando a orla de suas vestes, a virtude de sua vida fluirá para o vosso coração moribundo: “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.”
Às vezes ouço pessoas falarem da “vida mais elevada”. Feliz é o homem que obteve a vida mais elevada quando primeiro creu em Jesus Cristo. A vida divina não é nem mais baixa nem mais elevada, mas há graus crescentes de sua força. Todos eles são alcançáveis, pois Deus está perto para nos ajudar. Se Deus está perto de nós, irmãos, recursos infinitos estão perto de nós. Não precisamos ser incrédulos; não precisamos ser tristes; não precisamos ter medo. Não precisamos ser cativos do pecado; somos capazes de vencê-lo com o auxílio divino. Podemos dominar a nós mesmos, pois Deus está perto de nós para nos dar a vitória.
Não creio que qualquer de vós deva sair hoje dizendo: “Sinto-me tão entorpecido, tão estúpido, tão pouco espiritual.” Deus não está longe de nenhum de nós, e a sua presença deve remover essas queixas. Que diz Jesus? “Eu sou a ressurreição e a vida.” Buscáveis um milagre. Eis o vosso Senhor! Ele é o milagre. Recebei-o, e tereis a ressurreição e a vida. E ainda que estejais no sepulcro, envoltos em faixas e atados, se Jesus está à entrada do túmulo, ao seu comando saireis da morada da morte. Tende esperança, ó Lázaro! pois, ainda que estejas morto e em decomposição, o Cristo que te chama te dá vida. Nunca, filho de Deus, nunca penses que não podes ser cheio de vida e de poder. Aquele clamor: “Desventurado homem que sou! quem me livrará?” é ouvido pelo Deus que agora está presente, e ele te concede a vitória por meio de Jesus Cristo.
Permiti-me dizer uma vez mais: se Deus está tão perto de nós, não há razão alguma para que não desfrutemos prontamente de uma manifestação de sua glória. Moisés apascenta o rebanho de Jetro. Pobres companheiros, aquelas ovelhas lanosas! Ele as conduziu para o lado mais remoto do deserto. Pobre região, mal produz uma folha de relva para as ovelhas, e nada para o homem. Que se pode esperar num deserto uivante? Espera: ali está um arbusto! Mas que há nisso? Nenhuma uva ou figo pode ser colhido ali. Um pássaro pode repousar num arbusto, mas não um homem. Desvia-te, ó Moisés, pois Deus pode fazer daquele arbusto o trono da Deidade! O comum pode tornar-se celestial, o desprezível, divino. Ainda que hoje, querido coração, em toda a tua aflição e mortidão de alma vás para um lar que não é lar, contudo, visto que Deus está ali, ele pode manifestar-se a ti em qualquer coisa e em todas as coisas. Ele pode fazer do arbusto da tua aflição a própria manifestação de sua glória. Ele pode revelar-se a ti como não se revela ao mundo. Houve um tempo, dizem, em que Deus podia ser encontrado debaixo de uma árvore, junto ao ribeiro, perto do muro da cidade, e até numa fornalha e numa cova de leões; mas agora os homens não o veem nem mesmo nos templos. De quem é a culpa? É culpa de nossos olhos embotados e de corações ainda mais embotados. Deus está tão perto como sempre esteve. Eu o vejo nesta casa de oração. Rogo que vós o vejais, e então o lugar em que agora estais se tornará para vós terra santa por toda a vossa vida. No vosso quarto silencioso nesta tarde, não há razão alguma para que uma porta não se abra no céu. “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.” Ele mostra a sua glória aos mansos e humildes. A presença reconhecida de Deus tornará um sótão tão glorioso quanto o monte da Transfiguração. Quando Jesus é para nós Emanuel, Deus conosco, nós o vemos em sua glória, pois isto é vê-lo como ele é.
Esta verdade da presença de Deus enche-me de alegria quanto a esta minha tão amada igreja. Muitas vezes temo que não tenhamos conversões. Tenho temido que a frieza de coração se apodere de mim e de vós; e então este tem sido o meu consolo — o Senhor não está longe de nenhum de nós, e, portanto, ele pode usar-nos e operar conversões em nosso meio. Irmãos, ele pode inclinar os de fora a virem ouvir a Palavra, e, quando a ouvirem, pode abençoá-los, pois não está longe deles. Li na Vida de John Wesley uma história sobre metodistas reunidos num celeiro, e como alguns dos moradores da aldeia, que tinham receio de arrombar a porta, resolveram colocar um homem lá dentro, para que lhes abrisse a porta durante o culto, a fim de perturbarem a congregação. Esse homem entrou antes do início do culto e escondeu-se dentro de um saco num canto do celeiro. Quando os metodistas começaram a cantar, ele gostou tanto da melodia que não saiu do saco até que a ouviu inteira. Em seguida veio a oração, e, durante aquela oração, Deus operou no homem dentro do saco, de modo que ele começou a clamar por misericórdia. As boas pessoas olharam ao redor e ficaram admiradas ao encontrar um pecador dentro de um saco buscando o seu Salvador. A porta não foi aberta à turba afinal; pois aquele que pretendia fazê-lo foi convertido. Não importa por que as pessoas vêm ouvir o evangelho; Deus pode abençoá-las em qualquer caso. Se Cristo é pregado, os homens serão salvos, ainda que venham para perturbar. “Senhor”, disse-me alguém, “eu havia saído para negociar um par de patos no domingo de manhã, e passei pela porta, e pensei que daria apenas uma olhada. Ali mesmo o Senhor me encontrou, e aqueles patos foram esquecidos, pois encontrei um Salvador.” Ele não está longe de ninguém; e, em resposta à oração de fé, pode tratar com os homens e voltar os seus corações para si. Portanto, trabalhai! Ide esta tarde distribuir os vossos folhetos. Deus não está longe daquelas casas. Ficai na esquina da rua e pregai: Deus não está longe daqueles que passam. Ide à vossa classe de escola dominical, pois Deus não está longe de nenhuma das crianças. Trabalhai com alegre esperança, pois o Senhor está perto de vós.
Esta presença de Deus, que anima na vida, também sustenta na morte. Ele não está longe de nenhum de nós quando todo o mundo se afasta. Nesta manhã, o fim chegou subitamente ao nosso amigo, o Sr. Murphy. Ele esperava pregar nesta manhã, mas está realizando obra melhor. A sua congregação está reunida esperando o seu pastor; que encontrem o Mestre com eles, ainda que o servo tenha partido! Se Deus está sempre perto, que importa se vivemos ou morremos? Gostaríamos de ter nossos amigos reunidos ao redor do nosso leito para nos despedirmos deles; mas, talvez, não seja assim. Isso é de pouca importância, afinal, pois o nosso Deus estará perto. O nosso melhor Amigo estará ali; o nosso Pai estará ali; pois o nosso Deus estará ali. Segui o vosso caminho e não façais acordo algum quanto a viver ou morrer; apenas apegai-vos à promessa: “Certamente eu estarei contigo.” Deus está conosco agora, e em breve estaremos com ele. Até que rompa o dia e as sombras fujam, permanece conosco, ó Senhor. Amém e amém.
Original: Metropolitan Tabernacle Pulpit Volume 33. God’s Nearness to Us (sermão pregado em 17 de julho de 1887).